As duas biologias e a menstruação.
por Felipe A. P. L. Costa [*].
APRESENTAÇÃO. – Nenhuma outra ciência tem tantos objetos de estudo como a biologia. Para além do nível meramente descritivo, todo e qualquer item biológico requer tanto explicações funcionais como explicações evolutivas. Presumo que a maioria dos médicos ginecologistas saiba dizer como opera a menstruação. Duvido, porém, que eles tenham a mesma desenvoltura para dizer por que o fenômeno se manifesta do jeito como se manifesta. Enquanto os detalhes fisiológicos são conhecidos há muito tempo, só recentemente surgiram boas hipóteses evolutivas a respeito da menstruação.
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Nenhuma outra ciência tem tantos objetos de estudo como a biologia (Fig. 1) [1]. Confira: a biosfera abriga milhões de espécies distintas, cada qual com uma série de populações locais, cada uma delas integrada por indivíduos únicos, cada um deles formado de órgãos, tecidos e células especializados.
1. BIOLOGIA FUNCIONAL VS. BIOLOGIA EVOLUTIVA.
Aninhados em múltiplos níveis, esses objetos são a expressão fenotípica de genótipos mutáveis. Organizados em indivíduos e vivendo em arenas ecológicas (Caps. 6-7), os organismos são personagens (ora efeito, ora causa) de uma dinâmica evolutiva [2]. Emerge daí uma nova epistemologia: além do como mecanicista, todo e qualquer item biológico requer também um por que histórico. Razão pela qual se fala em duas biologias, a funcional e a evolutiva [3].
A biologia funcional (ou biologia das causas imediatas) procura explicar como os itens biológicos operam; tenta-se assim identificar os mecanismos subjacentes a eles. A biologia evolutiva (ou biologia das causas remotas) procura explicar por que os fenômenos são como são; nesse caso, busca-se identificar o valor de sobrevivência (ou valor adaptativo) daqueles itens.
Em resumo, para além do nível meramente descritivo, todo e qualquer item biológico requer tanto explicações funcionais como explicações evolutivas.
1.1. Adaptação ou penduricalho?
Os itens hereditários (morfológicos, fisiológicos, comportamentais) que integram o corpo humano têm uma longa história. Nem todos eles, porém, são adaptativos; alguns são apenas penduricalhos (Cap. 7).
Há uma longa tradição de pesquisa envolvendo a estrutura e o funcionamento do corpo humano. Razão pela qual nós temos explicações satisfatórias para inúmeros aspectos funcionais do nosso corpo – e.g., como os olhos formam imagens ou como os olhos se desenvolvem durante a vida embrionária.
Embora o como e o porquê possam se soprepor aqui e ali, as explicações dadas têm certa autonomia, a ponto de as questões serem investigadas em separado. Como a tradição do como é mais antiga, as explicações funcionais são mais numerosas. O que ajuda a explicar, por exemplo, como os ginecologistas conseguem ajudar as mulheres que os procuram com problemas no ciclo menstrual, mesmo quando eles próprios não sabem dizer por que as mulherem menstruam. Mas há também um motivo eminentemente pragmático: explicações funcionais costumam atender – ainda que parcialmente – às nossas demandas mais imediatas.
Ao longo deste livro, nós vamos conhecer algumas hipóteses usadas para explicar a origem e manutenção de uns poucos itens do corpo humano, alguns dos quais parecem ser maladaptativos – e.g., menstruação, senescência e menopausa. Falaremos a seguir da menstruação; os outros dois serão vistos no Cap. 8.
2. O CASO DA MENSTRUAÇÃO.
Presumo que a maioria dos médicos ginecologistas saiba dizer como opera a menstruação. Duvido, porém, que eles tenham a mesma desenvoltura para dizer por que o fenômeno se manifesta do jeito como se manifesta. Não é apenas uma questão de curiosidade intelectual; há implicações práticas envolvidas.
Considere, por exemplo, a possibilidade de interromper (química ou cirurgicamente) a menstruação. A suspensão cirúrgica, convenhamos, é uma decisão drástica; o aconselhamento médico, portanto, deveria estar assentado em uma sólida compreensão do fenômeno, incluindo aí os seus aspectos evolutivos. Esse embasamento sólido deveria ter início em sala de aula, durante a graduação. Mas isso não acontece, pois os futuros médicos só são apresentados à mecânica da menstruação. A rigor, os próprios professores costumam desconhecer o outro lado do assunto. Comparemos rapidamente os dois enfoques.
