
Saídas do desejo autoritário: o saber-fazer com o mal-estar
por Eliseu Raphael Venturi
O desejo autoritário nasce do incômodo diante do mal-estar — e da recusa a sustentá-lo. Ele se alimenta da angústia difusa que atravessa o sujeito e o laço social, oferecendo uma promessa de alívio: a norma, o líder, a certeza, o castigo, a identidade.
O discurso autoritário é sempre redentor: “eu sei o que fazer com isso”, “eu vou limpar, cortar, resolver”. Mas o que o desejo autoritário propõe não é cuidado com o mal-estar, e sim sua erradicação forçada. Sua lógica é a da anestesia brutal — e, por isso mesmo, é uma violência.
Saber-fazer com o mal-estar é uma ética. Uma ética do resto, da falta, daquilo que não se resolve, mas insiste. Enquanto o autoritarismo tenta eliminar o mal-estar pela via da força, da pressa ou da moral, o saber-fazer implica habitar o desconforto sem a compulsão por sentido total. É recusar as soluções mágicas, os diagnósticos totalizantes, os inimigos inventados. É operar no campo do não-todo, do provisório, do sem garantia.
O mal-estar é constitutivo. Freud sabia. Lacan insistiu. A linguagem corta, o gozo falta, o Outro falha. Todo laço social é estruturado em torno de um impossível, e é precisamente essa estrutura que o desejo autoritário não tolera. Ele exige um social sem conflito, um sujeito sem ambiguidade, um discurso sem fissura. E quanto mais o real retorna — na forma de crise, desigualdade, ambivalência, desejo — mais o autoritário intensifica seu apelo por pureza, por solução, por coerência total.
Saber-fazer com o mal-estar é, então, não eliminar o sintoma, mas operar com ele. É gesto analítico, mas também político e estético. É transformar o incômodo em linguagem, em gesto, em vínculo. É desistir de buscar um lugar onde tudo se encaixe — e, no lugar disso, criar formas singulares de sustentação do que não se encaixa. O sujeito que sabe-fazer com o mal-estar não é aquele que se curou: é aquele que deixou de pedir cura ao Outro.
No plano político, essa posição se traduz na recusa da resolução imediata, da polarização automática, da moral em alta velocidade. Saber-fazer com o mal-estar é escutar antes de responder, hesitar antes de legislar, sustentar o conflito sem exigir harmonia artificial. É aceitar que há injustiças que não se reparam, mas que podem ser nomeadas. Que há dores que não cessam, mas que podem ser acompanhadas. Que há diferenças que não se integram, mas que podem conviver.
No plano subjetivo, trata-se de abandonar o ideal de bem-estar como norma. O sujeito que se cobra felicidade plena, coerência emocional, plenitude identitária — sem falhas, sem recaídas, sem contradições — está submetido a um gozo autoritário internalizado. O saber-fazer com o mal-estar propõe outra ética: a da convivência com a falha, a da invenção de um modo próprio de suportar o que não se resolve, a da recusa a transformar dor em espetáculo ou identidade.
Essa posição exige tempo, silêncio, elaboração. E por isso ela é radicalmente incompatível com o autoritarismo, que exige pressa, ruído e adesão. O sujeito que sabe-fazer com o mal-estar não entrega sua dor ao Outro, mas também não a transforma em capital simbólico. Ele a sustenta. E é essa sustentação — silenciosa, artesanal, ética — que desorganiza o circuito do desejo autoritário.
O desejo autoritário goza ao prometer alívio. O sujeito ético sofre menos quando já não espera que o Outro resolva. O mal-estar, nesse ponto, deixa de ser um problema e passa a ser matéria. Matéria da escuta, da criação, do pensamento. Saber-fazer com o mal-estar é ato político porque recusa ser governado pela promessa de que tudo vai passar — e, em vez disso, aposta em criar algo com o que não passa.
Outras travessias
Falar em desejo autoritário é um gesto deliberadamente paradoxal, uma torção retórica que busca expor a violência de toda tentativa de capturar o desejo em discurso de poder. A expressão se sustenta no equívoco que denuncia: nomeia o impossível para revelar a operação simbólica que o torna crível. Ao unir termos inconciliáveis — desejo e autoridade —, o enunciado mostra o que o autoritarismo faz com o desejo: o transforma em comando, o converte em palavra de ordem, o obriga a desejar o próprio fim. É uma retórica que não pretende resolver a contradição, mas mantê-la aberta, como quem usa o erro para mostrar o mecanismo do erro. Dizer desejo autoritário é, portanto, exibir o sintoma na linguagem — deixar que a própria formulação carregue a fissura que denuncia.
Encerrar esta travessia é reconhecer que o desejo autoritário não se dissolve com argumentos, mas se desarma com gestos éticos. Ele retorna sempre que o sujeito, incapaz de sustentar o mal-estar, busca refúgio na autoridade de um sentido único. Cada vez que o pensamento abdica da dúvida, o autoritário reaparece — e é por isso que o saber-fazer com o mal-estar não é um ponto de chegada, mas um exercício contínuo de resistência simbólica. A ética, aqui, não é a da pureza ou da redenção, mas a da manutenção do intervalo entre o sofrimento e a resposta, entre o ruído e o silêncio, entre o desejo e a lei.
O próximo passo de uma caminhada não linear será enfrentar o que sustenta esse desejo em seu nível mais estrutural: a máquina da guerra. Se o autoritarismo é a fantasia de eliminar o mal-estar, a guerra é sua tentativa de transformar essa fantasia em realidade. Ela mobiliza afetos, corpos e linguagens em nome de uma coerência impossível — e é nesse movimento que o sujeito se perde como sujeito. Desarmar a máquina da guerra é, portanto, pensar a política não como campo de combate, mas como espaço de desativação. É investigar o que resta do desejo quando o poder deixa de ter o inimigo como forma.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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