7 de agosto de 2026

Os novos bárbaros das Big Techs, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A tentativa de Trump de usar o poder comercial dos EUA para obrigar os brasileiros a eleger Flávio Bolsonaro é inútil, fútil e ridícula
Imagem gerada por IA

O conflito entre Rússia e Ucrânia foi precedido por golpe da CIA e envolve tensões culturais e linguísticas no leste ucraniano.
EUA atacam Irã sob pretexto nuclear para controlar petróleo e conter influência chinesa, enquanto China apoia Rússia e Irã.
Brasil mantém relações comerciais com EUA e China, mas deve reduzir dependência tecnológica dos EUA para preservar autonomia.

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Os novos bárbaros das Big Techs

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Durante a Guerra Fria dois sistemas políticos, econômicos e sociais distintos lutaram pela supremacia, cada qual utilizando as ferramentas ideológicas e conceituais específicas que dispunham. As únicas coisas que americanos e soviéticos tinham que poderiam ser consideradas semelhantes eram: um imenso arsenal de armamentos nucleares e o medo de ser atacado pelo inimigo.

Com o desmoronamento da URSS, ocorreu uma modificação na realidade global que foi descrita da seguinte maneira por Tzvetan Todorov:

“Com o fim da Guerra Fria, verifica-se forçosamente uma mudança de situação. Daí em diante, de acordo com o diagnóstico de Huntington, deixa de existir enfrentamento entre blocos ideológicos e políticos; em seu lugar surge o confronto entre áreas culturais, grupos de países pertencentes à mesma civilização. O número de tais grupos elevar-se-ia a oito: civilização chinesa, japonesa, hindu, muçulmana, ortodoxa, ocidental, latino-americana e, potencialmente, africana. As relações entre elas consistem em rivalidades que conduzem inevitavelmente ao choque; para nós, ocidentais, o maior perigo provém, portanto, das outras civilizações. Concretamente, a ameaça encarna-se, sobretudo, em duas tradições particulares, representadas pela China e pelo islã.” (O medo dos bárbaros, Tzvetan Todorov, Editora Vozes, Petrópolis, 2010, p. 105)

Um pouco adiante Todorov esclarece que:

“… Huntington procede como se fosse possível identificar, de uma só vez, o núcleo duro, ou essência, de cada civilização, cujo dever sagrado consistiria em evitar atraiçoa-lo; e como se tivesse existido desde sempre, o mesmo número de civilizações. Entretanto, basta dirigir um olhar, nem que seja superficial, para a história do mundo e vamos constatar que essas afirmações são equivocadas: no pressuposto de que tal generalização tenha um sentido, a civilização ocidental sofreu uma profunda transformação entre os anos zero, o ano 1000 e o ano 2000; sabe-se, também, que a representação adotada por essa mesma civilização é resultado de acirrados combates entre grupos de influência e de consenso que, por sua vez, são diferentes entre uma geração e outra.” (O medo dos bárbaros, Tzvetan Todorov, Editora Vozes, Petrópolis, 2010, p. 105/106)

O conflito de civilizações huntingtoniano pode ser descrito como uma falsificação grosseira. Todavia, é evidente que ele se transformou numa realidade política e militar na Europa e no Oriente Médio. A teoria do conflito de civilizações engendrou tanto a guerra da Ucrânia quando a do Irã.

O conflito militar entre Rússia e Ucrânia foi precedido por um golpe de estado promovido pela CIA em Kiev com ajuda de grupos nazistas ucranianos. O novo regime da Ucrânia passou a hostilizar e agredir militarmente, por razões culturais e linguísticas, a população de origem russa no leste do país obrigando a Rússia a intervir.

Ao atacar o Irã sem provocação, o governo dos EUA requentou o suposto perigo civilizacional que o islã politizado de matriz Xiita representaria para o Ocidente. A lenga-lenga de que os iranianos desejavam construir bombas nucleares foi utilizada para esconder a cobiça pelas reservas petrolíferas daquele país, cujo controle daria aos norte-americanos a possibilidade de estrangular economicamente a China.

Os chineses apoiam abertamente a Rússia e mantém relações comerciais bilaterais intensas com o Irã. Até a presente data o mundo encontra-se mergulhado em dois conflitos militares sem solução. A Rússia poderia reduzir Kiev a escombros, mas não faz isso porque teme ampliar o conflito e não deseja uma guerra maior contra a OTAN. Os EUA não estão realmente em condições de derrotar, submeter e ocupar o Irã. Donald Trump foi obrigado e ver grande parte da infraestrutura militar norte-americana no Oriente Médio ser destruída por mísseis iranianos.

