no Substack: Amanhã não existe ainda
Os tornozelos do capitão
por Luis Felipe Miguel
Quando de manhã Jair acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado não num monstruoso inseto, mas em algo que não sabia bem definir.
Num gesto automático, esticou a mão para a mesa de cabeceira, para pegar o celular, se informar nos seus perfis favoritos e dirigir a palavra àqueles que o chamam de “mito”. Mas lembrou que estava proibido de usar as redes sociais. Os cretinos queriam censurar tudo, para impedir que o povo soubesse a verdade!
“Maldito Xandão!”, praguejou.
Levantou-se com dificuldade e percebeu que algo estava diferente. Olhando para baixo, viu um volume estranho, sob a perna da calça do pijama.
“Maldito Xandão!”, repetiu Jair em voz baixa, enquanto se arrastava para o banheiro.

Mijou em pé, em jatos curtos e espaçados, despreocupado com os pingos de urina que caiam pelo chão. Depois, foi lavar a cara.
Diante do espelho, observou o rosto macerado, as bolsas sob os olhos opacos, o nariz bulboso, a papada flácida, os cabelos grisalhos desalinhados. O que ele via refletido? Uma vítima. Um homem injustiçado, perseguido por forças desleais, esmagado por um sistema tirânico.
Os olhos de Jair marejaram, de tanta dó que sentia de si mesmo. Como era possível que as pessoas não se comovessem com seu martírio? Sim, realmente, falta humanidade, falta empatia neste mundo.

Lembrando que homem que é homem não chora, Jair enxugou o canto dos olhos. “Foco”, disse de si para si. Nada de autocomiseração. Era preciso planejar os próximos passos.
Ele sabia que Dudu estava agindo por ele e que a ajuda esperada viria. Sim, Donald haveria de salvá-lo. Imaginou o enorme porta-aviões cinzento, do tamanho de uma baleia, dominando o Lago Paranoá. Viu os marines ocupando Brasília, com uniformes de camuflagem, e arrastando seus inimigos pela Praça dos Três Poderes. Viu a si mesmo retornando em triunfo ao Palácio do Planalto. Pensou no Nine correndo para a embaixada da Venezuela e no Xandão humilhado, amarrado com cordas, empurrado pelos soldados, exposto ao escárnio dos passantes.
Quando a França foi liberada, no final da guerra, os colaboracionistas eram expostos assim. Costumavam também raspar o cabelo deles, mas para Xandão, infelizmente, isso não surtiria efeito.
Para coroar a fantasia, Donald em pessoa sairia do porta-aviões e viria abraçá-lo, dando tapinhas em suas costas e dizendo ternamente “Jair, my dear Jair”.

Uma nuvem turvou o devaneio. Lembrou que Donald, ainda quando foi elogiá-lo, um dia desses mesmo, começou com uma ressalva: “não é um amigo meu, mas” – e só aí veio com “é um bom homem”, “respeitado” etc. Não é um amigo meu. Que injustiça. E pensar em tantas juras de amor, em tantos “I love you” jogados ao vento.

Melhor nem pensar nisso. Melhor voltar à realidade. Donald já estava fazendo a sua parte. Ameaçou dobrar as tarifas, para 100%. Rá! Também ameaçou cortar o sinal de GPS do Brasil. Vamos viver num país sem Google Maps, uma verdadeira Idade Média.
O mais importante, ele não ficou só nas ameaças. Tomou medidas concretas. Agora Xandão e os outros não podem mais ir a Miami. Jair deu uma risada pensando na cara deles quando o André, o Kássio e também o Fux postassem fotos na Disneylândia. Abraçados no Pateta e o Xandão se mordendo de inveja.
Uma inquietação atravessou sua mente. Será que o André, tão terrivelmente evangélico, pode ir à Disney? As crianças deviam ler histórias bíblicas, quadrinhos profanos são quase uma idolatria. Será mesmo?
Não importa. Eles todos podem ir ao Estados Unidos, incluindo o André. Xandão e os outros não. Rá!
Se tudo der certo, se os marines desembarcarem ou se as ameaças e sanções surtirem efeito, com o Supremo recuando e a anistia saindo, ele volta à presidência, tem certeza. Vão dizer que é golpe, claro. E daí? Esse pessoal vê golpe em tudo, sem o menor fundamento. Não tem nenhum espírito esportivo.

Por outro lado, se o GPS cair mesmo, pensou Jair, não existe mais monitoramento, ninguém vai saber onde ele está. Na verdade, nem precisaria de tanto. Qualquer boa tesoura resolvia a parada. Vários de seus apoiadores tinham feito isso. Os malucos – Jair riu, lembrando que tinha chamado os caras de “malucos” e eles ainda assim continuavam com ele. Isso era ser um grande líder. Você pode enganar, desprezar, espinafrar, humilhar, xingar, mas seus seguidores continuam leais. É algo que ele tem em comum com Donald. São dois grandes líderes.
Sim, os malucos tinham fugido. Até a pistoleira escapou, nas barbas do Supremo. O mais engraçado é que não fugiu para a Espanha, sim para a Itália.
“Maldita pistoleira”, resmungou Jair, que ainda a culpa pela derrota nas eleições. Se bem que não foi ela. Foi a fraude nas urnas. Complicado isso, melhor não acarear as duas explicações. Sempre melhor assim.
Seja como for, ela está agora comendo spaghetti e passeando de gôndola na Fontana de Trevi. E ele está ali, de frente ao espelho, com um calombo na perna do pijama.

