Na noite da última terça-feira (23), um pequeno avião modelo Cessna caiu próximo à pista da Fazenda Barra Mansa, em Aquidauana, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. A bordo estavam quatro pessoas e todas morreram no acidente, entre elas o arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu, o idealizador do conceito de cidades-esponja. Os corpos ficaram carbonizados, e as causas da queda ainda estão sob investigação.
A morte de Yu chocou o universo da arquitetura e do urbanismo sustentável. Mais do que a perda de um pensador, o episódio destacou a urgência de seu legado: uma nova forma de planejar cidades frente às águas, à crise climática e às tragédias naturais, como a enchente histórica que devastou o Rio Grande do Sul em 2024.
“O que aconteceu em 2024 com aquelas águas que invadiram o Rio Grande do Sul mostra que precisamos preparar as cidades para chuvas muito aumentadas. A cidade precisa ser naturalizada, permitir que a água penetre no solo e seja conduzida de forma segura, sem causar transtornos”, alerta o professor Marcelo Dutra da Silva, especialista em ecologia e sustentabilidade, em entrevista exclusiva ao GGN.
A seguir, você confere a trajetória de Yu e descobre como o conceito de cidades-esponja pode mudar a forma como pensamos o urbanismo no Brasil.

Da fazenda ao mundo
Nascido em 1963 na vila de Dongyu, província de Zhejiang, na China, Kongjian Yu cresceu em uma família de agricultores. Costumava dizer que sua infância rural moldou sua visão: “vivi 17 anos como agricultor, isso me ensinou como trabalhar com a natureza”.
Formou-se na Universidade Florestal de Pequim e concluiu doutorado em Harvard. Em 1998, fundou o escritório Turenscape, que realizou centenas de projetos em dezenas de cidades, sempre com foco em “infraestrutura ecológica” e design adaptativo. Yu também liderou a Escola de Arquitetura e Paisagem da Universidade de Pequim.
Seu trabalho ganhou projeção internacional ao desafiar a lógica predominante da infraestrutura “cinza” — baseada em canos, bombas e canais — e propor que as cidades fossem reconstruídas como organismos vivos, capazes de respirar e conviver com a água, absorvendo-a em grande volume.
“No contexto urbano, precisamos ter uma paisagem menos cinza e mais verde ou pelo menos mais natural”, explica Dutra. “Quando falamos do conceito de cidades-esponja, falamos de soluções baseadas na natureza para gerenciar volumes maiores de água e prevenir alagamentos (…) É pintar o cinza de verde“, acrescenta.
Cidades-esponja: transformar a água em aliada
O conceito de cidades-esponja (sponge cities) propõe que a água da chuva deixe de ser inimiga das cidades. Em vez de ser rapidamente canalizada, ela é captada, infiltrada, armazenada e reutilizada, devolvendo às áreas urbanas parte de seu comportamento natural.
Segundo Yu, uma cidade resiliente deve:
- Reter a água onde cai, usando pavimentos permeáveis, jardins de retenção e solo vivo.
- Retardar o escoamento, com vegetação, canais naturais e lagos temporários.
- Criar zonas alagáveis controladas, funcionando como reservatórios durante picos de chuva.
- Purificar e recarregar aquíferos, filtrando contaminantes através do solo e da vegetação.
“O maior perigo em qualquer espaço urbano é não conseguir lidar com volumes aumentados de água. Se a cidade não infiltra, não retém, não conduz de forma segura, os problemas aparecem”, alerta Dutra.
A proposta ganhou força após a enchente de Pequim em 2012, que matou cerca de 80 pessoas. No ano seguinte, o governo chinês adotou as cidades-esponja como política nacional.
Em seus projetos, Yu mostrava que a transformação não ocorre de uma só vez: ruas podem virar canais temporários, praças podem absorver água e parques podem se inundar periodicamente. A mensagem era clara: a água não é inimiga.
“É interessante que, como Yu dizia, não precisamos transformar a cidade inteira de uma só vez. Basta começar com algumas soluções pontuais para perceber que a mudança é necessária e possível”, reforça Dutra.
Rio Grande do Sul: lições das águas
O Rio Grande do Sul é exemplo recente da necessidade de aplicar conceitos como o de cidades-esponja. Chuvas intensas em 2024 provocaram enchentes que destruíram bairros, afetaram milhares de pessoas e mostraram a vulnerabilidade das cidades.
“O que aconteceu no Rio Grande do Sul não é apenas um evento isolado; ele mostra a vulnerabilidade das cidades a volumes de água cada vez maiores”, pontou Dutra. Segundo ele, a região sul do país tem terrenos planos e áreas urbanas muito próximas a rios e lagoas, tornando-se especialmente suscetível a alagamentos.
Dutra alerta: “Se construirmos sem preservar permeabilidade do solo, sem vegetação drenante e sem pulmões de água, o risco aumenta ainda mais. É preciso combinar o edificado com o natural, permitir que a água infiltre e seja conduzida de forma segura. É isso que as cidades-esponja propõem.”
No caso da região Sul, o professor ressalta que, embora existam planos estaduais, como o Plano RS, voltados a evitar novas catástrofes, ainda há uma grande distância entre teoria e prática. “O plano reúne informações e sugestões de especialistas, mas não se comunica com as cidades. Precisamos revisar os planos diretores, mapear áreas de risco e adotar soluções baseadas na natureza”, afirma.
Dutra acrescenta que o desafio vai além de recursos financeiros: “No Brasil, o problema é falta de planejamento e de vontade política. Não custa nada elaborar uma nova estratégia de planejamento com apoio das universidades, das forças vivas, desse debate — não custa nada. E nós ainda não demos nem esse passo.”
Um legado moldado pela crise climática
Ao longo da carreira, Yu assinou mais de 600 projetos em 70 cidades, que hoje são capazes de receber mais chuva do que caiu ano passado no Rio Grande do Sul. Em 2023, recebeu o Prêmio Cornelia Hahn Oberlander, que destacou sua coragem em criar “paisagens que salvam vidas”.
Defensor da chamada “Revolução dos Pés Grandes”, ele propunha priorizar soluções ecológicas de grande escala em vez de projetos meramente estéticos.
Dutra ressalta o impacto do trabalho de Yu: “Ele colocou em destaque elementos que são essenciais, que fizeram muito sucesso na China. A China é o lugar que mais perdeu áreas úmidas no ambiente costeiro, mas também é hoje o país que mais recupera espaços úmidos, sobretudo os edificados, muito com esses conceitos de esponja.”
Sua morte no Pantanal tem um peso simbólico: Yu estava no Brasil para a Bienal de Arquitetura de São Paulo e participava de gravações para um documentário justamente sobre o tema das cidades-esponja.
“Lamento muito a morte de Yu. Seu conceito se popularizou no mundo, mas não deu tempo para se consolidar no Brasil. Ele fez projetos em muitas cidades e acabou tendo um fim trágico justamente na maior área alagada do planeta, o Pantanal. É uma perda irreparável”, conclui Dutra.
AMBAR
29 de setembro de 2025 2:27 pmGrande e lamentável perda. Que seus ensinamentos sejam aproveitados por nós.