Sugerido por Nilva de Souza
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A situação política e econômica de Portugal está levando pessoas com mais de 60 anos a sair do país em busca de um recomeço. Nesta condição está o músico Fernando Tordo, de 65 anos, comunista que lutou contra o Salazarismo e está vindo morar no Recife.
Do Público.pt
Carta ao pai
JOÃO TORDO
O escritor João Tordo publicou no seu blogue uma carta ao pai, o músico Fernando Tordo, que, aos 65 anos, emigrou para o Brasil. É um testemunho comovente que aqui reproduzimos na íntegra.
Ontem, o meu pai foi-se embora. Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos.
A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira.

Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar.
Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida.
Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um “tacho” proporcionado pelos “amiguinhos”? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que “deixasse cá a reforma”. Os duzentos e tal euros.
Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós – e como todos os autores destes singelos insultos –, fez aquilo que lhe restava fazer.
Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje – Carminho, Carlos do Carmo, Mariza, são incontáveis –, fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música.
Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha.
Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país – do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar.
Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui – e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte –, pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora.
Ontem, ao deitar-me, imaginei-o dentro do avião, sozinho, a sonhar com o futuro; bem-disposto, com um sorriso nos lábios. Eu vou ter muitas saudades dele, mas sou suspeito. Dói-me saber que, ontem, o meu pai se foi embora.
—-
Carta ao meu filho João. Magoaram-te. Não a mim, cinquenta anos de tudo e mais alguma coisa. Magoaram-te porque achas estranho que se diga de um tipo, que para mais conheces bem, o que algumas pessoas disseram e continuarão a dizer. Perante a tua carta que a Eugénia e teu irmão Francisco Maria me encaminharam, o que é fica? Tentação de devolver os insultos com o vernáculo que bem me conheces e és admirador? Não. O que fica, meu querido filho, é a tua carta.
Tenho tanto que fazer, aqui. Por todos vocês. (grande fotografia que a tua irmã Joana me mandou) ela e os meus netos, aqueles sorrisos.
Não entristeças, João. Temos dado o melhor de nós e isso não admite gentinha; só aceita dignidade e respeito por vidas que se dedicaram e dedicam não porque têm talento, mas sim porque têm aquele mistério revelado de poderem escrever uma carta como a tua. Beijo do teu pai fernando.
Do Público.pt
Não são apenas os jovens que estão a emigrar. Muitas pessoas entre os 50 e 60 anos procuram oportunidades noutros países. Aqui nunca mais terão emprego, mas não se conformam com um prematuro final de vida, inútil e inglório.
De electricidade percebe ele. Carlos coloca em cima da mesa uma pilha de diplomas. Cursos, workshops, formações variadas em instalações eléctricas, colectivas, em edifícios residenciais e terciários, de baixa tensão, fibra óptica, televisão digital terrestre, infra-estruturas de telecomunicações, tecnologia de equipamentos…
É um profissional. Trabalhou em várias empresas, até criar a sua própria. Sempre quis evoluir, ultrapassar-se, angariar respeito, posição social e dinheiro. Sem qualquer pejo, porque começou do nada. O que conseguiu não o deve à sorte nem a ninguém. Custou a ganhar, e ainda mais a perder, porque se o êxito com mérito próprio nos engrandece, é fácil sentirmo-nos diminuídos se lhe sobrevém o fracasso.
Carlos Alberto Gonçalves Martins, 57 anos, coloca sobre a mesa o seu Curriculum Vitae, cuidadosamente composto segundo o modelo europeu, em várias folhas agrafadas. Experiência Profissional: Firma Cimo de Fala, Lda, desde 2000. Electricidade, Canalizações e Infra-Estruturas em telecomunicação. Função ou cargo ocupado: trabalhador e gerente.
“Eu gosto de ganhar dinheiro”, diz Carlos Martins, rodeado pela família, na sala de jantar da sua casa de Cimo de Fala, um bairro da freguesia de São Martinho do Bispo, a poucos quilómetros de Coimbra. Fala como um empresário, como um homem que sonha e realiza. “Na minha vida, sempre tive um plano. Sempre fui independente e determinado. Nunca me conformei com ganhar pouco dinheiro. Tenho um Toyota Avensis, um bom carro. E gosto de comprar roupa de qualidade para mim, na Quebramar e na Massimo Dutti.”
