4 de junho de 2026

As barbaridades sobre a Inteligência Artificial, por Urariano Mota

Registro uma observação: o mal vem de longe. Há muito, os especialistas de computação vêm sequestrando palavras e conceitos da pessoa humana.
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As barbaridades sobre a Inteligência Artificial

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por Urariano Mota

Olhem só alguns trechos do artigo “Como serão os livros do futuro com o avanço da inteligência artificial?”:  

“Para uns (autores), as máquinas não são um suporte passivo porque são capazes de gerar conteúdo literário de forma autônoma, sem participação criativa relevante do humano…

O que significa então ser original? Se os algoritmos trabalham a partir de repositórios de textos já existentes, enquanto os humanos sempre reivindicaram para si a capacidade de criar o novo, o que significa inventar em um cenário de recombinação infinita? Sempre considerei a originalidade literária um conceito mais ambíguo que evidente.

Talvez a originalidade não seja a ausência de repetição, mas a capacidade de dar uma leitura própria ao que já foi escrito. Se for assim, é isso que faz a IA. Cada obra algorítmica é ao mesmo tempo herança e variação”

Como serão os livros do futuro com o avanço da IA? – 24/09/2025 – Ilustríssima – Folha

Primeiro, não existem máquinas “capazes de gerar conteúdo literário de forma autônoma, sem participação criativa relevante do humano”. Mas aqui registro uma observação: o mal vem de longe. Há muito, os especialistas de computação vêm sequestrando palavras e conceitos da pessoa humana. Noto que fazem isso à maneira da direita, quando sequestra e tenta sequestrar palavras cuja origem vem da esquerda.  No caso da computação, há muito   se referem  a “memória” das máquinas. Putz! O que é isso? Isso é chamar os dados, os arquivos do hard e soft com o nome de uma das manifestações mais dignas da espécie humana. Os dados e programas jamais deveriam ser confundidos com a memória de um escritor, por exemplo. A memória sente, vê e se põe em lugar das pessoas que evoca.  Lembro que ao falar de Soledad Barrett, numa instrução que eu dava sobre uma peça de teatro para ela, eu afirmei no restaurante: “Eu vejo Soledad entrar por aquela porta”. Verdade. Tão natural, não me assombrava  que Soledad estivesse morta pela repressão bárbara da ditadura. Mas eu a vi entrando no restaurante. Era uma comunhão inescapável. Como é possível confundir o fenômeno com as características de máquina, de qualquer máquina?    

Mas nada falamos desse estúpido sequestro. E foram mais longe em seus atos bárbaros. Falam agora em Inteligência, e para melhor situá-la, acrescentaram o adjetivo Artificial. A esta altura não sabemos se para melhor elevar a inteligência. Pois bem, pois mal, acharam pouco:

“O que significa então ser original? Se os algoritmos trabalham a partir de repositórios de textos já existentes, enquanto os humanos sempre reivindicaram para si a capacidade de criar o novo, o que significa inventar em um cenário de recombinação infinita? Sempre considerei a originalidade literária um conceito mais ambíguo que evidente”.

Acredito que num ato falho o autor do texto poderia ter escrito “cemitério de recombinação”. Mas não adivinhemos suas intenções com a nossa IN, Inteligência Natural. E não nos percamos, num desvio típico de pessoas vivas. Ou seja, pelo conceito divulgado, a Inteligência Artificial seria um produto de autoconstrução, que poderia se fazer a si mesma. Uma criadora de outra inteligência. E essa reprodução não é aquela de dois espelhos frente à frente. Ela se reproduziria melhor do que se produziu, mas à margem da história. Compreendam, por favor, fora da IA: isso é mais grave que um paradoxo, pois não passa de uma abstração oca do conhecimento do fenômeno humano. Lembra mais uma projeção bárbara. À antiga divinização do homem, ao presente antropomorfismo dos deuses, põe em seu lugar uma humanização da máquina. É qualquer coisa mais que bárbaro.

Imaginemos o que seria a tal IA se conseguisse imitar pensamentos: ela seria aquela que imitasse a reflexão, o voltar ao passado, para dele extrair, ver o que antes não vira, e concluir, antever, criar e criar-se. Sentimos, neste passo, que descrevemos ações do pensamento apenas, mas a natureza mesma da imitação ainda não. Apenas descrevemos o modelo a ser copiado. Seria algo que reproduzisse o já feito? Não falo de fotografia, falo de algo que reproduzisse o processo de “fabricar” a Mona Lisa. Sejamos então mais primários: deveríamos ter um objeto que reproduzisse o processo de a partir de duas informações conhecidas gerar uma terceira até então desconhecida. Mas isso já não é mais o reproduzir, porque seria uma coordenação típica do pensamento. Então voltemos: a imitação do pensamento, para ser imitação, seria a reprodução de processos realizados fora da máquina. 

E para concluir, esta citação do texto:

“Talvez a originalidade não seja a ausência de repetição, mas a capacidade de dar uma leitura própria ao que já foi escrito. Se for assim, é isso que faz a IA. Cada obra algorítmica é ao mesmo tempo herança e variação”

Aí avançamos para o reino da chacota. A originalidade não é “a capacidade de dar uma leitura própria ao que já foi escrito”. O original faz uma criação, ou recriação. Quem faz isso é gente! Não existe obra algorítmica que seja ao mesmo tempo herança e variação. Obra? Herança? Variação? Poderíamos chamar de herança o que foi copiado do que se publica na internet? Isso é o que faz a chamada IA. Com a palavra, o fundamental cientista Miguel Nicolelis:   

“Se tudo o que você vai fazer daqui pra frente é baseado em um banco de dados do que já foi feito, você não tem futuro”. Olhem por favor o vídeo:

Nicolelis: não existe inteligência que não seja orgânica | Cortes do Reconversa

A humanidade é que pode tirar a chamada IA do atraso, do seu estágio de ferramenta que se tornou perigosa, mitificada e mistificada.

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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  1. Marcelo Vieira

    6 de outubro de 2025 12:47 pm

    Perfeito. Lembrei de “Tempos Modernos” do Chaplin. Esse impulso pela mecanização do ser humano já começa com a revolução industrial. A falácia da IA é sua manifestação mais recente.

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