Só que para ele não é tão fácil assim. É uma celebridade. Um grande líder é, por definição, alguém muito conhecido. Assim que sair na rua vai ser reconhecido. Não é simples se esgueirar para a embaixada dos Estados Unidos ou até a fronteira com a Argentina.
Já pensou se for pego? Escondido no porta-malas de um carro ou disfarçado com uma peruca?
Mesmo diante da gravidade da situação, Jair riu ao pensar na palavra “peruca”, lembrando que Fux tinha escapado da proibição de ir aos Estados Unidos. Será que já dá para contar 100% com ele? O Sergio tinha razão, “in Fux we trust”.
E logo passou para outra digressão, rememorando a fase em que o Sergio tentou colocar as manguinhas de fora, mas daí tomou um toco e voltou a ser um bom capacho. Ali Jair mostrou quem era o grande líder, pensou Jair.
Enfim: o risco de tentar escapar. Ser pego assim seria muita humilhação. Seria uma vergonha. Seria preso e acabaria no opóbrio. Oprobo. Obropo. Sei lá, aquela palavra que o professor Olavo ensinou e que significa o oposto da glória.
Professor Olavo, um chato de galochas que se achava melhor do que todo mundo e no final das contas só queria uns trocados. Igual àquele pastor Silas, que apoia e esculhamba ao mesmo tempo e acha que tem o rei na barriga. Jair volta a sentir pena de si mesmo, sempre cercado de víboras. Olha esse Tarcísio! Não era ninguém, um ex-militarzinho sem brilho que largou a carreira e virou um burocratazinho de bosta. Se não fosse por Jair, estaria até hoje lá em Brasília puxando o saco de algum petista para arranjar um carguinho no governo do Nine.
Pois agora Tarcísio ficava no chove-não-molha, dando uma no cravo e outra na ferradura, mordendo e assoprando. Se chegar à presidência, é capaz de nem dar o indulto para Jair. E, se der, vai ser só pela mise-en-scène: o Supremo barra e com certeza ele não enfrenta.
Por isso, concluiu Jair, sou um homem de família. Não dá para confiar em ninguém, só na família. Nem na Michelle, que se faz de sonsa, mas a gente vê que quer ocupar o lugar dele. Uma grande líder mulher, onde já se viu uma coisa dessas? Família é o sangue do próprio sangue e é só com esses que Jair sabe que pode contar.
Tá certo, Flávio às vezes é meio frouxo, Carlos é temperamental, Renan é muito garoto, a fraquejada, bom, é uma fraquejada. Mas Dudu é o esteio. Um rapaz de ouro e que, por sorte, ainda fala um inglês fluente, perfeito.
Não é esse inglês de “the book is on the table”, não, tá okay? É muito melhor, é “the steak is on the grill”. Jair deu um sorriso, lembrando do gracejo que alguém tinha lhe contado e cujo sentido intuiu.
Voltou a se enternecer, com a imagem de Dudu na cabeça. Foi maldade do Xandão sem coração proibir os dois de se falarem, mas é claro que ninguém controla isso. Que nem quando ele estava proibido de fazer contato com que aquele Valdemar, mas ainda assim mandou recado suficiente para ele não se fazer de besta e andar na linha.
Mesmo sem instruções, Dudu sabe como se comportar. É o melhor embaixador na terra de Donald e está fazendo acontecer.
“Eu só não queria morrer na cadeia”, pensou Jair, e seus olhos se encheram d’água de novo. Pensou em tudo o que tinha feito pelo Brasil. Uma carreira nas Forças Armadas, décadas de serviço público no parlamento, um mandato presidencial repleto de realizações. E agora… aquilo – e Jair voltou a olhar para a intumescência sob a perna de seu pijama.

Quanta ingratidão.
Mas não havia muito o que fazer. Jair estava metamorfoseado em um futuro presidiário.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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NELSON VIANA DOS SANTOS
21 de julho de 2025 6:56 pmExcelente!!! E muito oportuna a ilustração desse divertido texto com fotografias do período em que essa figura sórdida ocupou a presidência. Sobretudo a última pois, para espanto de ninguém, as pessoas já vão se esquecendo ou já esqueceram das dezenas de milhares de vidas que poderiam ter sido salvas se a vacina tivesse sido comprada. Lembrando o debate do segundo turno, quando perguntado por Lula: por que não comprou a vacina? a resposta foi: porque eu li a bula. Cadeia para o maior criminoso da história desse triste país.