Antes da crise, Carlos, a mulher e os filhos tinham um nível de vida elevado. Férias todos os anos em Montegordo. Um mês e meio no parque de campismo (onde Carlos só ia passar os fins-de-semana com a família), médicos privados, colégio privado para os filhos, o prestigiado Rainha Santa Isabel, a 500 euros por mês por cada filho. Depois o mais velho estudou Economia em Coimbra e Beatriz, de 19 anos, está no 1.º ano de Comunicação Social. “Era impensável eles não estudarem”, diz Carlos. E a mulher, Cristina, acrescenta: “Ele passou dificuldades, quis dar aos filhos o melhor.”
O colégio privado, por exemplo, foi um luxo. “Eu ganhava muito dinheiro, podia”, diz Carlos. Só em explicações para garantir que o filho entrava na faculdade eram 350 euros por mês. Luxos úteis, pela função simbólica. No resto, frugalidade. Não jantavam fora. “Enquanto os meus colegas, que eram uns tesos, almoçavam no restaurante, eu levava a marmita, toda a minha vida. Punha uma tábua em cima de tijolos e comia assim.” Os filhos levavam o lanche para a escola. Todos os gastos tinham um objectivo. Em cursos, workshops, campos de férias para os filhos não se poupava. Beatriz frequentou a Alliance Française, escolas de música.
Foi o que se pode chamar um enriquecimento sustentável. Carlos nunca teve um cartão de crédito. “Nunca vivi acima da realidade. Nunca dei um passo maior do que a perna. Tenho as dívidas totalmente em ordem. Não devo nada às Finanças.”
As roupas de marca são a sua única fraqueza, embora não compre nada para si há mais de dois anos. “Quando era solteiro, era Lacoste e tudo”, observa Cristina.
“Eu devo ter uns 14 ou 15 casacos de cabedal”, confessa Carlos, como se falasse da sua carta de alforria. Quando namorava com Cristina, comprou-lhe um casaco de peles. Secretamente. Ficou guardado numa mala e só foi usado 11 anos mais tarde, quando o namoro deixou de ser clandestino. “Casaco de peles era só para gente muito rica”, diz Carlos, que, por ser pobre, o pai de Cristina não queria para genro.
Foi preciso comprar um terreno e construir uma casa (onde hoje vive) para mostrar que estava à altura. Tudo isto antes de casar, pouco depois de chegar da tropa, que fez em Lisboa…
“Eu estou velho? Eu?”
Os pais de Carlos, ele pedreiro, ela doméstica, separaram-se quando ele tinha três anos, deixando-o a viver com os avós paternos. O avô trabalhava na agricultura e empregou os nove filhos na construção civil. Mas Carlos queria ser mecânico de automóveis.
Procuraram por toda a zona de Coimbra, ele e o avô. Sem êxito. Os lugares de mecânico eram muito cobiçados, devido às regalias conquistadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos, por isso só se obtinham com boas cunhas.
Uma empresa do Porto foi fazer a instalação eléctrica na construção da Escola Superior Agrária de Coimbra e colocou um anúncio à entrada da obra: “Precisa-se pessoal para electricidade”. Foi aí que Carlos começou a trabalhar, com 13 anos. Pouco depois, o encarregado da obra chamou os três melhores aprendizes e disse-lhes: “Vocês vão estudar Electricidade para a Escola Avelar Brotero. Enquanto não trouxerem a matrícula, não trabalham mais.” Eles obedeceram, Carlos Martins, Carlos Malhão e outro que, há três anos, por não ter trabalho, se enforcou na garagem, na aldeia da Pedrulha.
Quando regressou da tropa, Carlos prosseguiu a carreira de electricista, numa empresa. Tornou-se técnico certificado de instalações eléctricas e de infra-estruturas de telecomunicações. Mostra uma fotografia dessa altura, 1978, de cabelo comprido e calças à boca-de-sino.
Além do trabalho na empresa, aceitava biscates em part-time, à noite e aos fins-de-semana. Fazia diariamente muitos quilómetros a pé, entre várias obras, juntando dinheiro para comprar um terreno. A seguir, e durante sete anos, com a ajuda de amigos, construiu a casa. Quando ficou pronta, pôde casar.
“Foi uma festa à grande, à antiga portuguesa, em Ribeira de Frades”, lembra Carlos. Despesas pagas por ele. “Empregados de mesa, cozinheira, tudo alugado.” A lua-de-mel foi em Lisboa, na pensão Paris-Lisboa, no Rossio. Para Cristina, era a primeira vez que saía de casa.
Na pensão, vendo o seu ar de jovens da província, atribuíram-lhes um quarto minúsculo sem janelas, no sótão. A cama rangia, os hóspedes dos aposentos vizinhos batiam nas paredes. Saíram a meio da noite. Tinham reserva para cinco dias, só ficaram um. O resto da lua-de-mel foi passado em casa, em São Martinho do Bispo.
