16 de junho de 2026

O escândalo da desigualdade, por Maria Luiza Falcão

A desigualdade voltou num contexto de financeirização extrema, concentração fundiária e enriquecimento acelerado do topo.
Foto de Tânia Rêgo - Agência Brasil

O escândalo da desigualdade: o Brasil que concentra renda, terras e privilégios

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Maria Luiza Falcão

A desigualdade brasileira é um escândalo histórico — e, pior, uma vergonha que persiste. Após três mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e um mandato mais um ano e meio de Dilma Rousseff (PT), o país que prometia romper com seu passado excludente não conseguiu desmontar a máquina estrutural da concentração de renda e riqueza.

É verdade que o Brasil viveu, sob os governos petistas, a mais expressiva redução da pobreza de sua história — o país saiu do mapa da fome da ONU em 2014, com o salário mínimo valorizado em termos reais e o Bolsa Família beneficiando mais de 13 milhões de famílias. Mas o avanço foi interrompido brutalmente: entre 2016 e 2022, durante o ciclo Michel Temer (MDB)/Jair Bolsonaro (PL), o país voltou ao mapa da fome e viu crescer a extrema pobreza e o número de pessoas em situação de rua.

Hoje, em pleno terceiro mandato de Lula, a desigualdade brasileira voltou a patamares próximos aos observados antes dos avanços sociais da década de 2000, interrompendo a trajetória de redução que havia começado nos dois governos Lula e no da presidente Dilma Rousseff, num contexto de financeirização extrema, concentração fundiária e enriquecimento acelerado do topo.

O retrato numérico da desigualdade

O IBGE revelou que o índice de Gini — que mede a desigualdade de renda — ficou em 0,506 em 2024.  O valor mais alto da série, que foi de 0,544 em 2021, caiu para 0,518 em 2022 e 0,518 em 2023, conforme a PNAD Contínua. Os dados mais recentes mostram uma queda significativa, atribuída ao fortalecimento do mercado de trabalho, aumento do rendimento médio per capita e a programas sociais.  O Gini varia entre 0 e 1 — quanto mais próximo de zero menos concentrada é a renda. Em 2020 o Gini foi de 0,498.

Para se ter uma ideia mais clara, com um Gini de 0,518 em 2023, os 10 % mais ricos concentraram 42,1 % da renda nacional, enquanto os 40 % mais pobres ficaram com apenas 12,7 %. A renda média domiciliar per capita atingiu R$ 1.848 em 2023, mas com distribuição altamente desigual em termos espaciais: no Nordeste, a média era de apenas R$ 1.145, enquanto no Sudeste ultrapassa R$ 2.300.

Em 2024, a Agência Brasil apontou que os 10 % mais ricos ganham, em média, 13,4 vezes mais que os 40 % mais pobres, e que o 1 % mais rico recebe 36 vezes mais que os 40 % de menor renda. A FGV/ IBRE confirma: entre 2017 e 2022, a renda dos milionários brasileiros cresceu 87 %, enquanto o rendimento médio dos trabalhadores subiu menos de 15%.

O 1 % mais rico detém cerca de 20 % da renda total, e os 10 % mais ricos (cerca de 20 milhões de pessoas) concentram quase 60 % da renda nacional, segundo o World Inequality Database. Enquanto isso, a metade mais pobre da população brasileira (50%) fica com apenas 8,5 % da renda (cerca de 105 milhões de pessoas).

Essa estrutura se manteve praticamente inalterada em vinte anos — uma prova de que o sistema tributário, o mercado de trabalho e o crédito seguem operando para o topo.

O ciclo petista: avanços e limites

É impossível negar o salto social obtido entre 2003 e 2014 durante governos petistas. Durante os dois primeiros mandatos de Lula, o Brasil criou 22 milhões de empregos formais, valorizou o salário mínimo em 74 % em termos reais e reduziu a pobreza extrema de 12 % para 4,8 %.

A renda dos 20 % mais pobres cresceu mais que a dos 20 % mais ricos.
Essas políticas, somadas à expansão do crédito e da agricultura familiar, retiraram o país do mapa da fome da ONU em 2014.

Porém, a partir de 2015, com a crise política e o desmonte das políticas sociais, o processo de inclusão foi revertido. O governo de Michel Temer congelou gastos por 20 anos e Jair Bolsonaro promoveu o desmonte das redes de proteção social e aprofundou a financeirização da economia, que recompensa o rentismo e penaliza o trabalho.

Em 2021, no governo de Jair Bolsonaro, o rendimento médio real do trabalho caiu 7 %, e a inflação de alimentos ultrapassou 14 %, empurrando milhões de famílias de volta à miséria.

Quando Lula reassumiu, em 2023, 33 milhões de brasileiros passavam fome.

Financeirização e o novo rentismo

O Brasil transformou-se num paraíso para o capital financeiro.
Com uma das maiores taxas reais de juros do planeta, o país remunera o capital improdutivo enquanto as empresas reduzem investimentos e o Estado carece de recursos.

Os cinco maiores bancos registraram, juntos, lucros líquidos superiores a R$ 145 bilhões em 2023, mais que o orçamento de todos os programas sociais somados.

O resultado é perverso: a renda do capital cresce dez vezes mais rápido que a do trabalho. O sistema tributário continua regressivo e anacrônico.
Enquanto trabalhadores pagam imposto na fonte, os super-ricos seguem isentos de tributar lucros, dividendos e grandes heranças.

Reformas tímidas, como a taxação de fundos exclusivos e offshores, esbarram na resistência do rentismo, que domina o Congresso e o debate público.

