12 de junho de 2026

Manifesto da Pátria Submissa ao Imperador Donald, por Fernando Nogueira da Costa

Defender a intervenção dos EUA no Brasil pode ser considerado crime. Atentar contra a ordem constitucional e a soberania nacional é crime.
Paulo Pinto - Agência Brasil

Manifesto da Pátria Submissa ao Imperador Donald

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por Fernando Nogueira da Costa

Foi um 7 de setembro surreal, envergonhou quem tem um mínimo de sentimento nacionalista com certo apreço pela pátria brasileira. A Avenida Paulista se transformou em um set de filmagem de um documentário político com cenas de comédia, dirigido por um militante do QAnon.

QAnon é uma teoria da conspiração de extrema-direita, criada nos Estados Unidos, ao alegar haver uma cabala secreta (“cumunista”), formada por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, dirigente de uma rede global de tráfico sexual infantil. Conspira contra o ex-presidente Donald Trump e os seus apoiantes. A conspiração internacional teria sido engendrada com base em um plano secreto do denominado de “Estado Profundo” (deep state). Só doido inculto tem fé nela

Por qual razão se junta tanta gente sem noção de a quem está servindo? Será um instinto racista tipo “supremacia branca”?

Esta forma de racismo é centrada na crença (e na sua promoção) de as pessoas brancas serem superiores a pessoas de outras origens raciais, como por exemplo: indígenas, negros, pardos, entre outros. Portanto, os brancos devem governar politicamente, economicamente e socialmente acima dos não-brancos.

O termo também é tipicamente usado para descrever uma ideologia política capaz de perpetuar e manter a dominação social, política, histórica e econômica por pessoas brancas. A “supremacia branca” tem raízes na “doutrina do racismo científico” – uma justificativa chave para o colonialismo europeu e o nazismo.

Espelha a longa tradição do WASP nos Estados Unidos. Este acrônimo em inglês significa “Branco, Anglo-Saxão e Protestante” (White, Anglo-Saxon and Protestant).

Ali, debaixo do MASP, ergueu-se não a bandeira brasileira, mas um lençol king size estrelado, importado direto da Flórida, para o Imperador Donald se sentir em casa ao enviar suas Forças Armadas para cá. Fechariam o STF, eliminariam o Xandão e o Lulinha Paz e Amor, acabariam com o comunismo e a ditadura no Brasil!

Este delírio ecoa no mugido com sotaque texano do gado vestido de verde-amarelo. Os autoproclamados “defensores da pátria”, na verdade, vendilhões da pátria, traidores e quinta-coluna, gritavam contra um comunismo fantasma, extinto desde a Queda do Muro de Berlim, em 1989, e do fim da URSS em 1991.

Querem acrescentar mais uma lista (amarela) na bandeira americana. A bandeira dos Estados Unidos, ou “Estrelas e Listras”, simboliza os 50 estados e as 13 colônias originais, unidas para a conquista da independência. As cores representam, na prática, sangue (vermelho), raça (branco) e império (azul).

Os patriotários defendem simplesmente acrescentar mais uma listra horizontal com a incorporação da colônia brasileira. No dia 7 de setembro de 2025, proclamaram: em nome da libertação do Capachonaro, a nação deve entregar, voluntariamente, sua independência!

As novidades da manifestação eram dignas de um festival de turismo político internacional. Havia faixas em inglês e italiano, pedindo “Freedom for Zambelli” e “Libertá per Zambelli”, como se Carla, a política ítalo-brasileira, filiada ao Partido Liberal (PL) de extrema-direita, fosse a Mandela tropicalizada.

Bandeiras de Israel, responsável pelo genocídio da população civil em Gaza, tremulavam ao lado do coitadismo da mártir Débora do Batom. Transformou o protesto em um desfile de moda eleitoral: “Batom-Verde-e-Amarelo 2026”.

Era vergonhoso o cartaz principal: “SOS Donald, Capachonaro Free”. Era uma mistura de pedido de resgate com anúncio de Black Friday.

