4 de junho de 2026

O BIS e a falácia da gastança e da inflação, por Luís Nassif

No caso brasileiro, o sucesso do BC se deve à Selic, elevadíssima, e também por passar a convicção ao mercado de que manterá ritmo.

O inacreditável editorialista da Folha produziu mais um editorial contra a “gastança” como responsável pelo aumento dos juros. Sempre que falta ideias para o editorial – uma ou duas vezes por semana – ele saca a fábula da gastança e repete os mesmos argumentos.

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Antes de enlouquecer, Olavo de Carvalho produziu um artigo saborosíssimo, intitulado “Ciência e Demência”.  Versava sobre a fidelidade do intelectual à teoria que o consagrou. Ele deve tudo àquela teoria, dizia Olavo, seu prestígio, sua reputação. Aí ele olha para a realidade, e ela contradiz a sua teoria. Como ele é um intelectual, então ele cria uma teoria para explicar que a realidade está errada.

É o que explica a facilidade com que o tal do mercado consolidou a crença de que política monetária, taxa básica de juros, tudo gira em torno da inflação e esta é alimentada pelo déficit público. Ou então, pelo pleno emprego. Corre então para aumentar a taxa de juros básica, afirmando que é necessário para reduzir a atividade econômica e impedir o repasse para os preços.

Há décadas, já era nítido que a política monetária tem baixíssimo efeito sobre a demanda agregada. Um ponto a mais na Selic tem impacto de centavos no crediário. Tudo gira em torno do câmbio.

Agora, o BIS, o Banco Central dos bancos centrais, publica o trabalho “Finding equilibrium: on the relation between exchange rates and monetary policy“, de Sebastian Edwards, com reflexões sobre o óbvio.

O ponto central do trabalho é a análise do chamado spillovers, ou transbordamentos, os efeitos indiretos da política monetária de um grande país sobre países menores, mesmo quando supostamente estes têm câmbio flexível e teoricamente poderiam conduzir sua política de forma independente.

Aqui, um esquema para entender as relações de causa e efeito.

A dinâmica da política monetária fica assim:

  • Fed/BCE sobem juros

➝ atraem capitais de volta para EUA/Europa.

  • Fluxo de capitais sai de emergentes

➝ moedas locais se desvalorizam.

  • Depreciação cambial

➝ encarece importados, pressiona preços internos.

  • Inflação aumenta

➝ risco de instabilidade e perda de credibilidade monetária.

  • Bancos Centrais locais reagem

➝ sobem juros para conter inflação e defender moeda.

  • Resultado final

➝ Países pequenos “importam” a política monetária das grandes economias, mesmo com câmbio flexível.

O fluxo de capitais não é apenas de países centrais para países menores. É entre países menores também. Se o carry trade do Brasil é inferior ao do México, o dinheiro sai daqui para lá e vice-versa.

Portanto, toda essa conversa de que a inflação é resultado de desequilíbrios fiscais ou excesso de demanda é a chamada embromation. É óbvio que desequilíbrios fiscais ou excesso de demanda afetam os preços. Mas não nos níveis atuais de déficit e de demanda.

As conclusões do trabalho

Em grandes economias, a política monetária atua via curva de juros. Em países pequenos e muito abertos, esse canal é enfraquecido; o principal passa a ser o câmbio.

Assim, todos os métodos usuais para avaliar equilíbrio cambial são furados.

O autor revisa quatro abordagens, todas insatisfatórias:

  1. Paridade do poder de compra (PPP) – simples, mas ignora produtividade e choques estruturais.
  2. Sustentabilidade externa – foca no balanço em conta corrente e posição de investimento internacional.
  3. Modelos de regressão – relacionam câmbio a “fundamentais”, mas são instáveis.
  4. Modelos DSGE/macroeconômicos – mais sofisticados, mas ainda pouco práticos.

Ele menciona o caso do México, no período 2015-2017. Poderia se basear no caso brasileiro de dezembro de 2024 a agora.

  • forte depreciação do real;
  • aumento da inflação;
  • elevação da Selic e promessa de manter a taxa elevada;
  • apreciação do real e queda da inflação.

E a conclusão final: a profissão precisa de modelos melhores para estimar o câmbio de equilíbrio, pois os métodos atuais são grosseiros e dão pouca orientação prática a policymakers.

O carry trade

A ferramenta que provoca esses fluxos cambiais é o carry trade – a operação de tomar dinheiro barato em um país de moeda forte e aplicar em um país de moeda fraca.

