7 de junho de 2026

Trump recua. Chickens out. Mas o Brasil segue sob ataque, por Maria Luiza Falcão

A adesão da extrema direita a Trump, com Eduardo Bolsonaro e aliados buscando sanções para favorecer Jair, só tornou tudo mais surreal.
Shealah Craighead - White House - Flickr

Trump recua. Chickens out. Mas o Brasil segue sob ataque

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por Maria Luiza Falcão Silva

Donald Trump acaba de recuar. A tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, anunciada com estardalhaço no início de junho e prevista para entrar em vigor em 1º de agosto, foi suspensa. O motivo alegado? “Avaliação técnica em curso sobre impactos para o consumidor americano.” A verdade? Trump chickened out. Amarelou. Recuou sob pressão.

Desde o início, o tarifaço soava mais como chantagem política do que como uma medida econômica racional. Carnes, café, frutas tropicais, suco de laranja e até aeronaves brasileiras foram alvos não por ineficiência, mas por excelência. O pretexto era “defesa da indústria americana”, mas o real motivo era político: retaliação contra decisões soberanas do Brasil, incluindo a postura firme do Supremo Tribunal Federal e do governo Lula em defesa da democracia.

A adesão da extrema direita brasileira a Trump, com Eduardo Bolsonaro e aliados buscando sanções para favorecer Jair Bolsonaro, só tornou tudo mais surreal. Era o Brasil sendo alvejado por sua própria extrema direita, agora com assento informal na Casa Branca.

O recuo: pressão de dentro e de fora

A verdade é que o tarifaço encontrou forte resistência nos EUA. Empresários da Flórida e do Texas alertaram para o aumento de preços de alimentos. Restaurantes, cafeterias, supermercados e a poderosa indústria de fast food protestaram contra a medida. O café brasileiro, que chega fresco e barato, ameaçava virar artigo de luxo. A carne também sofreria encarecimento imediato para consumidores já afetados por inflação alimentar.

No plano internacional, a medida isolava ainda mais os EUA em relação ao BRICS+ e ao Sul Global. O Itamaraty, mesmo com discrição, costurava apoios nos bastidores. Até mesmo alguns aliados europeus de Trump consideraram a ação “exagerada”.

Trump tentou rugir, mas teve que miar. A imagem de homem forte da economia começa a desmoronar quando os próprios consumidores americanos reagem à alta de preços nos supermercados, e quando os lobbies comerciais batem à porta da Casa Branca.

Vitória brasileira? Sim. Mas o ataque mudou de forma

O Brasil teve uma vitória parcial. Mostrou que tem aliados, que a chantagem tem limite e que a dignidade econômica e diplomática ainda resiste. Mas é cedo para baixar a guarda. O recuo pode ser momentâneo, um recálculo político. Soa como uma forma de desviar a atenção do desastre do tarifaço.

O ataque mudou de forma. Com o fracasso do tarifaço, Trump mirou diretamente o coração da democracia brasileira, a Suprema Corte. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) que enfrentou os golpistas de 8 de janeiro e resistiu às pressões de setores autoritários ligados ao bolsonarismo foi o alvo.

A sanção imposta a Alexandre de Moraes foi feita com base na chamada Global Magnitsky Act, uma legislação dos Estados Unidos criada originalmente para punir indivíduos estrangeiros acusados de corrupção ou violações graves de direitos humanos. Inspirada no caso do advogado russo Sergei Magnitsky, morto sob custódia após denunciar corrupção estatal, a lei permite que o governo dos EUA congele ativos e negue vistos a pessoas que considerar envolvidas em abusos. O problema é que, no caso brasileiro, essa legislação foi usada de forma distorcida e politicamente motivada: não há crime, não há violação de direitos. O que há é um juiz constitucional defendendo a democracia contra ataques golpistas. Usar a Magnitsky Act contra Moraes é uma aberração jurídica e uma grave afronta à soberania do Brasil.

A ofensiva, disfarçada de ato administrativo, é, na prática, uma tentativa de intimidar as instituições brasileiras e favorecer seus aliados internos. É mais do que um ataque pessoal. É um ataque à soberania jurídica do Brasil.

A soberania está em jogo

Trump chickened out, mas não desistiu. Se o ataque econômico falhou, agora a tática é institucional. Quando não se pode dobrar o país pela tarifa, tenta-se desmoralizar suas instituições, seus juízes, suas leis, sua democracia. O Brasil precisa entender a gravidade desse novo estágio.

