4 de junho de 2026

Celebrar a morte, por Eliseu Raphael Venturi

Há sempre um conjunto de mortos convocados como legitimadores de projetos, como justificativas de guerras, como lastro de fidelidade.
August Macke. Walterchens Spielsachen, 1912.

Celebrar a morte

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por Eliseu Raphael Venturi

Celebrar a morte alheia é sempre menos sobre o corpo que deixa de pulsar do que sobre o feixe de símbolos que nele se depositava. O cadáver, na cena pública, pouco importa como matéria: já não é carne, já não é voz, já não é pessoa.

Por outro lado, ao emergir no espaço coletivo, o corpo torna-se imediatamente recoberto por narrativas que o descolam de sua efetividade biológica e o convertem em emblema, bandeira, resto moral manejado como argumento. O morto, indiferente ao mundo, cede lugar a um teatro de disputas entre bem e mal, certo e errado, moral e imoral. É símbolo.

É nesse deslocamento que se revela a complexidade de se celebrar a morte: em regra, ninguém celebra a decomposição de um corpo, mas sim o triunfo ou a queda de uma narrativa, a morte simbólica que reordena posições no tabuleiro da moralidade e da política. Reforça legados, traz esperanças de descontinuidades, e por aí vai na vida própria do simbólico.

Todo o espectro ideológico, das direitas às esquerdas, das religiões às vanguardas, dos regimes de força aos movimentos insurgentes, carrega seu corpo de cadáveres e relíquias. Cada qual conserva, em sua memória, mártires e inimigos, heróis e traidores, santos e demônios.

Há sempre um conjunto de mortos convocados como legitimadores de projetos, como justificativas de guerras, como lastro de fidelidade. O cadáver torna-se moeda de troca na economia simbólica, em que cada morte pode ser evocada como prova de virtude ou sinal de culpa.

A política se alimenta desses corpos ausentes, como se a permanência de uma ideia dependesse de uma morte que a selasse, como se a verdade devesse ser garantida pelo sangue, pele, ossos, carne.

No entanto, é aqui que emerge a inquietação: não será demasiadamente anacrônico, em um tempo saturado de História, de técnicas, de comunicações instantâneas e de sobrevivências possíveis, que ainda se mate e se morra por ideias?

Como se a morte, este gesto extremo e irreversível, ainda fosse capaz de conferir legitimidade às crenças, como se a política, incapaz de se sustentar na convivência, precisasse da violência para inscrever sua marca. Talvez seja apenas repetição de um rito gasto, eco de séculos em que a glória do mártir, do líder sacrificado, do santo imolado ou do soldado heroico funcionava como horizonte de sentido.

O presente, no entanto, nos chama a outro lugar. Não se trata de negar a dimensão trágica que atravessa a história nem de apagar as mortes que nos constituíram, tampouco as pendentes de esclarecimento e julgamento, mas de recusar, ainda que por um instante, a sedução estética e ética dos heroísmos sacrificiais.

Pois há algo de profundamente enganoso no brilho do martírio: ele nos atrai pelo espetáculo da entrega, mas oculta a pobreza da vida que se perde, o vazio do corpo que não retorna, a banalidade da violência que se repete.

O desafio talvez seja sustentar a política sem cadáveres, inventar convívios que não precisem da morte como selo de autenticidade. Isso exige desfazer-se da idolatria do sacrifício, reconhecer que nenhum projeto, por mais justo que se proclame, merece o preço do sangue alheio.

E, ainda assim, seria pobre reduzir tudo à denúncia. É preciso olhar com alguma generosidade para nossos desejos de morte — da morte alheia, da morte própria, das patéticas comemorações públicas de qualquer morte ou perda.

Há aí uma pulsão que revela mais sobre nossa impotência do que sobre nossa crueldade: desejamos a morte quando não sabemos o que fazer com a vida, quando não encontramos linguagem para o mal-estar, quando projetamos no fim do outro o alívio que não sabemos buscar em nós.

É nesse ponto que se torna até prazeroso imaginar a ironia de que o inventor da guilhotina teria morrido guilhotinado — mito persistente, embora nascido apenas de um erro de nomes e pessoas. O riso, nesse caso, denuncia a ânsia de coerência simbólica que gostaríamos de impor ao mundo, mesmo quando a realidade não a sustenta.

Talvez o caminho seja justamente este: reconhecer a fragilidade desses desejos de coerência, suspender, ainda que por um instante, o júbilo diante da morte, abrir um espaço em que a vida, mesmo precária e incerta, pese mais do que qualquer narrativa. Pois é sempre possível resistir ao convite macabro da celebração e, em vez de festejar o fim, perguntar-se silenciosamente o que ainda pode ser feito com a vida que resta.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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