
Há duas fases esplendorosas do pianista, compositor e cantor Breno Ruiz.
A última, de sua última obra, foi a reconstrução do realismo alemão de Kurt Weill. Foi escrevendo sobre ela que me fez voltar ao primeiro Breno, a do mergulho nas águas de Waldemar Henrique e outros cançonetistas dos anos 30 e 40, que construíram um dos pilares da música semi-erudita nativista brasileira.
Nessa fase, teve a parceria luxuosa de Paulo César Pinheiros, que assimilou todo o linguajar das cançonetas do período, com abundäncia de citações de entidades e personagens afrobrasileiras, os sacis, iaras, onças pintadas, o malemolejo das morenas.
É uma parceria que começou quando Breno, com apenas 16 anos, conseguiu chamar a atenção doo consagradíssimo Paulo César, construindo uma enorme obra ao longo de 20 anos.
É esta obra que está retratada com maestria no álbum “Milagres”, com Breno e Alice Passos.
Alice é uma intérprete da escola de Amália Rabelo, com uma voz trêmula, contidamente dramática, que nos faz recordar os cânticos maternos, das avós de nossas avós que ajudaram a construir os sons do Brasil. Ambos são pilares da nova geração da canção brasileira.
Ambos se cercaram de músicos de primeira e de alguns monstros sagrados da música popular brasileira, como Edu Lobo e Guinga. Entre os músicos, os percussionistas Magno Julio e Marcus Thadeu, o segundo piano de Erika Ribeiro e o violão de Rogerio Caetano, um dos grandes 7 cordas da atualidade.
Em algumas faixas, juntou-se um coro que representa o melhor da nova música do Rio de Janeiro, Luisa Lacerda, Mariana Baltar, Pedro Paulo Malta, Pedro Miranda entre outros.
É uma música que evoca as cantigas de Villa Lobos, o lundu, as danças africanas, os acalantos.
Ouça “Contradança” e “Sangue Mestiço”, e o squindô de iaiá. “Skindô” é uma onomatopeia, um som que imita o toque dos tambores e o balanço da dança. É herdeiro direto das expressões rítmicas africanas, como “quindô”, “quindim” e outros vocábulos de origem bantu. No piano de Breno, torna-se um dançante irresistível. Ou os acalantos, em “Acalanto pra Quem Tem Filha”.
Nesses tempos em que o orgulho nacional começa a renascer, o álbum é um banho de brasilidade, daquilo que o Brasil tem de melhor, a música, o malemolejo, a celebração do amor.
De Conrado Paulino, violonista
Esse rapaz é muuuuito bom, bom compositor, bom cantor, boa gente (!!), é a prova de que – como sempre digo – a música brasileira vai muito bem, obrigado. Que não tenha divulgação nenhuma é outro assunto.
Aliás, outra coisa que eu sempre digo é que os músicos de hoje (incluindo os músicos de jazz) tocam mais, melhor e antes. O nível da música instrumental (nacional e gringa) está num patamar altíssimo, os músicos atingem uma maturidade (não somente habilidade técnica) que os músicos das gerações anteriores (me incluindo, claro) demoravam mais tempo para alcançar.
É similar aos números do atletismo, que décadas atrás conseguia a marca que lhe permitia ir para uma competição sul-americana de 100 metros rasos, por exemplo, hoje não conseguiria se classificar para uma competição local.
Na música um fato similar está acontecendo, e no Brasil hoje temos instrumentistas, cantores/as, compositores, arranjadores de um nível nunca dantes visto, graças à robustez da nossa música. É um fenômeno similar ao jazz, que nunca teve um público tão pequeno como agora, e não obstante está num nível médio altíssimo, tanto de competência técnica como de criatividade.
Assim como no caso da música brasileira, a razão reside – na minha opinião – no “estofo” do estilo (no sentido de “substância” “relevância”), na robustez das raízes deixadas pela genialidade dos seus membros fundadores. O pais de Pixinguinha, Nazaré, Chiquinha Gonzaga, Villalobos, Radamés etc etc só podia dar nisso, independente da difusão massiva.
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