Nasceram os filhos, Carlos especializou-se na profissão, angariou clientes, estabeleceu-se por conta própria. Com grande esforço, a empresa cresceu. Durante dez anos, tudo correu bem. Depois chegou a crise.
“A construção civil está estagnada, não tenho clientes. Os que tenho não pagam. A Justiça não funciona.” Tornou-se quase impossível manter os impostos em dia, os pagamentos por conta.
Há dois anos que não vão de férias, compram agora a roupa na feira dos 23, em São Martinho, tudo de marca branca, Beatriz vai aos médicos do serviço público. E a situação tem vindo a piorar. No mês passado, não houve dinheiro para a conta do gás. Depois de a ter pago agora, com atraso, Carlos ficou com 28 cêntimos na conta bancária.
“Isto está a tirar-me anos de vida”, diz ele. “Não durmo. Acordo às 3 da manhã e já não pego no sono.” Tem tempo de mais para pensar, é esse o problema. Gasta horas a cultivar um terreno de que é proprietário, nas traseiras da empresa, mas a angústia não passa.
Fulvia
20 de fevereiro de 2014 1:56 pmÉ nisso que querem
É nisso que querem transformar o Brasil, caso o rentismo tome de assalto o governo, e dá-lhe liberalismo econômico, cujo representante mór é aquele homem que nunca trabalhou na vida. Vá de retro satanás!
Rodolfo Machado
20 de fevereiro de 2014 2:08 pmCrise 2.0
Crise 2.0
Do blog “Informação IIncorrecta”
http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2014/02/crise-20.html#more
Informação Incorrecta tem com o Geab um relacionamento que mais parece aquele dum alcoólico: “esta é a última vez, depois paro”. E o vício continua.
É que este mês o Geab traz algo interessante.
Vamos ler? E vamos.
Geab nº 82, título: 2014 – a crise sistémica global retoma o seu curso “normal”
Será? Sim, muito provável.
Mas antes de continuar, um breve resumo dos episódios anteriores para os Leitores mais recentes.
Fala-se aqui de Quantitative Easing (QE), assunto que pode ser encontrado neste velho artigo: Quantitative quê?
Sinteticamente, a Federal Reserve começou a imprimir dinheiro a partir do nada. Coisa que em princípio não é mal, pois já ninguém imprime dinheiro tendo como base uma riqueza guardada nos cofres do Estado, seja esta ouro ou outros bens. O problema é que há maneira e maneira de fazer as coisas. E imprimir mensalmente 85 biliões de Dólares é um bocado exagerado, mesmo que a ideia seja “ajudar a economia” (seria mais apropriado dizer “ajudar as instituições bancárias e os grandes investidores”). Este é o QE: um rio de dinheiro atirado para o mercado.
E agora seguimos o Geab.
Por trás da decisão da Fed de reduzir gradualmente o seu programa de flexibilização quantitativa [o QE, ndt], escondem-se realidades diferentes. A primeira é, naturalmente, a sua ineficácia em reanimar a economia real e, acima de tudo, o risco considerável de criação de bolhas e dependências várias, com o consequentemente risco de distorcer qualquer capacidade de compreender a realidade.
Pois é: a Fed decidiu reduzir o QE. Este falhou a tentativa de ajudar a economia americana e, ainda pior, agora há no planeta uma quantidade enorme de papel que chamamos “Dólares” mas que, na verdade, não passam de papel imprimido. Aceitamos os Dólares como “riqueza”, esta é uma convenção, mas sempre papel é.
O que aconteceria se alguém decidisse “ver” o que está atrás do Dólar? O que aconteceria se, por exemplo, uma outra moeda invadisse o mercado tendo atrás uma enorme quantidade de ouro, uma riqueza verdadeira? Porque a China farta-se de comprar ouro…
A segunda é provavelmente o desejo de espectaculizar o facto de que a situação melhorou e que a Fed pode, consequentemente, retirar-se de forma segura .
Melhorou? De facto melhorou. Verdade, os desempregados sempre desempregados estão, os indicadores económicos não sorriem, mas alguém está melhor do que nunca. Quem? A Finança: Wall Street trabalha que é uma maravilha.
A terceira é a menos confessável: a Fed está ciente de que os mercados emergentes dependem em grande parte do dinheiro que ela própria tinha criado em 2013, sabia, então, que o anúncio da redução era equivalente a uma maldade. Desde então, de facto, as manchetes da imprensa financeira têm tratado apenas da crise nos países emergentes, enquanto a situação dos Estados Unidos tornou-se um facto de importância secundária.