O que está em jogo não é apenas o comércio de café ou carne bovina. É o respeito à soberania brasileira. É a capacidade de dizer não à chantagem, venha ela em forma de tarifa ou de sanção.

Trump mostrou que recua quando encontra resistência. Mas também mostrou que não tem limites quando sente espaço. O Brasil venceu uma batalha, mas a guerra pela autonomia e pelo respeito está longe de acabar.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Anônimo

    30 de julho de 2025 7:34 pm

    Na minha cabeça essa lei magnit… serviria sob medida para ser aplicada a Netanyahu!!! Que tal começarmos essa campanha???

    1. geraldo fontes

      31 de julho de 2025 8:21 am

      Esse é sócio do Rei, não pode ser incomodado. O que ninguém vê é a quantidade de dinheiro que Trump e seus operadores estão ganhando com as informações privilegiadas saídas do Salão Oval

  2. Rui Ribeiro

    31 de julho de 2025 7:42 am

    Taco (Trump always chickens out) com seu taco de baseball.

    Rui Ribeiro 25 de julho de 2025 às 10:05 am. Trump always chickens out. Ele sempre amarela

    https://jornalggn.com.br/projeto-brasil/projeto-brasil-trump-e-a-politica-nacional-de-defesa/

  3. Rui Ribeiro

    31 de julho de 2025 8:34 am

    As super-tarifas trumpianas foram motivadas por ações que “prejudicam empresas americanas e os direitos de liberdade de expressão de cidadãos americanos”. Prejuízo? Trump é mentiroso ou desinformado. As empresas estadunidenses não são prejudicadas, pelo contrário, são beneficiadas ao importarem commodities brasileiras.

    Como é que o Brasil prejudica a liberdade de expressão de cidadãos estadunidenses?

    Porque muitos bens podem ser importados com tarifas normais mesmo com prejuízo às empresas americanas e nada obstante a continuidade das ações (no STF) que motivaram o tarifaço?

    1. GalileoGalilei

      31 de julho de 2025 5:57 pm

      Sabe como é que o Brasil prejudica a liberdade de expressão de cidadãos estadunidenses? Exatamente da mesma forma com que o cordeiro polui a água do rio em que o lobo vem beber; apesar de ficar a jusante de onde o lobo se encontra. Graças a Esopo os gregos antigos já conheciam a artimanha. La Fontaine relembrou aos franceses e ao mundo. Trump é burro e truculento. Preside o país de maior poder militar do planeta. Mas a postura de Lula, diferente da de Ursula von der Leyen, está sendo admirada lá fora. Inclusive por norte-americanos que começaram a perceber a furada em que se meteram ao eleger o agente laranja como presidente.

      1. Rui Ribeiro

        1 de agosto de 2025 8:34 am

        Maior poder militar do mundo? Eles tem como abater um míssil oreshnik, que voa rasante, é manobrável e cuja velocidade é supersônica? Acho que nem mesmo com o Golden Dome eles conseguirão abater um míssil nessas condições.

        Como é que o maior poder militar do mundo juntamente com a Europa não aniquilam a Rússia, contra quem estão em guerra por procuração outorgada à Ucrânia?

        No que tange ao restante do seu comentário, eu concordo 101% com você em grau, número e gênero.

        1. GalileoGalilei

          1 de agosto de 2025 2:55 pm

          O fato de ter o maior poder militar do planeta não lhes dá o poder de travar e vencer uma guerra contra Rússia ou China. Tanto Rússia como China possuem o poder de destruir os EUA em uma guerra nuclear em que nenhum país seria vencedor. Até mesmo uma Coreia do Norte, hoje, possui um poder de retaliação suficiente para os EUA pensarem duas vezes. Mesmo países que não se envolvessem nessa guerra, tais como o Brasil, sofreriam consequências desastrosas. Entretanto, o poder militar que os EUA possui lhe é suficiente para ameaçar países como o Canadá, Panamá, Dinamarca (Groenlândia), México e agora também o Brasil. Nem há a necessidade de fazer referência ao poderio militar, mas a prepotência com a qual Trump se dirige a esses países pressupõe implicitamente a assimetria militar

      2. GalileoGalilei

        1 de agosto de 2025 3:04 pm

        Verifiquei agora que o comentarista AMBAR publicou comentário muito semelhante ao meu, em 31 de julho de 2025 às 15:21, no artigo Lula pode renascer com a volta do Sr. Crise, por Luís Nassif. Embora meu comentário tenha sido publicado 36 minutos depois, eu não tinha lido o do AMBAR.

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