10 de junho de 2026

Fim da privacidade e invenção de um novo “eu” na internet, por Francisco Ladeira

Usando um termo de Foucault, a rede mundial de computadores tornou-se um novo “panóptico”, um mecanismo de vigilância global.
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Fim da privacidade e invenção de um novo “eu” na internet

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por Francisco Fernandes Ladeira

A internet, em especial as redes sociais, redefiniu conceitos que pareciam sólidos, como “intimidade”, “público” e “privacidade”. Nessa nova realidade, o entendimento tradicional do espaço doméstico, como um refúgio blindado, foi abalado de maneira intensa.

Em sociedades antigas, a ideia de individualidade era praticamente inexistente. A vida era comunitária. Filhos, pais e avós dividiam o mesmo espaço e os acontecimentos mais íntimos de uma pessoa eram de domínio público, regulados pela coletividade. Em algumas culturas, nem sequer existia uma palavra para “eu”, no sentido de um indivíduo separado do grupo. O sujeito estava sempre sob o olhar atento da sociedade.

Somente com o advento das sociedades burguesas, no século XIX, surgiu a noção moderna de privacidade, como “o direito de estar só”. Em suas configurações, as casas passaram a ter cômodos individuais e portas fechadas. Esse espaço privado era considerado essencial para a formação do indivíduo moderno, um lugar onde se podia ser você mesmo, longe das exigências da vida pública.

Contudo, essa concepção de privacidade foi profundamente alterada com a internet. Usando um termo bastante presente no trabalho de Foucault, a rede mundial de computadores tornou-se um novo “panóptico”, um mecanismo de vigilância global. Mas há uma diferença importante: no panóptico digital, não somos vigiados à força. Pelo contrário, nos expomos voluntária e incessantemente. Desse modo, o medo de perder a privacidade foi substituído pela necessidade de nos exibir sem pudor. Colaboramos ativamente na construção dessa vigilância, alimentando as plataformas com informações pessoais. Liberdade e controle se tornaram indistinguíveis.

Como lembra a antropóloga Paula Sibilia, vivemos o fenômeno da “extimidade”: a exteriorização deliberada da intimidade. Aspectos da vida que antes eram restritos ao âmbito privado – a dor de uma perda, uma celebração familiar, um desabafo – são agora publicados no Instagram ou Facebook, tornando-se automaticamente de domínio público. Não se exibir tornou-se quase anômalo. Nesse palco virtual, autoestima passou a depender de seguidores, curtidas e visualizações. Precisamos aparecer para ser. A validação do outro, agora mediada pela tela, tornou-se uma necessidade fundamental.

No entanto, essa exposição constante tem um preço. Nosso “eu” digital, composto por todos os rastros que deixamos online – fotos, likes, localizações, compras –, cria uma memória perene e inapagável. O passado, que antes ficava confinado à lembrança, agora está eternizado em uma timeline, potencialmente acessível a todos. Assim, postagens que hoje são motivo de exibição podem, no futuro, ser fonte de constrangimento ou serem usadas contra nós por empresas e governos.

Além disso, os dados que produzimos ao nos comunicar, os nossos “rastros digitais”, são transformados em produtos valiosos. A gratuidade dos serviços tem um preço: somos rastreados para que nossa experiência humana seja convertida em matéria-prima para um novo modelo econômico: o “capitalismo de vigilância”.

Portanto, a internet não é apenas um meio de comunicação. Ela é um ambiente que está redefinindo a própria constituição do “eu” contemporâneo. Estamos migrando de uma subjetividade formada na privacidade do lar para uma outra, construída na visibilidade constante e na busca por reconhecimento virtual. O desafio que se coloca é aprender a navegar neste novo mundo sem abrir mão completamente daquilo que, por séculos, nos definiu como indivíduos: a capacidade de guardar algo apenas para nós.

***

Francisco Fernandes Ladeira é professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Autor do livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Emó Editora)

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