2.1. A mecânica da menstruação.
A cada 28 dias, aproximadamente, o sistema genital feminino (Cap. 3) passa por dois ciclos: o ovariano, durante o qual ocorre a ovulação, e o uterino (ou menstrual), durante o qual se dá a menstruação. Na primeira metade do ciclo ovariano, um oócito primário matura, tornando-se oócito secundário (óvulo), sendo este expelido do ovário em direção ao interior da tuba uterina (ovulação). Em seguida, as células do ovário envolvidas na maturação do oócito formam uma massa de tecido endócrino (corpo lúteo), que produz hormônios (estrogênio e progesterona) por cerca de duas semanas. Se nesse período o óvulo liberado não for fertilizado, o corpo lúteo degenera.
Cerca de cinco dias após o início do ciclo ovariano, começa o ciclo uterino, no qual um novo revestimento interno do útero (endométrio) é construído e, caso não haja a chegada e o implante de um óvulo fertilizado (ou blastocisto), destruído. A preparação do útero alcança seu ponto máximo cerca de cinco dias após a ovulação e assim permanece por mais nove dias. Se um blastocisto não se fixar nesse intervalo, o endométrio entra em colapso, desprende-se e flui para fora do corpo pela vagina – esse fluxo é a menstruação. Em média, as mulheres perdem 50 mL de sangue e células epiteliais a cada período, que em geral dura de quatro a cinco dias [4].
A preparação para o início desses processos normalmente acontece quando a menina tem entre nove e dez anos. A primeira menstruação (menarca) ocorre quando ela tem 12-13 anos. A última (menopausa) segue um calendário mais flexível, mas em geral ocorre na quarta ou quinta década de vida da mulher [5].
Antes de cessar definitivamente, a menstruação passa por períodos de atrasos ou suspensões temporárias.
2.2. Aspectos evolutivos.
Os parágrafos acima podem ser vistos como um breve resumo de como a menstruação opera no corpo das mulheres. Um especialista nos faria um relato mais minucioso, enquanto um grande estudioso do assunto nos conduziria por uma viagem ainda mais longa, revelando até mesmo os detalhes moleculares do processo. Por mais extensos e detalhados que sejam, porém, tais relatos estão a nos contar apenas e tão somente como o fenômeno se desenrola. Uma resposta satisfatória a esse tipo de pergunta não precisa oferecer mais do que isso: uma explicação (hipotética) envolvendo a descrição de eventos que se sucedem, ocorrem simultaneamente ou se influenciam mutuamente no interior do corpo. E é isso, e apenas isso, o que nós encontramos nos bons manuais de fisiologia (e.g., Cingolani & Houssay 2004, Guyton & Hall 2006).
Todavia, por mais extenso e detalhado que seja, um relato da mecânica da menstruação não responde à nossa segunda pergunta – por que as mulheres menstruam? Com esse tipo de pergunta, nós assumimos uma nova postura diante da questão – digo: o tópico é o mesmo, mas o enfoque agora é outro.
Ao perguntarmos o porquê de determinado fenômeno ou processo, já não estamos a lidar apenas com a fisiologia, mas também com a história dessa fisiologia – i.e., como e por que uma dada fisiologia se estabeleceu. No nosso caso, especificamente, indagar ‘por que as mulheres menstruam?’ equivaleria a perguntar ‘por que a menstruação evoluiu?’. Neste ponto, já conhecendo o terreno em volta, caberia dar um passo além e indagar: afinal, a evolução da menstruação foi ou não guiada por alguma vantagem adaptativa?
2.3. A menstruação é uma adaptação?
Enquanto os detalhes fisiológicos são conhecidos há muito tempo, só recentemente surgiram boas hipóteses evolutivas a respeito da menstruação [6]. Uma delas, publicada em 1993, foi formulada por Margaret Profet (nascida em 1958). De acordo com a pesquisadora estadunidense, a menstruação teria se estabelecido como um mecanismo de defesa contra patógenos transportados para dentro do útero por espermatozoides infectados. Embora tenha encontrado mais obstáculos do que apoio, a novidade mexeu com o meio acadêmico.
Três anos depois surgiria uma nova hipótese adaptativa. Além de contestar as ideias de Profet, Beverly [Ilse] Strassmann (nascida em 1957) lançou mão de outros argumentos. De acordo com a antropóloga estadunidense, a menstruação seria fruto de um balanço energético – construir, destruir e reconstruir o endométrio consumiria menos energia do que mantê-lo permanentemente preparado para receber um embrião ocasional.
De lá para cá, claro, apareceram hipóteses adicionais (adaptativas ou não), como aquela que diz que a menstruação teria evoluído como um indicador externo do ciclo reprodutivo feminino. Até agora, porém, nenhuma delas se estabeleceu como uma hipótese hegemônica.