A nova guerra fria entre EUA e China é diferente da anterior. Isso porque chineses e norte-americanos não apenas disputam a hegemonia com base na mesma tecnologia (IA, robótica, etc), mas porque as economias dos dois países continuam em grande medida integradas. É imensa a quantidade de empresas norte-americanas que operam na China. Não é menor a quantidade de empresas chinesas que exportam seus produtos para os EUA. Apesar das novas tarifas alfandegárias impostas por Trump, as importações da China não irão declinar muito em virtude da desindustrialização norte-americana.  

Durante a primeira Guerra Fria a sujeição a um ou a outro bloco eram inevitáveis. A URSS arrastou para sua área de influência todos os países vizinhos, com exceção da Iugoslávia de Tito. Todo continente americano foi atraído para o campo dos EUA, exceto Cuba. A nova Guerra Fria gera tensões, mas não leva à adesão total ou automática aos EUA ou à China.

O Brasil tem relações bilaterais de comércio com os EUA, China, Europa e com diversos países africanos, levantinos e asiáticos. As tensões entre o Japão e a China nunca afetaram as relações bilaterais Brasil/Japão e Brasil/China. As relações Brasil/EUA e Brasil/China poderiam seguir esse mesmo padrão, mas para que isso ocorra os norte-americanos tem que começar a perceber que não conseguirão fazer a roda da história voltar aos anos 1960.

A tentativa de Donald Trump de usar o poder comercial norte-americano para obrigar os brasileiros a eleger Flávio Bolsonaro é inútil, fútil e ridícula, um verdadeiro desperdício de recursos. Na fase atual, o Brasil tem plenas condições de explorar as contradições de um mundo que continuará multipolar apesar da ambição imperial dos EUA.

Lula faz bem em seguir diversificando o comércio brasileiro. Aquilo que os norte-americanos não quiserem comprar do Brasil, poderá ser enviado para outro destino (como a Coréia do Sul, por exemplo). A única vulnerabilidade brasileira real no momento é tecnológica. Nosso país tem que parar de depender tanto da infraestrutura computacional e tecnológica dos EUA. Não é mais possível admitir que os norte-americanos possam com alguns cliques causar danos à vida econômica dos Ministros do STF ou mesmo ameaçar o funcionamento do sistema de justiça brasileiro.

Se existem, os novos bárbaros não estão fora do Ocidente. Eles estão todos nos EUA. Os donos de Big Techs se transformaram numa ameaça tanto para a democracia e o bem-estar dos norte-americanos quanto para a paz entre nações civilizadas. A esmagadora dos membros da ONU deseja preservar a ordem mundial baseada em regras com Tribunais Internacionais capazes de cumprir seus mandatos, porque somente isso possibilitará a todas nações travar relações comerciais seguras, previsíveis e pacíficas. Nenhuma nação deve ser obrigada a se submeter à hegemonia tecnológica e monetária dos EUA.

A única vulnerabilidade real do Brasil nesse momento é a presidência do TSE. Nunes Marques parece não estar a altura do cargo que ocupa e se movimenta para flexibilizar o combate às fake news, algo que interessa apenas à Flávio Bolsonaro e à extrema direta. Ele anunciou que espera um plano das Big Techs para reprimir deepfakes eleitorais. A quem interessa a aposta do presidente do TSE na autorregulação de empresas multinacionais que se alinharam ao governo Donald Trump em troca de imensos nacos do Orçamento do Pentágono?

O uso do conceito guerra híbrida faz sentido quando “shadow operations” são organizadas para deslegitimar um candidato e beneficiar outro ou quando dinheiro é ilegalmente injetado numa campanha de desestabilização política, por exemplo. Não é isso que está ocorrendo nesse momento. Donald Trump publicamente declarou guerra ao sistema eleitoral brasileiro e à autonomia política do Brasil. A Embaixada dos EUA se reúne abertamente com Influencers (a Lumpen-elite criada pelas Big Techs) para beneficiar Flávio Bolsonaro, o que nos leva a crer que esses mesmos Influencers serão algoritmicamente impulsionados e ganharão toneladas de dinheiro com ajuda de seus patrões estrangeiros. Isso não é guerra híbrida e sim guerra aberta.

Nesse contexto, devemos perguntar se Nunes Marques é a pessoa errada no cargo errado no momento errado? Se não tomar cuidado, a esquerda brasileira será novamente vítima de um republicanismo mofado que já foi jogado na lata do lixo pela direita e pela extrema direita trumpista e bolsonarista.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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