
‘Deu mole’: quando a morte é responsabilidade de quem morreu
por Gabriel Borges da Silva
Filho da Dona Naná e do Seu Luiz, sou um cria de favela, que se tornou advogado, pesquisador e professor universitário. Ao longo da minha trajetória acadêmica venho me dedicando a desenvolver pesquisas a respeito de desigualdades sociais. Com olhar sobre como nossa sociedade constitui sistemas de exclusão econômica e de desrespeito ao direito à vida.
Há lugares no Rio de Janeiro em que a morte não é um acidente: é rotina. Nas favelas, viver é uma dádiva; pois morrer é quase sempre explicado como culpa de quem morreu — afinal, “deu mole”. A expressão, comum nas quebradas, sintetiza um regime moral que organiza as relações e os conflitos. Revelando um tipo de experiência de governo estatal destinado a certos modos de vida urbanos, em que a violência é parte inseparável do cotidiano.
Neste artigo, apresento brevemente minha pesquisa, trago um histórico da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) e mostro como a ideia de favela se constrói historicamente. Preservo identidades e locais por razões éticas. Por fim, ainda analiso como a violência de agências do Estado contribuíram para a desigualdade social, a partir de um sistema de justiça que trata vidas de forma desigual.
A etnografia, enquanto método e construção de teoria, guiou meu trabalho de campo entre 2015 e 2019 e segue orientando minhas pesquisas. Minha pergunta era simples e dura: como as pessoas lidam com a quantidade de mortes nas favelas do Rio de Janeiro?
Entre cinco territórios pesquisados, incluí o lugar onde nasci e cresci. Meu objetivo não era retratar a violência como espetáculo, mas entender como ela é legitimada, justificada e vivida por quem a enfrenta diariamente. Essa abordagem me permitiu aproximar o olhar jurídico da experiência concreta de quem sobrevive em meio à morte.
O livro “‘Deu Mole’: uma análise sociojurídica de um lugar chamado de favela” é fruto de um trabalho que relata histórias de vida que transcendem o tempo de pesquisa. O trabalho desenvolvido surgiu do incômodo de um cria de favela que se desafiou na academia e buscou entender porque , ao longo de 30 anos de idade, conhecia mais de 100 pessoas que haviam sido mortas pela violência no lugar onde nasceu, cresceu e viveu a maior parte de sua vida.
Um lugar chamado de favela
A primeira favela do Rio de Janeiro surgiu no fim do século XIX, quando ex-combatentes da Guerra de Canudos ocuparam o Morro da Providência. O nome veio da planta favella, comum no sertão baiano e que se parecia com uma planta existente naquela localidade. Desde então, o termo passou a designar os espaços marcados por desigualdade, pobreza e resistência.
O Vale —nome que dei ao território que pesquisei por questões de ética de pesquisa e de garantia da preservação das identidades — não tem morros e foge do estereótipo visual de uma “favela” clássica. Esse detalhe me fez entender que o rótulo “favela” é, antes de tudo, uma construção política e moral. Cada território tem suas histórias e dinâmicas, mas todos que recebem essa nomenclatura compartilham a desigualdade e o tratamento violento das instituições estatais. Ou seja, pretenso distanciamento quando se trata de acesso a direitos, e justificada proximidade quando se trata de repressão.
Focalizo aqui o bairro do Céu Azul (outro nome dado por mim como preservação do território), local que se desdobrou em cinco favelas, inclusive o Vale. A área, antiga zona rural da coroa portuguesa, foi repovoada após o “fim” da escravidão, por pessoas que passaram pela violência da escravidão, bem como por migrantes de diversas regiões do país.
Nos anos 1990, com a expansão das facções do tráfico, fruto da violência prisional, uma parte do bairro do Céu Azul passou a ser chamado de “favela do Vale”. Nas duas últimas décadas, a chegada das milícias — formadas em grande parte por agentes de segurança pública — transformou ainda mais esse cenário. Hoje, vivem ali mais de 180 mil pessoas, a mais de uma hora de distância do centro do Rio e a cerca de duas horas das praias turísticas da Zona Sul.
As histórias relatadas, contemplam os dramas dos moradores de tais áreas da cidade, em que a política de segurança pública revela um regime jurídico em que o arbítrio é o que promove os “acessos” a direitos e indica não um poder paralelo ou uma ausência de controle, mas o tipo de experiência de Estado que é destinado a estilos de vida que compõem a cidade e estão sujeitos a brutalidade de agências estatais como parte intrincada ao seu viver.
A Polícia Militar e as operações policiais
O Brasil é um dos poucos países com uma polícia militar voltada para lidar com a população civil. A Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ), criada em 1809, nasceu com a chegada da corte portuguesa e tinha como missão capturar pessoas escravizadas fugitivas e proteger o rei de Portugal, Dom João VI. Sua origem está, portanto, ligada ao controle de corpos negros e pobres — herança autoritária que ainda marca suas ações. Inclusive, mantendo até os dias atuais o mesmo brasão estabelecido pela coroa portuguesa à época.
Cada estado brasileiro possui hoje sua polícia militar e seus batalhões especiais. No Rio, o Batalhão de Operações Especiais da PMERJ (BOPE) ganhou, no início dos anos 2000, seu primeiro veículo blindado: o “Caveirão”. Tanques de guerra que circulam por áreas densamente povoadas, blindados a tiros de fuzil e estampados com uma caveira atravessada por uma faca e duas pistolas — símbolo do próprio batalhão.