2.4. Considerações finais.
Ainda que nenhuma dessas hipóteses sobreviva no médio ou longo prazo (afinal, todas podem se revelar equivocadas – ver, e.g., Finn [1998]), não há dúvida de que o enfoque evolutivo lançou uma nova luz sobre o assunto. Assunto, aliás, ainda hoje cercado de preconceitos e mal-entendidos, inclusive entre os estudiosos [7]. Basta dizer que ainda há fisiologistas que não entendem ou não levam a sério os argumentos apresentados pelos evolucionistas. Para os mais sectários, os “processos fisiológicos são o que são, e pronto”. Mas há fisiologistas sensatos, muitos dos quais estão a explorar a inspiração e os múltiplos lampejos que a biologia evolutiva tem oferecido ao estudo da biologia humana [8].
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NOTAS.
[*] Artigo extraído do livro Por que morremos? – Alguns tópicos de biologia que o seu médico deveria ter estudado (no prelo). Parte deste artigo apareceu na edição n. 257 (março de 2009) da revista Ciência Hoje. Sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir pacotes com os quatro livros já publicados do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir o pacote ou algum volume específico, ou para mais informações, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.
[1] A astronomia pode alegar que o número de objetos astronômicos é maior, mas não pode alegar que a diversidade de objetos é maior.
[2] Um exemplo: entre 1896 e 1996, a estatura média da população humana aumentou de modo significativo em quase todos os países. Em termos absolutos, os maiores ganhos ocorreram na Coreia do Sul (mulheres) e no Irã (homens). Em um intervalo de 100 anos (4-5 gerações), as mulheres sul-coreanas ficaram 20,2 cm mais altas (>140 / >160 cm) e os homens iranianos, 16,5 cm mais altos (<160 / >170 cm) – v. NCD-RisC (2016).
[3] Embora não tenha sido o primeiro a distinguir entre causas próximas e remotas (Beatty 1994), a proposta de Mayr (1961) foi um marco e segue sendo valiosa (Otsuga 2015). Eis o comentário de Krebs & Davies (1996, p. 4) sobre outro autor que tratou do assunto: “Niko Tinbergen, um dos fundadores da etologia, enfatizou que havia muitas maneiras diferentes de responder à questão ‘Por quê?’ em biologia. Estas passaram a ser reconhecidas como as quatro perguntas de Tinbergen (Tinbergen, 1963). Por exemplo, se perguntarmos por que os estorninhos cantam na primavera, nós poderíamos responder da seguinte maneira: 1. Em termos de valor de sobrevivência ou função. Os estorninhos cantam para atrair parceiros para o acasalamento. 2. Em termos de causalidade. Porque o aumento no comprimento do dia desencadeia mudanças nos níveis hormonais, ou pela maneira [como] o ar flui através da siringe e provoca vibrações na membrana. Estas são respostas sobre os fatores externos e internos que levam os estorninhos a [cantar]. 3. Em termos de desenvolvimento. Os estorninhos cantam porque eles aprenderam os cantos de seus pais e vizinhos. 4. Em termos de história evolutiva. Esta resposta seria sobre como o canto evoluiu nos estorninhos a partir de seus ancestrais. [As aves viventes] mais primitivas emitem sons muito simples, portanto é razoável supor que o canto complexo dos estorninhos e de outras [aves canoras] tenha evoluído a partir de chamados ancestrais mais simples.” Vale registrar que a dicotomia causas imediatas vs. remotas não esgota o modo como a relação causa-efeito é examinada em biologia.
[4] A perda de sangue ocorre apenas em alguns placentários: catarrinos, morcegos (alguns gêneros) e mais uma ou outra espécie – v. Emera et al. (2012).
[5] Diz-se que a mulher atingiu a menopausa se ela ficou sem menstruar por 12 meses (Fraser et al. 2020). Cabe distinguir entre o fim da vida reprodutiva (idade em que a mulher teve o último filho) e o fim da vida fértil (idade da última menstruação). Em média, a primeira ocorre 10 anos antes da segunda.
[6] Sobre as duas hipóteses, v. Profet (1993) e Strassmann (1996).
[7] Nas palavras de Angier (1998, p. 177): “A mulher menstruada foi muitas vezes vilipendiada, ou banida do povoado para passar seus dias sangrendos em solidão. Até a clássica explicação médica tem o sentido de perda. A mulher sangra todos os meses, diz a história, como uma maneira de descartar seu óvulo não fecundado e a camada uterina que havia sido otimisticamente aumentada para receber o bebê que nunca chegou. Quando o útero está vazio, ele chora.” Sobre o trabalho de Profet, anotou Angier (1998, p. 178): “Essa hipótese ousada tem um grande número de implicações médicas. Se o sangramento ajuda a prevenir infecções, as mulheres devem evitar contraceptivos que eliminem inteiramente a menstruação. Além disso, sangramentos uterinos sem explicação devem ser vistos como um possível sinal de infecção, um sintoma de que o corpo está lutando para impedir a doença.”