Ora bem, nesta altura é lógica uma pergunta: mas qual o relacionamento entre o QE da Federal Reserve e as economias dos Países emergentes? Por qual razão o QE abranda e a Bolsa do Brasil sofre com isso?
É o mesmo Geab que explica o nexo, pouso depois:
A flexibilização quantitativa da Fed levou para os mercados um excesso de liquidez, que foi investida onde as dinâmicas de produção ofereciam as melhores oportunidades de investimento e lucro: isso é, nos mercados dos países emergentes. Este rio de dinheiro fácil, é claro, apoiou de forma artificial o crescimento, que teria sido menor nestes tempos de crise.
O QE nunca foi destinado a ajudar os desempregados dos Estados Unidos. O que a Fed fez foi fornecer ao capital uma enorme quantia de dinheiro que depois os investidores rentabilizaram na melhor das formas: empregando-o naquele Países onde a mão de obra for mais barata, onde os custos de produção são inferiores, onde as dinâmicas do mercado são mais vivas e não deprimidas como na América do Norte ou na Europa.
Pior ainda, desde 2013 o QE provocou o renascimento da lógica do “mundo de antes”. O dinheiro foi usado para emprestar ainda mais dinheiro (por meio dos programas de re-financiamento e re-endividamento) para criar uma nova dependência do dólar e uma nova, desenfreada globalização do planeta, ignorando os interesses das populações (e fornecendo oxigénio, por exemplo, às problemáticas negociações dos tratados de livre comércio, trans-Pacífico TPP , e trans-Atlântico TIPT).
Depois do despoletar da crise de 2008, muitas instituições bancárias privadas atravessaram graves problemas: as carteiras estavam repletas de títulos tóxicos (de facto, títulos sem alguns valor) e faltava uma liquidez.
A Fed tratou deste segundo aspecto: fornecer aos grandes investidores dinheiro “fácil” numa altura em que os bancos privados não estavam em condições de fazê-lo. Este foi o QE, uma maneira para ultrapassar (temporariamente) uma crise que ameaçava as regras do sistema financeiro internacional. Desta forma, e cúmplices as classes políticas, estas regras não precisaram de ser reescritas, sendo que o “mundo de antes” conseguiu encontrar uma forma de sobreviver.
O uso maciço desses dólares nos países emergentes (caracterizado por um aumento grande o suficiente para absorvê-los), explica em grande parte a falta de desvalorização do dólar e a falta de inflação nos Estados Unidos, apesar da política da Fed: a desvalorização deveria ter ido de mãos dadas com a criação de dinheiro, mas foi absorvida pelo dinamismo económico do resto do planeta.A criação de dinheiro numa forma tão “pesada” como aquela adoptada pela Federal Reserve cria inevitavelmente uma desvalorização da moeda e o crescimento da inflação. Todavia, e com surpresa de muitos, o Dólar manteve o valor e a inflação ficou controlada. Aqui encontramos a explicação: aquele dinheiro criado com o QE nunca alcançou o mercado dos Estados Unidos, foi investido (portanto absorvido) nos Países emergentes. A Federal Reserve nunca esteve preocupada com a inflação pela simples razão que sabia desde logo qual o destino da enorme massa monetária criada.Mas era algo que o Fed não poderia continuar a fazer. Cada vez mais pessoas nos círculos da Fed estavam relutantes em continuar, provavelmente devido ao fato de que para ter um bom impacto (nos EUA), o montante do dinheiro que entra nos mercados teria que aumentar de forma constante.
O QE, num primeiro momento, manteve-se no nível de 85 biliões/mês […] mas em janeiro de 2014 a Fed reduziu o ritmo das suas compras mensais de 10 biliões, e outros 10 biliões em fevereiro. As compras agora consistem de 30 biliões em títulos hipotecários e 35 biliões em títulos do Tesouro (65 biliões/mês no total).
Esta redução do apoio, no entanto, significa que um quarto das “ajuda” indirecta para os países emergentes desapareceu. Lógico, portanto, que a atividade económica nesses países tenha abrandado, arrastando consigo as respectivas moedas.Bastante claro.
Assim como é lógica a conclusão:
E é precisamente neste ponto que começa o “efeito bumerangue”. Os investimentos ocidentais nas economias emergentes, de facto, valem menos se as suas moedas ficarem desvalorizadas. Uma parte dos activos dos investidores, como resultado, desapareceu, causando stress nos mercados financeiros.
