23 de julho de 2026

Kanbei e a cerimônia do chá de Trump para o clã Bolsonaro, por Fábio Ribeiro

Os filhos do seu Jair parecem dispostos a sacrificar o Brasil inteiro numa cerimônia do chá para o imperador
Imagem gerada por IA

A série Kanbei retrata o Japão medieval, destacando conflitos entre clãs e o valor simbólico dos apetrechos da cerimônia do chá.
Oda Nobunaga usa objetos cerimoniais como moeda social para reforçar alianças e lealdades militares entre samurais.
O clã Bolsonaro trata Donald Trump como líder unificador, comparando-o a Nobunaga, valorizando seus símbolos políticos.

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Kanbei e a cerimônia do chá de Donald Trump para o clã Bolsonaro

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

A série Kanbei (NHK 2014), agora transmitida pelo Netflix, merece ser vista pelo público brasileiro. Isso porque os produtores dela conseguiram recriar o cotidiano do Japão medieval com toda sua complexidade. As relações dentro das famílias dos amurais e dos clãs e entre os clãs rivais deles foi dramatizada de maneira convincente.

No Japão da época predomina a guerra endêmica, com batalhas pequenas envolvendo clãs regionais e grandes batalhas entre coalisões de clãs distintos organizados em torno dos Mori e de Oda Nobunaga.

Kanbei assume a posição de líder do pequeno clã Kuroda, que está a serviço do clã Kodera. O líder dos Kodera é um tanto medroso e inseguro. Kanbei cai nas graças do daimyō Toyotomi Hideyoshi, líder um clã aliado de Oda Nubunaga (samurai que comanda uma coalização de senhores feudais  que pretende unificar o Japão). Kodera aceita se aliar a Nobunaga, mas tem medo de enviar o filho como refém. O filho de Kanbei o substitui.

Não narrarei aqui os detalhes da série. O que me chamou especialmente atenção foi o papel dos apetrechos de cerâmica para realizar a cerimônia do chá desempenham na trama. Como outros samurais de sua estirpe, Oda Nobunaga se torna especialmente atraído por esses objetos. Eles adquirem um grande valor simbólico e acabam circulando entre os samurais.

Alguns desses apetrechos de cerâmica para realizar a cerimônia do chá tem grande prestígio e se tornam verdadeira moeda de troca que representa tanto a lealdade quando o reconhecimento por serviços prestados. Ao dissertar sobre o âmago da moeda, François Simiand afirma que:

“Esse âmago não é feito de elementos físicos, quantificados ou quantificáveis, entre os quais se estabelece uma relação matemática que constitui ou mensura esse valor. Ele é feito de apreciações, de estimativas, de crenças, de confiança e de desconfiança, produtos tanto sentimentais quanto racionais, os quais, portanto, indubitavelmente não chegam sequer a analisar, de forma distinta, essas duas ordens de dados que aqui acabamos por separar: trata-se simplesmente e quanto a seu todo de uma crença e de uma fé nessa expressão de valor que carrega o emblema de um país. E se essa crença e essa fé têm um papel efetivo sobre os próprios elementos físicos da vida econômica, é porque não se trata apenas de ideia e sentimento subjetivos. Tal representação ao mesmo tempo intelectual e afetiva que caracteriza uma moeda desse tipo não é o produto de individualidades componentes e informadas (as quais, como vimos, justamente não compreendem os comportamentos efetivos dessa moeda), mas precisamente de grupos, de coletividades e de uma nação. Ela é social. Ela tem uma característica e um papel manifestamente objetivos, pois ela é uma crença e uma fé social e, como tal, uma realidade social.” (A moeda, realidade social – François Simiand, Edusp, edição bilíngue e crítica, São Paulo, 2018, p. 91)

A série Kanbei mostra de maneira eloquente como os apetrechos de cerâmica para a cerimônia do chá se tornam uma moeda porque os samurais acreditam no valor daqueles objetos, cuja circulação entre eles adquirem uma realidade social reforçando os compromissos militares em torno de Oda Nobunaga.

Num episódio dramaticamente bem elaborado, Oda Nobunaga envia de presente a Toyotomi Hideyoshi uma chaleira de chá porque ele conquistou a província de Harima com poucas baixas. Hideyoshi abre o presente e o mostra a um servo e ao filho de Kanbei dizendo que aquele objeto tem grande valor. O menino diz ao daimyō que aquela chaleira de chá não parece muito diferente de outras e pergunta ao samurai porque ela tem tanto valor. 

A resposta de Toyotomi Hideyoshi é fantástica. Ele diz que não sabe que valor tem aquela chaleira, mas para ele ela é muito valiosa porque foi um presente de Oda Nobunaga. Eis a prova de que no âmago de uma moeda está a crença ou a fé de alguém de que algo tem valor e a realidade social que ela solidifica. O prestígio de Oda Nobunaga confere valor ao objeto que representa a gratidão pela vitória militar e reforça a devoção do daimyō presenteado no seu líder.

É impossível deixar de notar algumas semelhanças entre Oda Nobunaga e Donald Trump. O primeiro destruiu o equilíbrio instável entre os daimyōs medievais japoneses, criando uma coalisão para encerrar o período de guerras endêmicas locais mediante a unificação forçada do Japão. Entretanto, enquanto ocupou o centro das atenções e das ações no seu país, Nobunaga liderou imensas batalhas campais que resultaram em milhares de baixas. Ele também devastou de maneira impiedosa templos budistas que se recusaram a apoia-lo ou que se levantaram em armas contra ele.

Donald Trump ameaça constantemente romper com a Europa e destruiu o equilíbrio entre as nações mediados pela ONU e por instituições multilaterais como o Tribunal Penal Internacional. Além abusar de tarifas punitivas contra países que mantém relações amistosas com os EUA, o presidente norte-americano continuou a fornecer armas aos ucranianos e israelenses. Trump também impôs sanções administrativas contra autoridades estrangeiras (juízes do TPI e Ministros do STF, por exemplo), mandou sequestrar Nicolás Maduro na Venezuela, autorizou a prática de pirataria contra petroleiros venezuelanos, chineses e russos, atacou o Irã injustamente e agora ameaça militarmente o Brasil ao designar o PCC e o CV como organizações terroristas.

A maneira como clã Bolsonaro trata Donald Trump sugere que não é tão absurdo compará-lo a Oda Nobunaga. Afinal, os filhos do seu Jair agem como se acreditassem que o presidente dos EUA será capaz de unificar as Américas do Norte, Central e do Sul sob o comando da extrema direita. Ele realizaria em escala continental aquilo que Oda Nobunaga tentou em escala nacional.  

Ademais, qualquer objeto, foto ou pedaço de papel o presidente dos EUA entregue a Flávio Bolsonaro e a Eduardo Bolsonaro é tratado por ambos como algo que tem grande valor simbólico e eleitoral. Os filhos do seu Jair parecem dispostos a sacrificar o Brasil inteiro numa cerimônia do chá para o imperador do American White Ass Apes Empire. Impossível não rir dos samurais caipiras e sem pedigree do clã Bolsonaro, porque eles provavelmente não sabem o que aconteceu com o verdadeiro Oda Nobunaga.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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