A consequência é a manutenção de um modelo perverso que concentra riqueza e desestrutura o mercado interno.

Terra, agro e os novos milionários

A desigualdade rural é o espelho da urbana.
O Censo Agropecuário 2023 mostra que 1% dos proprietários controlam quase metade das terras produtivas do país.

O avanço do agronegócio exportador — concentrado em soja, milho, carne e algodão — gerou uma nova classe de milionários e bilionários rurais, mas não se traduziu em empregos ou melhor distribuição.

De 2012 a 2022, o número de propriedades com mais de 10 mil hectares cresceu 22 %, enquanto as pequenas propriedades encolheram. A renda gerada no campo se dolariza, escapa do país via lucros e dividendos e não retorna em investimento social.

O resultado é um Brasil de latifúndios e favelas crescentes, um país que exporta riqueza e importa desigualdade.

O rosto humano da exclusão: as ruas

A face mais cruel dessa estrutura é a explosão da população em situação de rua. Em março de 2025, o Cadastro Único registrava 335 mil pessoas vivendo nas ruas — 15 vezes mais que em 2013, quando Dilma ainda governava.

Entre 2023 e 2024, no terceiro mandato de Lula, o número cresceu 25 %, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social. A maioria é negra (68%), homem (86%) e já teve emprego formal. São vítimas diretas do desemprego estrutural, dos aluguéis abusivos e da insuficiência de políticas habitacionais.

Trata-se de um país que naturalizou a miséria a céu aberto: famílias inteiras sob viadutos, idosos abandonados, jovens sem perspectiva.

O mesmo país que abriga a terceira maior frota de jatinhos particulares do mundo e que produz anualmente cerca de 354,7 milhões de toneladas de grãos (previsão para a safra de 2025), além de 31 milhões de toneladas de carnes (estimativa para 2025), totalizando mais de 385 milhões de toneladas de alimentos.

A produção brasileira de grãos e alimentos é suficiente para abastecer entre 800 milhões e 1 bilhão de pessoas. Essa capacidade supera em muito a população do país, que é de cerca de 210 milhões de habitantes, o que faz do Brasil um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. 

Por que não avançamos

Três fatores explicam o impasse:

  1. Estrutura histórica concentradora — a economia brasileira nasceu com a desigualdade inscrita no DNA: escravidão, latifúndio e exclusão educacional.
  2. O poder do rentismo e do capital financeiro, que bloqueia qualquer tentativa de redistribuição estrutural.
  3. A falta de continuidade das políticas redistributivas, ora sabotadas, ora esvaziadas.

Os programas de transferência de renda aliviam a pobreza, mas não alteram a estrutura patrimonial. Enquanto a elite financeira acumula fortunas, o país empobrece em silêncio.

O desafio do presente

O Brasil de 2025 é uma contradição viva: a inflação controlada e o crescimento modesto do PIB convivem com salários achatados, trabalho informal e pobreza vergonhosa. Segundo o IBGE, cerca de 37,8 % da força de trabalho estava na informalidade no trimestre de abril a junho de 2025, embora o rendimento médio mensal real tivesse atingido R$ 3.477 — o maior valor já registrado na série histórica iniciada em 2012.

Lula 3 tenta reconstruir o tecido social rasgado: ampliou o Bolsa Família, lançou o programa Desenrola Brasil, valorizou novamente o salário mínimo e iniciou a tributação de grandes fortunas no exterior.

Mas a financeirização global e o poder do agronegócio são forças poderosíssimas — nenhum governo, sozinho, as enfrenta impunemente.
O desafio não é apenas econômico: é civilizatório.

A desigualdade no Brasil não é destino — é projeto.
É a consequência direta de decisões políticas que protegem a riqueza e punem o trabalho. O país que teve a coragem de eleger um operário e uma mulher à Presidência não tem força para tributar os super-ricos.

A concentração de renda, de terras e de poder é a mãe de todas as crises — moral, social e ambiental.

Enquanto não enfrentarmos o rentismo, democratizarmos o crédito e reformarmos a tributação, seguiremos sendo o país onde poucos têm tudo e centenas de milhares não têm nem teto.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).Mariana Nascimento – Analista Ambiental licenciada do Ministério do Meio Ambiente e faz mestrado em Assuntos Internacionais, com ênfase em Mudanças Climáticas e Energia, na Universidade de Nova Iorque.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    18 de outubro de 2025 8:45 am

    A humanidade viveu por milênios numa espécie de comunismo primitivo, portanto, podemos considerar que o comunismo primitivo foi o modo econômico mais longevo. Com o advento da agricultura, surgiu a necessidade de fixação de residencias no entorno das plantações,o que proporcionou a formação de excedente agrícola, daí surgiu a propriedade privada que não tardou a instituir a escravidão, que se tornou o sistema econômico das nascentes civilizações e que tiveram como regra fundamental as desigualdades sociais que perduram até os dias atuais. Portanto, no quadro atual que vivemos nos mais diferentes países, existe uma luta pela diminuição das extremas desigualdades que impera no nosso planeta, Pois no âmbito do sistema capitalista, é impossível acabar com as desiguldades, pois enquanto existir a propiedade privada dos meios de produção, as desigualdades continuarão.

  2. AMBAR

    18 de outubro de 2025 4:59 pm

    A estrutura politico-econômica do nosso país é solidamente fundada numa pirâmide de larga base, e ai daquele que ousa diminui-la: quando isso ameaça acontecer o sistema rapidamente expulsa o governante transgressor. Por isso damos um passo pra frente e dois para trás no desenvolvimento social.

Recomendados para você

Recomendados