[8] Desconheço a publicação em português de algum manual de biologia humana, excetuando uma obra que apareceu por aqui há mais de meio século (Harrison et al. 1971). Em outros idiomas, claro, há vários títulos disponíveis – e.g., Muehlenbein (2010) e Chiras (2019). Para um feliz casamento (em port.) entre fisiologia humana e teoria evolutiva, v. Ashcroft (2001).
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REFERÊNCIAS CITADAS.
+ Angier, N. 1998 [1995]. A beleza da fera. RJ, Rocco.
+ Ashcroft, F. 2001 [2000]. A vida no limite. RJ, J Zahar.
+ Beatty, J. 1994. The proximate/ultimate distinction in the multiple careers of Ernst Mayr. Biology & Philosophy 9: 333-56.
+ Chiras, DD. 2019. Human biology, 9th ed. Burlington, J & Bartlett.
+ Cingolani, HE & Houssay, AB, orgs. 2004 [2000]. Fisiologia humana de Houssay, 7ª ed. P Alegre, Artmed.
+ Emera, D & mais 2. 2012. The evolution of menstruation: A new model for genetic assimilation. Bioessays 34: 26-35.
+ Finn, CA. 1998. Menstruation: A nonadaptive consequence of uterine evolutivon. Quarterly Review of Biology73: 163-73.
+ Fraser, A & mais 3. 2020. The evolutionary ecology of age at natural menopause: implications for public health. Evolutionary Human Sciences 2: e57.
+ Guyton, AC & Hall, JE. 2006. Tratado de fisiologia médica, 11ª ed. RJ, Elsevier.
+ Harrison, GA & mais 3. 1971 [1964]. Biologia humana. SP, Nacional & Edusp.
+ Krebs, JR & Davies, NB. 1996 [1993]. Introdução à ecologia comportamental, 3ª ed. SP, Atheneu.
+ Mayr, E. 1961. Cause and effect in biology. Science 134: 1501-6.
+ Muehlenbein, MP, ed. 2010. Human evolutionary biology. Cambridge, CUP.
+ NCD-RisC. 2016. A century of trends in adult human height. eLife 5: e13410.
+ Odum, EP. 1976 [1959]. Fundamentos da ecologia, 2ª ed. Lisboa, C Gulbenkian.
+ Otsuga, J. 2015. Using causal models to integrate proximate and ultimate causation. Biology & Philosophy 30: 19-37.
+ Profet, M. 1993. Menstruation as a defense against pathogens transported by sperm. Quarterly Review of Biology68: 335-86.
+ Strassmann, BI. 1996. The evolution of endometrial cycles and menstruation. Quarterly Review of Biology 71: 181-220.
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AMBAR
17 de julho de 2025 1:58 pm” Presumo que a maioria dos médicos ginecologistas saiba dizer como opera a menstruação. Duvido, porém, que eles tenham a mesma desenvoltura para dizer por que o fenômeno se manifesta do jeito como se manifesta.”
HÁ UMA RESPOSTA DIVINA PARA ESSA QUESTÃO, EI-LA –
Quando estavam no paraiso, Eva e Adão, dizem que tentados pela serpente da sabedoria provaram do fruto do conhecimento e se perceberam nús. Deus, o criador lá deles, que os advertira sobre as consequência de se provar desse fruto proibido, puniu-os de maneira exemplar e, aparentemente eterna.
Ao Adão vaticinou que este ganharia o pão com o suor de seu rosto (não se tem notícia de panificadoras na época). À Eva, por supostamente ter tomado a iniciativa da primeira mordida, vaticinou : “e parirás na dor”, além de outras desgraças advindas de sua conjunção com o Adão.
Eva, desesperada rogou ao senhor que não poderia viver essa maldição o tempo todo, que estava muito arrependida, e se essa maldição não poderia ser de alguma forma mitigada, já que fora tentada pela serpente e não pecara sozinha. Misericordioso, deus reconsiderou em parte, vaticinando -“Vais me pagar em prestações mensais, MENSTRUARÁS, assim como tuas descendentes, terás todo mês um mini parto na tua vida útil reprodutiva. Assim, com ou sem conjunção carnal, a Eva pagou o tributo, assim como as outras fêmeas da natureza que nem comeram maçã.