5 de junho de 2026

Trump, um presidente mefistofélico, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Murnau responsabiliza Mefistófeles nos fazendo perceber ou acreditar que o sentimento de culpa de Fausto é fruto de um autoengano.

▸Donald Trump posta vídeo polêmico envolvendo manifestantes nos EUA, gerando controvérsia e críticas. Ele aparece pilotando um jato que defeca sobre as pessoas.

▸A imagem grotesca e ofensiva criada por Trump visa excitar seus apoiadores e desafiar opositores. A viralização da cena levanta questões sobre o exercício do poder presidencial nos EUA.

▸A repercussão do vídeo pode afetar a credibilidade da presidência dos EUA a longo prazo, gerando dúvidas sobre a seriedade do cargo e suas consequências geopolíticas.

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Donald Trump, um presidente mefistofélico

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

No poema de Goethe, o pacto entre o cientista Fausto e Mefistófeles é representado no papel e assinado com sangue.

“MEFISTÓFELES

Como podes falar com tanta ansiedade,
Com palavras tão puras, firmes, e inflamadas?
A mim basta o papel, qualquer uma folhinha,
Mas escreve com sangue, usa uma gotinha…

FAUSTO

Se apenas isso julgas será suficiente,
Aceito a farsa já, e o faço bem contente.

MEFISTÓFELES

O sangue humano é tinta ardente e especial.”

(Fausto, J. W. Goethe, Círculo do Livro, São Paulo, 1985  – A tragédia, p. 83)

Na transposição fílmica da obra por F.W. Murnau em 1926, o mesmo ocorre. Antes do pacto, entretanto, a tragédia é amplificada no filme. Ela foi assim descrita:

“FAUSTO

Num consórcio feliz nova droga geraram.
Na retorta surgia em cores candescentes
A sua nova rainha, o produto comum.
Criara enfim o remédio, expiram os pacientes,
E ninguém perguntava: ‘curou algum?’
E assim fizemos nós com drogas infernais,
Por todos esses campos e as montanhas, mais
Mortes do que as pestes alcançar podiam.
Eu mesmo dei remédio a enfermos, aos milhares,
Secaram, se finaram e hoje, sem pesares,
Audazes assassinos louvam e nos gloriam!”

Fausto, J. W. Goethe, Círculo do Livro, São Paulo, 1985  – A tragédia, p. 58)

O cientista se sente culpado porque o remédio que ele produziu e distribuiu matou mais pacientes do que a peste. Murnau, entretanto, retrata a tragédia de maneira um pouco diferente. No filme, um imenso Mefistófeles alado abraça a cidade. Ele é a própria pestilência que se espalha, quer como doença incontrolável quer como um remédio ineficaz e eventualmente letal produzido e distribuído por Fausto.

Murnau responsabiliza Mefistófeles nos fazendo perceber ou acreditar que o sentimento de culpa de Fausto é fruto de um autoengano. Essa é uma das interpretações do poema, mas ela não é a única. A imagem, entretanto, é poderosa e muito mais convincente do que as outras interpretações possíveis baseadas na consciência que o próprio Fausto exibe acerca da natureza farsesca de seu interlocutor e das ações dele.

Até o filme ser produzido e visto, poucos leitores de Goethe conseguiriam imaginar algo tão poderoso como a imagem criada por Murnau. Depois que ela foi vista é quase impossível não ler o texto de Goethe levando-a em consideração. O símbolo pictórico criado pelo cineasta como que se tornou parte do texto poético influenciando sua interpretação. É nesse sentido que podemos dizer que a imagem é mefistofélica: ela condensa, emociona e educa. Mas a imagem sempre ensina algo de acordo com as preferências estéticas de quem a criou, algo que provoca deslocamentos de sentido e confusões semânticas.

O vídeo que Donald Trump criou ou mandou alguém criar com ajuda de IA e depois divulgou no Twitter não é apenas perturbador, ofensivo, preocupante, simbolicamente violento ou uma metáfora do governo dele. Nele o presidente dos EUA coroado pilota um jato de guerra que literalmente defeca nos manifestantes que se reuniram nas ruas de NY. Trump diz algo como “sou o comandante em chefe da US Air Force e estou cagando e andando para o que vocês querem”.

A imagem é tão grotesca, ridícula e risível quanto o próprio governo Trump. Mas ela é também educativa, pois mostra aos eleitores norte-americanos que o exercício do poder presidencial não precisa agradar a massa ignara nas ruas. Depois que foi outorgado, o poder não se submete mais aos princípios democráticos ou no mínimo o presidente pode escolher que massa de cidadãos ele vai atender e quais ele vai simplesmente ignorar.

Trump obviamente pode colocar muito mais gente nas ruas. Ele conta com o apoio de uma maioria barulhenta que não será silenciada pela oposição. Nesse sentido, é evidente que o vídeo não foi criado apenas para ofender os adversários do trumpismo, mas para excitar os apoiadores de Trump. A imagem dele defecando nos adversários se tornou imediatamente viral. Ponto para o presidente dos EUA, que parece conhecer melhor a gramática da internet do que seus adversários.

