10 de junho de 2026

Bois, por Walnice Nogueira Galvão

O boi povoa o imaginário popular, mas, mais que isso, permeou as obras de Mário de Andrade e Guimarães Rosa, ora lúdico, ora sofisticado.
Tela de Rita Loureiro

Bois

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por Walnice Nogueira Galvão

Foi estudando o Brasil que Mário de Andrade atinou com uma criação da cultura popular que, contestando a extrema diversidade da imensidão territorial, repontava por toda parte. E essa era o Bumba-meu-boi.

Versão local e demótica do vetusto mito de morte–e-ressurreição, esse sim universal, não só atraiu o interesse de Mário como ainda fê-lo ver de maneira mais profunda a ligação com o povoamento, em que descampados e ermos foram  ocupados pela criação do gado. Assim foi-se aos poucos afeiçoando o sertão. Mário chama o boi de “bicho nacional por excelência”.

Isso tudo instigaria Mário a elevar o boi a um de seus signos pessoais, que, oposto a outro animal, só que este silvestre e não domesticado, o bicho preguiça, vai aparecer no poema “Brasão”. Um brasão, como sabemos, é composto por figuras de alta concentração de sentido. O poema, finamente analisado por Gilda de Mello e Souza, sintetiza, de maneira críptica e enigmática, os pilares da personalidade e do ofício do poeta. Entre o Bumba-meu-boi e o boi–signo-pessoal, desenrola-se a obra e a vida de Mário.

Quando Gilda analisou a exposição de Rita Loureiro inspirada por Macunaíma, seu artigo foi  ilustrado por uma imensa tela da pintora cujo tema era o Bumba-meu-boi, mas submetido às fantasias do imaginário. Essa tela ficou por muitos anos na parede da sala de Gilda.

É tão poderosa a onipresença do boi que  vai até interferir na catalogação das coleções do poeta, após a doação ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). Em seus dois volumes, a presença do boi, que surpreendeu as preparadoras do catálogo, chegou até a exemplares de boizinhos de barro, que Mário não colecionava sistematicamente mas que apareciam, intrigando as preparadoras.

Para encurtar a história: juntando todas essas pontas, lá estão bois de vária natureza no Fundo Mário de Andrade. Há vários anos, Flávia Camargo Toni e Rosângela Francischi se dedicam a fazer um levantamento de todas as alusões a boi que ali aparecem. E isso a partir da extensa pesquisa de um  musicólogo que pretendia estudar as manifestações da cultura do boi na literatura, história, geografia, música, em várias partes do país. Cada alusão ganhou uma ficha.  Pode ser em nota de leitura, ou em partitura,  ou rasura em recorte de periódico, e assim por diante. Nada é desprezado ou desprezível. Já está em 1.200 fichas, e aumentando: as duas  pesquisadpras prosseguem na investigação, cujos resultados aguardamos.

Outro aficionado do boi é Guimarães Rosa, pois seu cenário de eleição é o sertão, espaço do boi.  Um pífio escritor introduziria o boi desastradamente em sua ficção, mas não nosso sofisticadíssimo Guimarães Rosa. O boi vai aparecer nele de várias meneiras, a maioria disfarçadamente, ou seja, entremeado a outros elementos da narrativa. Pode ser nos muitos topônimos. Ou nas cantigas de vaqueiros e boiadeiros, pois a saga do boi parece infinita. Ou na composição das alcunhas tão frequente. Ou vai servir de indicador para a leitura dos arredores, se pressagiam paz e tranquilidade, ou o contrário. Pode ser, de maneira mais sutil ainda, fermento de metáforas utilizadas para caracterizar figuras e temperamentos – unitárias para os chefes de bando, coletivas para a jagunçada, em atenção à hierarquia. E assim por diante.

Em sua pesquisa sobre os bois de Mário, Flávia deparou-se com os cadernos de viagem de Guimarães Rosa. Um deles traz anotações sobre uma excursão que fez a presépios de Natal na Itália, comentando seus boizinhos.

E, na continuação, o acervo de Mario Calábria, diplomata e amigo de Guimarães Rosa,  foi doado ao IEB por sua filha. O Instituto enviou a funcionária técnica do arquivo Elisabete Marin Ribas a Berlim  para providenciar o traslado nada fácil para o Brasil. Com o auxílio de Lígia Chiappini, catedrática de Estudos Brasileiros da Universidade Livre de Berlim, tudo foi feito a contento, sem desperdiçar um alfinete, e hoje repousa no IEB, graças às facilidades da Embaixada do Brasil em Berlim. Mas havia um boizinho de barro, presente de Guimarães Rosa a Mario Calábria, que exigia cuidados especiais e por isso Elisabete o trouxe no colo, depois de devidamente acolchoado. E tudo terminou bem.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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1 Comentário
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  1. Tadeu Silva

    12 de setembro de 2025 8:21 pm

    Aqui em Juiz de Fora tinha um delicioso Bar do Boi num trailer adaptado à beira da ferrovia, antiquíssima Central do Brasil, antiga RFFSA. Também, a cidade teve início no local conhecido como Morro da Boiada, onde morei nos anos 1960 e vi um bovino prender sua cabeça enfiada no basculante da casa. E moro nessa cidade que tem um açougue em cada esquina.

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