O anúncio de que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU é uma conquista que merece ser celebrada. Mas, ao mesmo tempo, é um lembrete de que a fome nunca deixa de ser uma ameaça em um país marcado pela desigualdade social e por ciclos de desmonte de políticas públicas. Afinal, ainda hoje, milhões de brasileiros vivem sem a certeza de que terão comida suficiente até o fim do dia.
Entendendo o Mapa da Fome
Essa é a avaliação da cientista social Isadora Lima, em entrevista ao Jornal GGN. Ela explica que o principal critério usado pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) para determinar se um país está ou não no Mapa da Fome é a Prevalência da Subalimentação (PoU, na sigla em inglês). O índice calcula o percentual da população cuja ingestão calórica está abaixo do mínimo necessário para levar uma vida ativa e saudável.
Quando esse percentual ultrapassa 2,5%, o país passa a figurar no Mapa da Fome. Hoje, o Brasil está abaixo desse limite. “O Mapa da Fome é uma ferramenta que ajuda a entender onde a fome virou problema sério”, resume Isadora.
“Ou seja, o Brasil hoje tem menos de 2,5% da população em situação de fome extrema, o que permite que o país fique fora do Mapa da Fome. Mas isso não significa que todo mundo está comendo bem. Ainda há milhões de pessoas vivendo em insegurança alimentar, sem certeza se vai ter comida suficiente até o fim do dia ou da semana. A fome crônica diminuiu, sim, mas o problema está longe de ter sido resolvido”, pontua.
A melhora nos índices [de combate à fome], explica a cientista, só foi possível graças à retomada de políticas públicas essenciais desde 2023, como o Bolsa Família, o CONSEA (conselho que ajuda a definir as políticas de combate à fome), o aumento do salário mínimo e o apoio à agricultura familiar, “que é quem realmente põe comida no prato do povo. Isso tudo fez diferença e os dados mostraram uma melhora real, porém, não é hora de descansar”.
Afinal, apesar dos avanços significativos, o contraste com o passado recente ainda assombra. Em 2022, o Brasil enfrentava um cenário dramático, com 33 milhões de pessoas passando fome, segundo a Rede PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).
Esse drama teve origem no desmonte de políticas públicas básicas. “O País passou por anos de pandemia com isolamento social e desmonte de políticas públicas básicas e isso gerou um cenário de fome dramático, com pessoas fazendo fila em frente a açougues para pegar os ossos e peles sendo vendidos nos supermercados. Foram momentos tristes para o país, um país que tem muito dinheiro e áreas para plantar alimentos, mas que ainda carece de políticas mais eficazes”, recorda.
Diante desse histórico, a saída do Mapa da Fome, portanto, não pode ser encarada como um ponto final. Trata-se de um fenômeno que se agrava rapidamente quando as políticas de proteção social são interrompidas.
“Mas o que aprendemos na pandemia e com o desmonte de políticas públicas é que a fome volta, e volta muito rápido. A luta contra a fome é contínua e exige esforço conjunto entre governo, sociedade e cada cidadão que entende que ninguém deve passar fome em um país como o Brasil”.
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