4 de junho de 2026

Trump, Bolsonaro e o Reich do Século XXI, por Gustavo Tapioca

O que poderia soar como exagero, na verdade é um exercício necessário de memória, especialmente diante do avanço global da extrema direita.
Alan Santos / PR

Trump, Bolsonaro e o Reich do Século XXI

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Gustavo Tapioca

No artigo “Jogando Bolsonaro ao mar”, publicado na edição da quinta-feira (7) da Folha de S. Paulo, o jornalista Ruy Castro volta a usar sua verve afiada para lançar um alerta com ecos históricos profundos. Em um texto curto, mas poderoso, Castro acende o sinal vermelho ao traçar um paralelo provocador entre Donald Trump, Jair Bolsonaro e ninguém menos que Adolf Hitler. O que poderia soar como exagero apressado, na verdade, é um exercício necessário de memória especialmente diante do avanço global da extrema direita.

Ruy Castro faz uma pergunta desconcertante:

“Era uma vez um político que, legitimamente eleito, vestiu a farda de ditador e tentou impor ao mundo seu estilo de governar — intimidar, dividir, desestabilizar, perseguir, humilhar, subjugar, expulsar e tocar o terror. Quem é? Adolf Hitler? Não. Donald Trump.”

A intenção do autor não é promover uma equivalência histórica entre o nazismo e o trumpismo. O Holocausto continua sendo um trauma singular na história da humanidade. No entanto, o jornalista traça paralelos táticos e estratégicos entre os dois líderes: o uso do medo como ferramenta política, a manipulação das massas por discursos de ódio, o racismo institucionalizado, o apelo messiânico, a perseguição a adversários e minorias e a tentativa de instaurar um poder absoluto.

Nesse sentido, Trump encarna uma nova roupagem do fascismo do século XXI. Um fascismo de paletó e gravata, travestido de patriotismo e liberdade, mas que opera com a mesma lógica de exclusão, repressão e autoritarismo. Seu objetivo — como alerta Castro — seria a construção de um Reich planetário: “um império branco, plutocrático, ultraconservador e, se possível, eterno.”

A analogia não é gratuita. A extrema direita global, com Trump como símbolo maior, não atua isoladamente. Alimenta redes, financia desinformação e influencia diretamente outros líderes autoritários, como Viktor Orbán na Hungria, Javier Milei na Argentina, e, claro, Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo no Brasil, entre outros.

Bolsonaro e Trump: aliados na hora do show, traidores na hora da queda

Ao longo do artigo, Ruy Castro desmonta também o mito da aliança entre Bolsonaro e Trump. Ao contrário do que apregoam os seguidores dos dois, a ligação entre eles é mais oportunista do que ideológica e, principalmente, totalmente descartável. Castro conclui o texto com uma frase que sintetiza essa visão:

 “Os dois têm uma coisa em comum: não vacilam em jogar os amigos ao mar.”

A sentença é certeira. Trump, diante das próprias investigações e dos riscos crescentes de condenação judicial, não hesita em abandonar seus antigos aliados à própria sorte. Foi assim com Michael Cohen, Steve Bannon, Rudy Giuliani, e até com o vice Mike Pence. Todos descartados sem cerimônia quando deixaram de ser úteis ou passaram a ser incômodos.

Bolsonaro segue a mesma cartilha. Já rifou ministros como Santos Cruz, Mandetta, Ricardo Salles e Sérgio Moro e vários políticos aliados desde oprimeiro momento, a exemplo de Gustavo Bebiano. Também se  afastou de velhos camaradas militares e abandonou sem pestanejar bolsonaristas presos após os ataques golpistas de 8 de janeiro. O “mito”, que exigia lealdade cega de seus seguidores, demonstrou que sua fidelidade é apenas consigo mesmo e com sua sobrevivência política e jurídica.

Essa prática revela não apenas o caráter dos dois líderes, mas a lógica que rege o bolsonarismo e o trumpismo. Um projeto de poder personalista, amoral, desconectado de compromissos duradouros, onde aliados são peças de reposição e “amigos” são jogados ao mar sem remorso.

O Reich do Século XXI e o papel da memória

Ao falar de um “Reich planetário”, Ruy Castro não está apenas usando uma imagem forte. Ele aponta para o projeto em curso — financiado, articulado e operado em escala internacional, que busca desmontar as democracias liberais por dentro, enfraquecer o Estado de Direito, militarizar a política, controlar o Judiciário, silenciar a mídia e promover uma homogeneização racial e ideológica do poder. Um mundo governado por homens brancos, bilionários, autoritários e armados.

Se no passado o fascismo usava tanques e campos de concentração, hoje usa redes sociais, robôs, pastores neopentecostais e campanhas de fake news. A essência, no entanto, permanece a mesma. A destruição do “outro”, o culto à força e a eliminação da dissidência.

O alerta de Castro se insere, assim, numa tradição jornalística de resistência. Ao relembrar os perigos do autoritarismo e sua capacidade de se reinventar, o autor do artigo convoca seus leitores a não subestimarem figuras como Trump e Bolsonaro. E, mais importante, a não se deixarem enganar por seus discursos de “salvação nacional”.

A comparação entre Trump e Hitler pode parecer, à primeira vista, desmedida. Mas, como demonstra Ruy Castro, é um recurso legítimo quando o objetivo é desnudar estratégias, desmontar farsas e alertar para os riscos que ainda rondam nossas democracias.

Trump e Bolsonaro compartilham mais do que ideologia. São parceiros no desprezo por qualquer valor que não seja o próprio poder. E isso inclui amigos, aliados, constituições, instituições e até seus próprios países.

O destaque do artigo de Ruy Castro, no entanto, está no final do texto:  “Com ou sem Trump, Bolsonaro será julgado, condenado e preso, com hora certa para apagar a luz da cela. E não será surpresa se, mais ocupado com um escândalo interno por pedofilia e por suas disputas com a Rússia, Trump, como já fez com tantos, virar as costas a Bolsonaro —que, por sinal, ele só viu duas vezes na vida, talvez uma. Os dois têm uma coisa em comum: não vacilam em jogar os amigos ao mar.”

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. +almeida

    12 de agosto de 2025 8:29 am

    É próximo do que tenho dito.

Recomendados para você

Recomendados