O espelho da memória e do presente: quando o canto da terra anuncia que não há futuro
por Karolyna Gomes dos Santos
Entre 2017, ano do lançamento do álbum Mano que zuera, e 2023, ano do lançamento do single intitulado O canto da terra por um fio, o Brasil passou por desmonte e reconfiguração de políticas públicas nas áreas sociais, ambientais e de direitos humanos. O processo foi intencional e gradual, avançando de formas menos visíveis e sutis para manifestações mais explícitas. Em um mundo marcado pela convivência cotidiana com a inteligência artificial, maior capacidade de armazenamento e aumento da velocidade de transmissão de dados, a pulsante movimentação da quarta revolução industrial ocorre paralelamente a questões ancestrais profundas (Carlos et al., 2025; Sarker, 2022).
Construída sobre essas referências, a música Nenhum futuro apresenta o primeiro trecho que cita o que os povos Tupi chamavam de Pindorama, a “terra livre dos males” — como era chamado o Brasil antes da colonização — e faz menção aos ilês. O termo “Ilê”, na língua iorubá, significa “casa” ou “habitação”: Pindorama é, portanto, o ilê de todos. Os compositores expressam, assim, a persistência dos povos indígenas e negros em afirmarem pertencimento e protagonismo em relação à construção e manutenção da nação. A obra também remete à Chacina de Costa Barros (“111 amontoados, nosso mar vermelho”), mais um episódio trágico de violência contra a juventude negra brasileira (Duarte, 2020; El País Brasil, 2016; CIDESP, 2025). Olhando para o passado, João Bosco e Francisco Bosco anunciam o futuro que não chegará. “Eu suspeito que estamos fudidos, enfim” é a conclusão que se chega ao colocar o país diante do espelho da memória e do presente.
Entre 2017 e 2023, período entre o lançamento das duas canções, em meio às políticas de desmonte, vivenciou-se a pandemia de COVID (iniciada em 2019) registrando a alta taxa de mortalidade nos grupos racializados. O registro de mortalidade ocasionada pelo coronavírus entre esses povos indígenas é até sete vezes maior do que a da população brasileira em geral e pessoas pretas e pardas somam 54,8% das mortes por covid-19 registradas no Brasil. A fragilidade desses grupos é reforçada pela significativa vulnerabilidade social, refletida na carência de acesso aos serviços de saúde (Globo, 2021; UOL, 2020)
Percebe-se que ”Nenhum Futuro” desembocou em “O canto da terra por um fio”, onde os autores anunciavam o despencar do céu que visualizamos no ano de 2022 com o genocídio e omissão de socorro aos povos Yanomami: o espelho da canção reflete a violação dos direitos dos povos originários, o aumento das invasões e garimpos ilegais e a fragilização institucional do sistema de proteção indigenista (cortes orçamentários e intervenções na Funai no período 2019–2022 são alguns dos exemplos) (FERNÁNDEZ, 2023; FASOLO, 2025; BRASIL, 2023). Mencionando a mitologia Yanomami, ouvimos o relato da asfixia das veias gigantes dos rios. O território e a presença humana somam o conjunto violentado pelo favorecimento da exploração em detrimento da vida. A canção nos dá dimensão ambiental, política e social das escolhas do desequilíbrio e desrespeito com a vida em todas as suas formas: arde tudo.
O espelho continua voltado para nós como refletor e registrador das nossas movimentações em relação às discussões sobre justiça climática, revelando as fragilidades da democracia brasileira e as disputas de narrativas sobre a igualdade de direitos. É necessário que haja o mínimo de valorização das lutas populares, do meio ambiente e humanização de corpos e grupos racializados para que haja o diálogo democrático da “elite à ralé”. Cabe a nós decidir hoje se o anjo da história chorará ou não pelo Brasil.
Referências Bibliográficas
[1] CARLOS, Euzeneia; PEREIRA, Matheus Mazzilli; RODRIGUES, Cristiano. Desmonte de políticas públicas no governo Bolsonaro: políticas para mulheres, de igualdade racial e para LGBTQIA+ em perspectiva comparada. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n. 124, p. e124044ec, 2025.
[2] SARKER, Iqbal H. AI-Based Modeling: Techniques, Applications and Research Issues Towards Automation, Intelligent and Smart Systems. SN Computer Science, v. 3, n. 2, p. 158, 10 fev. 2022. DOI: https://doi.org/10.1007/s42979-022-01043-x.
[3] Duarte, M. (2020). Artigo: Pindorama e as origens do nome Brasil. História Em Debate.
[4] CIDESP. Ilê Significado: Entenda a Origem e Importância Cultural. Cidesp, 31 mar. 2025. Disponível em: https://cidesp.com.br/artigo/il-significado/. Acesso em: 20 set. 2025.
[5] EL PAÍS Brasil. O eco dos 111 tiros de Costa Barros. Rio de Janeiro, 28 nov. 2016. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/28/politica/1480370686_545342.html. Acesso em: 20 set. 2025.
[6] O GLOBO. Brasil já registra mais de mil mortes de indígenas por Covid-19, aponta entidade. O Globo, Rio de Janeiro, 03 fev. 2021. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/brasil-ja-registra-mais-de-mil-mortes-de-indigenas-por-covid-19-aponta-entidade-24922195. Acesso em: 20 set. 2025.
[7] UOL. Negros e pardos já são maioria entre as vítimas fatais por Covid-19. UOL Notícias, São Paulo, 19 maio 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/19/negros-e-pardos-ja-sao-maioria-entre-as-vitimas-fatais-por-covid-19.htm. Acesso em: 20 set. 2025.
[8] FERNÁNDEZ, Luis Ventura. Desafios para a realidade indígena no atual contexto brasileiro. Conselho Indigenista Missionário, 15 maio 2023. Disponível em: https://cimi.org.br/2023/05/desafios-para-a-realidade-indigena-no-atual-contexto-brasileiro/. Acesso em: 20 set. 2025.
[9] FASOLO, Carolina. Projetos que autorizam garimpo e exploração econômica em Terras Indígenas avançam no Senado. Instituto Socioambiental, 25 ago. 2025. Disponível em: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/projetos-que-autorizam-garimpo-e-exploracao-economica-em-terras-indigenas?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 20 set. 2025.
[10] BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Relatório final de ações do MDHC aponta diversas e graves violações de direitos humanos dos povos indígenas Yanomami. Brasília, 25 maio 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/outubro/relatorio-final-de-acoes-do-mdhc-aponta-diversas-e-graves-violacoes-de-direitos-humanos-dos-povos-indigenas-yanomami/Relatorio_Gabinete_Crise.pdf. Acesso em: 20 set. 2025.
Karolyna Gomes dos Santos – (Doutoranda em Engenharia Mecânica – UFRJ). *[email protected]
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