Mas o poder é um tirano elusivo e caprichoso. O que no curtíssimo prazo parece ser bom, a longo prazo pode ser devastador. Assim como a imagem criada por Murnau de certa maneira condiciona a interpretação do texto de Goethe, a imagem de Donald Trump defecando na população norte-americana pode aparentemente grudar na presidência dos EUA esvaziando sua credibilidade. A ridicularização do cargo exercido temporariamente por Trump atende os interesses dos trumpistas enquanto eles estiverem no poder. Mas isso poderá afetar de maneira negativa o país no futuro, quando outra pessoa estiver na Casa Branca.

Uma vez divulgado, o vídeo não poderá ser desvisto. Reproduzido à exaustão, ele não será esquecido. Esse vídeo já se incorporou ao imaginário coletivo. A questão é se ele se transformará ou não numa grande sombra mefistofélica projetada acima da Casa Branca.

Não é possível levar Donald Trump a sério, todo mundo sabe disso. A questão agora é: Pode alguém levar a sério a presidência dos EUA? Os compromissos que as autoridades norte-americanas assumiram com a Ucrânia e Taiwan ou mesmo sua proposta de invadir a Venezuela são reais ou Trump está apenas pilotando seu jato que defeca merda em NY para defecar no mundo inteiro?

Bem, certamente Trump pode tentar usar seu caça imaginário criado por IA defecar em Moscou mas isso será inútil.

“A crise ucraniana de 2014 marcou o fim das grandes aspirações europeias [do Kremlin], e a partir disso Moscou se concentrou em vários projetos de integração euroasiáticos e no objetivo mais amplo de criar uma espécie de Grande Parceria Euroasiática (GEP). A Estratégia de Segurança Nacional, de 31 de dezembro de 2015, alertou severamente sobre essa ameaça:

Expandir o potencial de força da Otan e dotá-la com funções globais que são implementadas com a violação das nornas legais internacionais, com a atividade militar intensificada do bloco, com sua expansão contínua e com a aproximação de sua infraestrutura militar das fronteiras russas, criam uma ameaça à segurança nacional.

A Estratégia apresentava a Rússia como um ator global com preocupações regionais e condenava tentativas de um novo contingenciamento. Definia o confronto com o Ocidente como uma ameeaça e alertava contra guerras ‘híbridas’ supostamente conduzidas contra a R[ússia. A autoconfiança e a autossuficiência do país foram enfatizadas, acompanhadas pela ‘securitização’ de novas áreas políticas, tanto na Rússia quanto no Ocidente.” (A Paz Perdida, Richard Sakwa, Editora Unesp, São Paulo, 2025, p. 198)

Os governantes da Rússia afirmaram várias vezes, com ênfase crescente, que não aceitariam uma Ucrânia armada e dentro OTAN porque isso representava uma ameaça intolerável ao seu território nacional. Quando perceberam que o impasse não poderia ser resolvido diplomaticamente, os russos invadiram o vizinho belicoso para garantir a segurança e a autonomia da população cultural e etnicamente russa próxima à fronteira (atacada pelos ucranianos) e para repelir o que consideravam uma ameaça ao seu próprio território. Todos podem discordar do que a Rússia fez, mas ninguém deve imaginar que o Kremlin não tem credibilidade.

Nos últimos dias, os líderes russos tem dito que um ataque ucraniano ao seu território com mísseis de longo alcance alemães, ingleses ou norte-americanos equivale à uma declaração de guerra da Alemanha, da Inglaterra ou dos EUA. E não descartam o uso de armas nucleares. Essa não é uma ameaça retórica. Afinal, um conflito entre potências nucleares inevitavelmente tende a escalar por que cada envolvido ficará com medo de ver seu próprio arsenal de mísseis balísticos e ogivas atômicas destruído pelo inimigo antes de poder utilizá-lo.

O vídeo de Donald Trump defecando nos norte-americanos pode desviar a atenção da imprensa e da população mundial, mas não vai alterar a maneira da Rússia se comportar. O Kremlin está mais preocupado com a definição e a execução do orçamento militar dos EUA. Como esses recursos serão investidos, que armamentos estão sendo fabricados, onde eles serão instalados e que país poderá recebê-los e utilizá-los na Europa?

Portanto, devemos supor que os russos não acreditam que, sendo apenas um paspalho, Trump não representa uma ameaça militar real para a Rússia. Ao contrário, porque o jogo de ilusões dentro de um contexto MAD (sigla em inglês para a expressão militar destruição mútua assegurada) pode gerar mais tensão do que dissolver toda a tensão que já está sendo acumulada e amplificada com a entrega de mísseis tomahawk à Zelensky pelos EUA.

A autodestruição midiática da credibilidade da presidência dos EUA por Donald Trump não afetou a disposição dos EUA de apoiar Israel. Trump manteve o fluxo de armamentos e de recursos durante vários meses. Ele mandou bombardear instalações nucleares no Irã. Aquilo que o presidente dos EUA faz no Twitter e no Facebook é muito diferente do que ele tem feito no mundo real.

A sombra mefistofélica que Donald Trump projetou sobre a presidência norte-americana nesse momento pode rapidamente se tornar um duplo daquela imagem que Murnau criou para representar um fragmento importante do poema de Goethe. E assim a representação cinematográfica da tragédia fictícia narrada no poema Fausto pode se torna uma chave para repensar o vídeo comentado. Donald Trump é um imenso Mefistófeles zombeteiro agourento que ameaça e paira de maneira apocalítica sobre o mundo inteiro? A conferir. 

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

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