A rentabilidade do carry trade depende dos seguintes fatores:

  1. Diferencial de juros entre países. O resultado é o carry bruto

🔍 Taxas de referência (USD vs países emergentes)

PaísTaxa de juros doméstica atual aproximadaTaxa dos EUA (Fed Funds)Diferença (“carry” bruto)
Brasil~ 15,00% US: 4,00-4,25%~ 10,75-11% pontos percentuais
México~ 7,75% US: 4,00-4,25% ~ 3,5-4,0% pp
África do Sul~ 7,00% US: 4,00-4,25% ~ 3,0-3,5% pp
Índia~ 6,00–6,25% (repo/policy rate)US: 4,00-4,25% ~ 2,0-2,5% pp

2. Desse carry bruto tem que se descontar a expectativa de inflação local e o hedge cambial – isto é, a operação para prevenir eventuais desvalorizações da moeda local, o chamado forward, um contrato que fixa o preço futuro.

PaísSpot (USD/local)Juros Local (a.a.)Juros EUA (a.a.)Prazo (meses)Forward
Brasil5,3315,0%4,0%125,89
México18,27,8%4,0%1218,86
África do Sul17,97,0%4,0%1218,42
Índia83,56,3%4,0%1285,31

No caso brasileiro, o sucesso do Banco Central se deve à Selic, elevadíssima, e também por passar a convicção ao mercado de que manterá esse ritmo.

Mas essa dependência monetária é fatal para qualquer projeto de desenvolvimento.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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18 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    22 de setembro de 2025 7:38 am

    O dinheiro é vale. Um vale que atesta ter o cidadão “x” direito a riqueza do país. EM ‘analfatebez’ claro, O DINHEIRO É DO GOVERNO. Cidadãos e ‘goelas’ ou seja banqueiros, financistas em geral, são meros concessionários, que, sem Estado não serão nada. E NÃO EXISTE ESTADO SEM GOVERNO.
    Um governo que não manda em sua moeda inexiste. Não é governo. E seu Estado está para desaparecer, se não já o fez.

    1. twa

      24 de setembro de 2025 12:54 pm

      Não existe estado sem quem coloque seus recursos para rolar a dívida do estado !

  2. Roland Matt Rola

    22 de setembro de 2025 9:51 am

    Mais uma vez:
    A solução passa pela canalha que comanda a economia brasileira estabelecer um controle de capitais. Mas como também já foi dito, isso acaba com as operações de mesa de câmbio dos banqueiros, para quem a canalha trabalha.

  3. Wanderley Silva

    22 de setembro de 2025 1:23 pm

    O texto mistura teorias e fatores de forma exundiosa. A intenção é confundir?
    O fato é que gastos do governo com déficit constante (Brasil) obriga a emissão de moeda, aumentando a base monetária que resulta inexoravelmente em inflação. Então, sim, a Folha está correta: gastança gera inflação e obriga o BC a elevar juros.

    1. Alguém

      22 de setembro de 2025 6:35 pm

      Jesus, releia o texto por que quem não entendeu nada foi tú…..uma ajudinha, tem um parágrafo quase no final que te dá a luz para o seu imbróglio…

      1. Bobo da corte

        24 de setembro de 2025 12:44 am

        Você é quem se engana fácil, parei de ler quando ele fala ” pleno emprego” a maior mentira contada por essas pessoas 94 milhões de pessoas vivem de algum tipo de auxílio do governo, que nao entra na conta dos desempregado, então a farsa já começa aí!
        Lembre-se o pior cego é aquele que tem olhos saudáveis e nao quer enxergar!!

    2. Rui Ribeiro

      23 de setembro de 2025 9:10 am

      Se os gastos públicos com déficit constante obriga à emissão de moeda, o que provoca a elevação da base monetária que resulta inexoravelmente em inflação, porque o quantitative easing de 2008 nos EUA não resultaram inexoravelmente em inflação?
      Detalhe: nos EUA há gastos públicos com déficit constante.

      Diga aí, Grande Analista

      1. twa

        24 de setembro de 2025 1:35 pm

        No site do Mises existe vários artigos respondendo a esse pergunta. Além do fato explicado lá, também devemos nos lembrar que dólar é moeda de reserva internacional, logo existe enorme demanda por ela, coisa que não acontece com nossa moeda ou da argentina. Argentina deu calote em 2003 e hoje somente o FMI é louco de emprestar pra eles.

  4. Rui Ribeiro

    22 de setembro de 2025 2:06 pm

    Se a inflação é alimentada pelo déficit público, porque, atualmente, a dívida dos EUA equivale a 120% do PIB estadunidense enquanto a dívida pública bruta do Brasil está em 76,6% do PIB brasileiro mas a inflação aqui está bem mais elevada do que nos EUA?

