O real e a fortuna: política sem garantias
por Eliseu Raphael Venturi
Há uma força subterrânea que atravessa séculos de pensamento político e jamais se deixa capturar por completo. Maquiavel a chamou de fortuna; Schmitt a viu na decisão soberana; Hesse, nos fatores reais de poder; Lacan a nomeou o Real; Freud, inconsciente; Nietzsche, vontade de poder. São nomes diversos para o mesmo núcleo indomável: aquilo que excede o cálculo, o discurso, o domínio — e, no entanto, é o que funda toda ação humana. Nenhuma política, lei ou consciência escapa ao fato de que toda forma se ergue sobre um resto, sobre o impossível de se realizar plenamente.
Em O Príncipe, Maquiavel aceita o acaso como parte constitutiva da política. A fortuna é o nome do que escapa à vontade: o fluxo das circunstâncias, o imponderável da história. Contra ela, o autor de Florença propõe a virtù — não como moralidade, mas como força de decisão. A virtù é a arte de agir quando tudo é instável, de sustentar o gesto mesmo sem garantias. A política, assim, deixa de ser extensão da teologia e se torna arte de lidar com a contingência. Governar, para Maquiavel, é construir margens no rio sempre transbordante da fortuna.
O mesmo princípio reaparece em Freud: o inconsciente é o que fura a razão, o acaso que habita o próprio sujeito. Assim como o príncipe não controla a fortuna, o indivíduo não domina seus desejos. Há em ambos um aprendizado ético — o de lidar com o que escapa. Em Lacan, essa experiência é formalizada: o Real é o impossível que retorna, o ponto onde o sentido falha. Saber-fazer com o sinthoma é uma forma de virtù: uma habilidade de habitar o incontrolável sem sucumbir a ele. Tanto na política quanto na psique, a estabilidade é uma ilusão. A ética não está em eliminar o caos, mas em sustentar-se diante dele.
Carl Schmitt reconheceu esse mesmo abismo, mas o traduziu no vocabulário do poder. Ao dizer que “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”, expôs que toda ordem jurídica repousa, em última instância, sobre um gesto que a ultrapassa. A decisão soberana é o instante em que o Real da política se revela — quando a norma depende de uma escolha que não pode ser deduzida da própria norma. A Realpolitik, nesse sentido, não é cinismo, mas lucidez: é o reconhecimento de que a política começa onde a forma vacila.
Se Schmitt ilumina o instante da ruptura, Konrad Hesse tenta compreender o momento seguinte — o da forma. Ao afirmar que a Constituição só tem força normativa quando corresponde aos fatores reais de poder, ele traduz em linguagem jurídica o mesmo princípio: o direito só vive se estiver em contato com as forças que o sustentam. Nenhuma norma sobrevive se ignorar a realidade que a legitima, assim como nenhuma política subsiste se negar as pulsões que a atravessam. Mas Hesse também sabe que a norma pode transformar o real, desde que o reconheça. O campo constitucional, como o campo psíquico, é feito dessa tensão produtiva entre o ser e o dever-ser.
O mesmo vale para o corpo político descrito por Maquiavel. Sérgio Cardoso e Helton Adverse, ao relerem o florentino, mostram que a república se sustenta no conflito entre dois desejos: o dos grandes, que querem dominar, e o do povo, que quer apenas não ser dominado. Esse desejo negativo é o verdadeiro motor da liberdade — o inconsciente da política. Quando uma república tenta eliminar o conflito, cai na neurose moral ou no delírio tecnocrático; quando o reconhece, encontra a forma civil da convivência. O povo, como o sujeito, só existe enquanto sustenta o dissenso que o constitui.
Nietzsche também o sabia. Sua crítica à moral dos escravos é a denúncia da política do ressentimento — aquela que reage ao caos tentando moralizá-lo. A virtù de Maquiavel, a decisão soberana de Schmitt e o saber-fazer lacaniano pertencem à mesma família da moral dos senhores: afirmam a vida mesmo diante do indeterminado. O governante virtuoso, o sujeito que enfrenta o inconsciente, o pensador que age sem garantias — todos partilham essa coragem de suportar o real sem buscar refúgio em ideais de pureza.
É isso que une esses autores tão distintos: a recusa da completude. Todos afirmam que a política e a subjetividade são feitas de fendas — e que é nelas que se produz liberdade. A fortuna, o Real, os fatores reais de poder são nomes de um mesmo ponto de fratura: o encontro entre forma e força, entre lei e vida. O verdadeiro ato político é aquele que reconhece o limite sem ceder ao desespero.
A Realpolitik, entendida assim, não é pragmatismo vulgar, mas uma ética trágica. Saber que o poder é feito de contingências e desejos não leva à desistência, mas à responsabilidade. Só quem sabe que o real é incontrolável pode agir com liberdade. O príncipe, o jurista, o sujeito — todos aprendem a mesma lição: que o gesto decisivo é sempre um salto no escuro.
O rio da fortuna nunca cessa de transbordar. A virtù não o detém — apenas constrói margens. E é nelas, na consciência da precariedade, que se desenha o gesto político, ético e simbólico de quem, mesmo sem garantias, ainda assim decide. Decidir, nesse sentido, é o nome mais belo da resistência.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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