Mas, mais importante, para interromper o declínio das suas moedas, os bancos centrais dos países emergentes começaram a vender as suas reservas de dólares para comprar de volta as suas moedas no mercado do câmbio, resultando num excesso de oferta de dólares e um aumento na demanda por moeda local.
Nesse período, por exemplo, Turquia, Índia, Brasil e Indonésia (entre outros) estão a oferecer dezenas de biliões de dólares por mês no mercado. Tudo isto significa que aqueles que compraram dólares, isso é os países emergentes, tornaram-se vendedores. Em outras palavras, apenas os países capazes de absorver o excesso de dólares agora estão a recusa-los.
Para recapitular: a Fed e o Tesouro [dos EUA, ndt] continuarão a inundar o planeta com 65 biliões de dólares por mês… mas ninguém os quer. Onde é que podem vendê-los, então? Em alguns daqueles países produtores de petróleo (que ainda usam dólares), é claro, mas especialmente nos próprios Estados Unidos. E o que pode fazer a economia estagnante daquele país? Não muito… mas certamente menos do foram capazes de fazer os países emergentes.Será desta que a inflação dos EUA vai crescer? Vamos ver. Mas não que a coisa interesse muito: os problemas do resto do planeta são outros. Um entre todos: o regresso da crise. Ipse dixit. Fonte: GEAB
Lionel Rupaud
20 de fevereiro de 2014 2:13 pmMuito triste o ter que partir,
muito bonitas as cartas, e um certo orgulho de ver que foram escolhidos o Brasil e Recife para viver o 3º terço de uma grande vida.
Intui que ele será feliz lá e que o Brasil ganhará com a presença dele.
Bem vindo a todos que fogem dos resultados dos “lobos de Wall Street'”, aproveitam para nos ajudar a construir um Brasil melhor, mais humano, mais fraterno, mais igual e mais livre.
André LB
20 de fevereiro de 2014 6:54 pmSabia que isso, ainda mais
Sabia que isso, ainda mais vindo de um francês radicado no Brasil, muito me alegra?
Este país tem potencial para ser um farol para a Humanidade.
Jair Fonseca
20 de fevereiro de 2014 2:49 pmEstrela da Tarde.
[video:http://www.youtube.com/watch?v=5YvvI9pFblg&list=RDuRTW7tl0pew%5D
Jair Fonseca
20 de fevereiro de 2014 2:51 pmTourada.
[video:http://www.youtube.com/watch?v=TZgMMXyFouQ%5D
Jair Fonseca
20 de fevereiro de 2014 2:52 pmCavalo à solta.
[video:http://www.youtube.com/watch?v=JYWOkZ13ZFg%5D
Jair Fonseca
20 de fevereiro de 2014 2:53 pmAdeus tristeza.
[video:http://www.youtube.com/watch?v=uRTW7tl0pew%5D
Flavio Martinho
20 de fevereiro de 2014 2:55 pmÉ isso que nós brasileiros,
É isso que nós brasileiros, mesmo depois de vivermos tantas e termos sobrevividos a tantas outras crises, não consideramos e flertamos, indecorosamente e não sei a troco de quê, com problemas que podíamos evitar. Sinto que pela primeira vez, ou é apenas impressão pessoal, o brasileiro gosta de viver perigosamente.
Roberto Monteiro
20 de fevereiro de 2014 2:55 pmFiquemos atentos!
Deve ser isso que fed(or), agências de risco e o tal diabo-mercado devem querer para o Brasil, ou seja, para nós, brasileiros. O que mais me irrita é que muitas pessaos não se dão conta disso e votam em quem quer entregar o galinheiro para as raposas.
ALONSO
20 de fevereiro de 2014 3:52 pmBem-vindo ao Brasil. Cá
Bem-vindo ao Brasil. Cá estamos na luta, e com certeza precisamos de gente assim
Gilson AS
20 de fevereiro de 2014 4:03 pmNós sempre estamos com a
Nós sempre estamos com a bunda exposta na janela ….
Lembro do merdelê que os lusitanos criaram com os dentistas brasieliros no final dos anos 90, lá em Portugal.
Agora, garbosamente eles se voltam simpaicos para terrinha.
Vão se catar ! sejam miseráveis na Europa, é mais chique.
Leandro_O
20 de fevereiro de 2014 5:09 pmQue engraçado, nos EUA também
Que engraçado, nos EUA também o pessoal está deixando o país: mas é para não pagar tributos:
http://www.icij.org/blog/2013/12/mystery-fleeing-americans