    A elevação da taxa básica de juros básica tem a finalidade de reduzir a atividade econômica. A redução da atividade econômica tem por objetivo a preservação do poder de compra dos pobres e trabalhadores, impedindo que a demanda decorrente da economia aquecida reduza o poder de compra dos mencionados pobres e trabalhadores. Nada obstante, o arrefecimento da economia provoca a redução da oferta e esta redução da oferta também eleva a inflação, mesmo com a redução da demanda. Ou seja, aumentando ou reduzindo a taxa de juros, os pobres sempre saem perdendo. Mas eles perderiam bem menos se, em vez de se reduzir a demanda através da elevação da taxa de juros, se elevasse a oferta através da redução da taxa de juros.

  5. Lênin & The Ullianovs

    22 de setembro de 2025 2:47 pm

    Nassif, boa tarde.

    Às vezes dá a impressão de que você descreve um fenômeno quase acidental, ou até mesmo patológico.

    Como se esse “sistema de crenças” fosse um erro, uma análise equivocada, ou atém um descuido.

    Não é, caro jornalista, não é.

    Esse “sistema de crenças” é um assalto, um roubo às finanças públicas, e se contamina e nos contamina com as repetições de causa e efeito, como um cão atrás do rabo.

    Os resultados?

    Sempre os mesmos…a inflação quase nunca converge com as taxas pornográficas de juros, em um ambiente de repressão ao gasto/investimento públicos, e os indicadores sociais pioram e pioram, e exigem um atendimento que não pode ser feito, justamente por quem disse que gastando menos poderíamos atender a todos.

    A mídia sempre cumpriu papel essencial nessa “sacanagem”, porque amplifica e reverbera esse bando de piratas, e torna as suas “profecias” auto realizáveis, ou seja, de tanto dizer que o câmbio vai explodir, ele explode….por exemplo.

    Eu concordo com seu texto, quase totalmente, mas a visão sobre a motivação dos fatos é que te falta:

    É CRIME!!!!! LESA PÁTRIA!!!! QUADRILHA!!!!

    1. twa

      24 de setembro de 2025 1:45 pm

      Sabe porque ? porque nenhum governo de qualquer lado ideológico tira o pé do acelerador. O BC pisa no freio e o governo no acelerdor. É o que acontece agora é o que sempre aconteceu. Se os dois fizessem a mesma coisa, com certeza o resultado seria melhor.

      1. Lênin & the Ullianovs

        24 de setembro de 2025 4:38 pm

        Pois é, véio, e vai fazer como para dar conta da demanda social, com tamanha desigualdade que o sistema capitalista, e agora o rentista provocam?

        Restrição fiscal? Só aumenta a pobreza…

        Então, o óbvio é: se eu não posso pegar dinheiro emprestado, e minha despesa tá alta, eu tenho que arrecadar de quem pode pagar mais, ou pior, no Brasil, é arrecadar de quem não paga!!!!!!

        Mas aí vira o escarcéu, né?

        Esse discurso fiscalista seu serve mesmo é para a GloboNews, faz favor.

  6. Anônimo

    22 de setembro de 2025 4:32 pm

    Como q vcs conseguem defender um governo incompetente destes , tenham ao menos senso crítico, e n deixem a ideologia vós cegarem

    1. Rui Ribeiro

      23 de setembro de 2025 12:21 pm

      Incompetente porque? Só porque você é Bostonarista?

      Parece que seu cérebro ainda não nasceu.

    2. virginia pignot

      23 de setembro de 2025 1:26 pm

      Desempego baixo, PIB alto, pessoas deixando o beneficio do bolsa familia por terem renda familiar mais elevada, o SUS campeao no transplante de orgaos como o fígado… Tu achas pouco ?

  7. MARCO ANTONIO PINTO DA SILVA

    23 de setembro de 2025 12:54 pm

    Concordo com L. Nassif. Gostaria de acrescentar a deslealdade com q nossos endinheirados manipulam preços, ora para formar gdes lucros e ora para emparedar/empastelar governo. Quase sempre ambos.

  8. WRamos

    23 de setembro de 2025 1:05 pm

    Os argumentos do BC sobre excesso de demanda com desemprego baixo sempre pecam por não olhar o copo meio cheio. Mais geste trabalhando, fabricando, vendendo, transportando, importando, resulta em maior oferta de bens e serviços. Quem no BC calcula o efeito do aumento de oferta pelo emprego maior e redução nos preços?

  9. Sergio

    23 de setembro de 2025 6:47 pm

    Onde estão colocados o trilhão de reais que governo gasta com juros comparados ás poucas dezenas de bilhão abaixo da meta de equilíbrio fiscal. Preço da dívida devia priorizar regra de obtenção de dólar para resistir às regras impostas pelos nossos donos, o mercado proprietário de dólar

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