5 de junho de 2026

A crise climática para além do equilíbrio de mercado, por Feijó & Feil

Bancos centrais e reguladores financeiros já reconhecem que riscos climáticos e ambientais são ameaças sistêmicas ao sistema financeiro
Reprodução

Para além do equilíbrio de mercado: a crise climática demanda uma convenção de desenvolvimento sustentável

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por Carmem Feijó e Fernanda Feil

Vivemos um momento em que múltiplas crises — social, ambiental e climática — desafiam as bases de funcionamento das economias contemporâneas. Tais crises expõem a vulnerabilidade de nossas estruturas produtivas, enquanto a desigualdade social corrói a coesão das sociedades e as crises financeiras sucessivas revelam a fragilidade de um sistema que insiste em confiar na autorregulação dos mercados. A crença de que o simples funcionamento das forças de mercado conduziria naturalmente ao equilíbrio e à prosperidade mostrou-se equivocada.

A experiência histórica demonstra que a economia é um sistema aberto, permeado pela incerteza radical, que não pode ser reduzida a riscos probabilísticos previsíveis. Diferentemente do que supõem modelos baseados em agentes representativos e expectativas racionais, as decisões econômicas são tomadas em um ambiente em que o futuro é incerto e desconhecido. Nessas condições, indivíduos e empresas recorrem a instituições, convenções sociais e políticas públicas para orientar suas escolhas.

É justamente aí que Keynes ganha atualidade. Sua grande contribuição foi mostrar que os mercados não garantem, por si só, níveis adequados de investimento e emprego. A insuficiência crônica de demanda é uma característica estrutural das economias capitalistas. Por isso, o Estado e suas instituições são indispensáveis para estabilizar expectativas e induzir a demanda efetiva.

A macroeconomia dominante hoje é construída a partir de microfundamentos baseados em um agente representativo maximizador, guiado pela hipótese de expectativas racionais. Esse modelo reforça a ideia de que, no longo prazo, a economia tende ao equilíbrio sem necessidade de ação pública. Nesse consenso, a política monetária é orientada por regimes de metas de inflação, em que a taxa de juros se torna o principal instrumento de ajuste. Parte-se da hipótese de que a moeda é neutra no longo prazo e que cabe ao banco central ancorar expectativas de inflação. Já a política fiscal é vista como fonte de desequilíbrios e deve ser limitada por regras rígidas. No plano externo, defende-se a plena mobilidade de capitais e taxas de câmbio flexíveis. Esse arranjo consolidou uma convenção de política econômica voltada à estabilidade nominal, mas incapaz de enfrentar os desafios de transformação estrutural.

A crise climática evidencia os limites desse modelo. Bancos centrais e reguladores financeiros já reconhecem que riscos climáticos e ambientais são ameaças sistêmicas ao sistema financeiro, como mostram a criação da TCFD (2015) e da rede para esverdeamento do sistema financeiro – a NGFS (2017). No entanto, a resposta dominante tem sido restrita à gestão de riscos, ao aumento da transparência e ao aperfeiçoamento da precificação de ativos. Tais iniciativas permanecem insuficientes diante da magnitude da transformação necessária.

O que se impõe é a construção de uma nova convenção de desenvolvimento sustentável, cujo eixo central está na sustentabilidade social, ambiental e climática. Isso implica retomar o planejamento econômico como forma de coordenação superior das expectativas e de socialização do investimento. Não se trata de retornar a modelos passados de planejamento rígido, mas de reconhecer que a transição climática exige direcionar recursos públicos e privados para reconfigurar padrões de produção e consumo em escala intergeracional.

Planejamento econômico, nesse contexto, significa articular políticas monetárias, fiscais, industriais e ambientais sob uma missão comum: alinhar o sistema financeiro e o regime macroeconômico a uma transição justa e sustentável. O banco central, por exemplo, deve incorporar o princípio da dupla materialidade, reconhecendo não apenas como o clima afeta a estabilidade financeira, mas também como as próprias políticas monetárias e de crédito influenciam a trajetória ambiental.

Essa visão dialoga diretamente com a tradição de Keynes e Minsky, que ressaltaram a instabilidade inerente das economias capitalistas e a centralidade do Estado como indutor e coordenador do investimento. Recolocar o Estado nesse papel não é uma escolha ideológica, mas uma necessidade prática diante da urgência climática.

A conclusão é clara: a transição verde sustentável não ocorrerá se continuarmos presos às amarras de um consenso que subestimou os riscos e negligenciou as transformações estruturais. O planejamento econômico precisa ser recuperado como instrumento central, capaz de organizar expectativas e coordenar recursos em prol de uma única missão: garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.

O futuro, afinal, não está dado. Ele será moldado pela convenção que formos capazes de adotar hoje.

Carmem Feijó – Diretora Acadêmica no Centro de Finanças Sustentáveis –  CeFiS, Professora titular na UFF, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento –  Finde/UFF

Fernanda Feil – Diretora de Finanças Sustentáveis no CeFiS, Professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da UFF e pesquisadora do Finde/UFF

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