Enquanto isso, turistas estrangeiros observavam, confundidos: — Is this a cosplay convention? — No, it’s Independence Day. But outsourced. [— É uma convenção de cosplay? — Não, é o Dia da Independência. Mas terceirizado.]

Cosplay é uma abreviação inglesa de costume play. Significa “jogar com a fantasia”. É a prática de se fantasiar de verde-e-amarelo e interpretar personagens pérfidos, desleais, infiéis, inconfidentes, renegados, desertores, perjuros e falsos. Essas pessoas cometem traição e agem com grande deslealdade contra algo de grande importância: a soberania nacional.

E assim, a data na qual se celebra a soberania brasileira virou um stand-up tragicômico. “Brasileiros” (sic) suplicaram por intervenção imperial, de cartaz bilíngue na mão, provando o Google Tradutor ter colonizado de fato a mente burra da extrema direita.

Lançou o “Manifesto da Pátria Submissa ao Imperador Donald”, transcrito abaixo.

“Nós, súditos tropicais vestidos de amarelo-canário e verde-abacate, reunidos sob as colunas do MASP, declaramos solenemente:

1. A Independência do Brasil só será completa quando for devidamente terceirizada ao bilionário imobiliário do resort de Mar-a-Lago.

2. O hino nacional será regravado em versão country, com refrão em inglês: “Order and Progress, sponsored by MAGA”.

3. A bandeira nacional será adaptada: troca-se o “Ordem e Progresso” por “In Trump We Trust”.

4. A estátua “A Justiça”, antes manchada de batom com o ataque ao resultado eleitoral “perdeu, mané”, agora será maquiada oficialmente pela Debbie Lipstick Revolutionaries Ltda., símbolo eterno da resistência estética contra o STF.

5. A ítalo-brasileira Zambelli, a perseguidora armada de descendentes de escravos, deve ser libertada imediatamente da masmorra italiana, pois ninguém prende a musa de neofascistas sem enfrentar a fúria do Zap Zap.

6. Exigimos o comunismo, inexistente há mais de três décadas, ser derrotado novamente — desta vez com tanques de tweets, mísseis de fake news e tropas de influencers patriotários, sob o comando totalitário do pastor Malafé.

7. Imploramos ao Imperador Donald enviar sua frota de desocupados bélicos e bombas nucleares para nos salvar da ditadura, imaginária inventada de manhã no MASP e confirmada à tarde no WhatsApp, em nome dos WASP.

Concluímos este manifesto jurando lealdade eterna ao Império Donaldiano, porque, afinal, nada mais além de uma servidão voluntária é possível ao pedir a tutela estrangeira em pleno Dia da Independência.”

Defender a intervenção dos EUA no Brasil pode ser considerado crime. Atentar contra a ordem constitucional e a soberania nacional é um crime de tentativa de golpe ou subversão da ordem constitucional, conforme previsto na legislação brasileira.

Uma intervenção estrangeira, solicitada por alguns líderes da extrema-direita brasileira, tal como o Malafé e o Bexiguento, ameaça a soberania do Brasil, um princípio fundamental da República e da ordem constitucional. A Constituição Federal estabelece a defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais como funções das Forças Armadas. A defesa de uma intervenção externa, portanto, é um ataque a essa ordem.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Maria Luiza F Silva

    8 de setembro de 2025 5:25 pm

    Compartiho de sua indignação!!!!

  2. AMBAR

    8 de setembro de 2025 6:33 pm

    O comunismo não acabou, e cada país mostra o que consegue. Neste maravilhoso setembro o comunismo fez seu desfile na China (um salve pro Xi). Neste glorioso setembro o Brasil fez o seu desfile sem comunismo (uma banana pro mito). Na China, uma ordem sem carnaval, no Brasil, um carnaval sem ordem. O Brasil é um país que brilha em razão de favores da natureza, mas cujo povo se apaga em razão da própria estupidez.

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