A justificativa dada é a proteção dos policiais, mas o resultado é o terror cotidiano. Pelas escotilhas dos blindados, as pontas dos fuzis miram as ruas. Moradores contam que, em algumas incursões, alto-falantes do Caveirão propagam cânticos de morte. Segundo os relatos, uma frase ecoava na sonoridade do veículo e nunca saiu da minha cabeça: “coitado de quem bater de frente”.
“Deu mole”, quando a morte é responsabilidade de quem morreu
O “deu mole” se revela como chave interpretativa das mortes. Apresento a seguir três casos que me ajudaram a consolidar o entendimento desta ideia.
O primeiro foi a morte de um jovem negro de pele retinta de 16 anos, que trabalhava como entregador de botijões de gás de cozinha. Em uma tarde de operações policiais no Vale, o jovem que estava em sua bicicleta que servia como veículo de trabalho, resolveu filmar com seu celular o “Caveirão” que passava a sua frente. Quem presenciou a cena me disse que foi apenas um tiro de fuzil que veio do veículo blindado. Este tiro acertou diretamente a cabeça do jovem. O veículo da polícia militar deu uma pequena ré, um policial com um capuz que não expunha sua identidade foi andando tranquilamente na direção do jovem, pegou o celular que caiu ao chão e retornou ao “Caveirão” que deu sua partida, seguindo com a incursão policial no Vale. Nenhum serviço público retornou para recolher o corpo e/ou prestar assistência a familiar. Segundo relatos, parte dos restos mortais do jovem se esvaiu ao chão com a forte chuva que tomou o Vale no fim de tarde daquele dia. Isto tudo acompanhado por sua mãe. Apenas ao final da operação policial no cair da noite, familiares do rapaz puderam retirar o corpo do local.
Outro jovem de 16 anos foi morto pela polícia em uma chamada, blitz. Neste caso, não foi relatada a presença do “Caveirão”, mas se tratava de uma incursão policial para busca e apreensão de motos roubadas, que conforme denúncias se encontravam no Vale. Este jovem era considerado localmente como moreno por conta da sua pele parda e pelo fato de que sua mãe era uma mulher de pele branca e seu pai um homem negro. Para alguns moradores do Vale, ele tinha algum envolvimento com a criminalidade local e para outros não.
De certo era que neste dia ele andava com uma moto de baixa cilindrada com outros rapazes também nascidos e criados no Vale. Quando se deparam com a polícia, os outros rapazes aceleraram e fugiram com motos mais potentes e roubadas – conforme me disseram. Enquanto isso, o jovem levou um tiro no meio do peito a altura do coração.
Os policiais acessaram o documento da moto, que estava no nome da mãe e ligaram para o contato da mesma que estava no baú da moto, informando que o veículo dela havia sido roubado. A mesma indagou que a moto estava com seu filho, enquanto os policiais afirmaram para ela ficar tranquila, pois não era seu filho e que logo o encontrariam. O jovem estava sem documentos e quando a mãe chegou ao local se deparou com o filho morto. Os policiais alegaram que houve troca de tiros e nada responderam judicialmente.
Outro caso, foi de uma mulher negra de mais de quarenta anos. A mulher trabalhava como assistente social no posto de saúde no Vale. Ela era querida por todos e mesmo com uma troca de tiros intensa e com a sabida presença do “Caveirão” na localidade, saiu para trabalhar preocupada com a situação no posto de saúde que já não era das melhores em dias sem operação policial. No trajeto ao posto ela foi alvejada com um tiro de fuzil na altura do abdômen e veio a falecer.
Os traficantes de droga em confronto com a polícia afirmaram que foi um tiro dado pelos policiais que estavam no “Caveirão”. A morte repercutiu em jornais locais e em entrevista à rede de televisão o comandante da polícia militar do Rio de janeiro à época negou que houvesse uma operação policial com o uso do veículo blindado, uma vez que não havia autorização para tal. Neste dia, posso afirmar que eu mesmo presenciei o tanque de guerra na localidade do Vale.
Apesar da revolta local, a reação dos moradores revela o poder moral do “deu mole”:
No primeiro caso: “não devia ter filmado o Caveirão”.
No segundo: “estava no lugar errado na hora errada, pois ‘quem se mistura com porco farelo come’”.
No terceiro: “sabia que não devia sair com o Caveirão na área”.
Em meu livro demonstro, portanto, que ao chamar um território de “favela”, ativa-se um modo de gestão da vida: mais repressão, menos direitos. O trabalho não foi realizado, então, para compreender como a violência é legitimada, justificada e sentida por quem a vive diariamente. As agências de estado se aproximam com fuzis e se afastam quando se trata de políticas de inclusão, educação ou saúde. Essa seletividade jurídica e social estrutura a cidadania no Brasil para um cem número de pessoas. De fato, não é a favela que gera a violência, mas a violência governamental que se impõe sobre tais lugares que garante a justificação da alarmante desigualdade social e econômica no Rio de Janeiro.
O sistema de justiça, dessa maneira, reforça a desumanização e o controle sobre corpos territorializados e considerados suspeitos por definição. “Dar mole” é, no fundo, a tradução popular de um projeto desigual de cidadania — em que a culpa, o risco e a morte estão sempre sobre as mesmas pessoas, em quaisquer lugares que estejam na cidade. Ou seja, sobre aqueles e aquelas que não podem questionar o poder de matar.
Gabriel Borges da Silva é professor substituto na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), pesquisador no INCT-InEAC/UFF. Autor do livro “Deu mole: uma análise sociojurídica de um lugar chamado favela”.
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