no Substack: Amanhã não existe ainda
Messi ou Pelé?
por Luis Felipe Miguel
Até eu, que não me interesso por futebol, parei para ver alguns dos jogos da Argentina. O fato é que Lionel Messi joga muita bola, é um negócio impressionante. (Menos na final, claro.) Eu disse que estava torcendo contra os hermanos, porque estava vindo para Buenos Aires, para participar de um congresso, e eles estariam insuportáveis caso tivessem se sagrado tetracampeões. Mas não tive como não torcer pela Argentina na semifinal contra a Inglaterra. E não só porque sempre torço contra monarquias.
Comentarista de futebol é ainda pior que comentarista de política: tem que tirar leite de pedra, produzir análises sobre poucos fatos que todo mundo mais também está analisando e comentando. Daí, um tema inevitável quando falta inspiração é a pergunta sobre quem é o maior jogador de todos os tempos, Pelé ou Messi.
A resposta é simples: nenhum dos dois. Eles simplesmente não são comparáveis, não porque – como às vezes cometem alguns jornalistas imbuídos de espírito patriótico – Pelé era Deus e Messi é apenas um excepcional jogador de futebol. Aliás, isso é uma heresia, obviamente, já que há farta evidência empírica mostrando que Deus era Maradona.
Mas o ponto é que Pelé e Messi jogavam jogos diferentes: o preparo físico, a tática, até mesmo as regras do futebol mudaram enormemente. Um Pelé que jogasse hoje teria que ser um jogador diferente, assim como um Messi que tivesse disputado a Copa de 1970.
Por isso, também as métricas tão apreciadas por gente que se quer “objetiva“ não resolvem nada. O artilheiro de uma Copa com 48 seleções não pode ser comparado a outro que disputou um torneio com 16 seleções, muito menos partidas, muito menos equipes fracas. Por outro lado, fazer dois ou três gols quando os esquemas defensivos eram mais primários e a média de gols por partida era muito maior não é a mesma coisa do que fazer hoje, muito menos na era de ouro da retranca, antes da mudança na lei do impedimento. Há o gol de mero oportunismo e o gol de placa, há a assistência banal e a assistência genial.
Essa coisa de buscar o melhor disso, o melhor daquilo, parece atender a alguma necessidade da nossa psicologia, mas em geral é uma bobagem.
Tenho uma particular repulsa pela modinha que faz com que influenciadores apresentam alternativas a seus entrevistados, de duas em duas, numa espécie de mata-mata sem fim para saber quem é “o melhor de todos”. Daí a pobre vítima tem que decidir o que é melhor: paçoca ou feijoada, dry martini ou piña colada, Mozart ou Magal, Marx ou Aristóteles.
Vi um “corte” de um jornalista “progressista” pedindo para sua entrevistada escolher quem era a maior revolucionária. A entrevistada tinha que escolher entre Dilma Rousseff e Rosa Luxemburgo, Frida Kahlo e Alexandra Kollontai. Um negócio sem pé nem cabeça.
Acho que é isso que me incomoda. O que antes era conversa de boteco virou o alimento mental das pessoas, nas novas mídias e, por imitação, nas velhas também. Assim caminha a imbecilização da humanidade.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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