10 de junho de 2026

Marcha contra Jesus. Expurgo LGBT+ e famílias desagregadas!, por Armando Coelho

A marcha ocorre em data próxima à Parada LGBT+, segmento atacado velada ou explicitamente ao ser associado ao demônio por muitos evangélicos.
Reprodução

A 34ª Marcha para Jesus em São Paulo ocorreu no feriado de Corpus Christi, com forte presença evangélica.
Igrejas neopentecostais ampliam influência política e social, promovendo intolerância e controle cultural.
Casos de expulsão familiar e escândalos financeiros envolvem líderes religiosos ligados à Marcha para Jesus.

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Marcha contra Jesus. Expurgo LGBT+ e famílias desagregadas!

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por Armando Coelho Neto

Esse é um texto sobre o lado podre religioso. Excluam-se, portanto, missionários bem-intencionados e efetivamente dedicados à espiritualidade, entre os quais aqueles que, de portas abertas durante a madrugada, acolhem desesperados de todos os matizes, ou tentam resgatar dependentes químicos e ou levam conforto a desesperados nos presídios. Reporte-se o leitor a texto desse GGN nesse link.

Aconteceu na última quinta-feira, feriado de Corpus Christi, a 34ª edição da Marcha para Jesus em São Paulo. Embora se declare oficialmente como um evento ecumênico, predominam no evento vertentes ditas evangélicas, nas quais a maioria está mais empenhada com valores terráqueos do que com valores espirituais. Servem de exemplo as extorsões de fiéis transmitidas ao vivo por rádio e televisão.

Por questão instrumental do feriado religioso, a marcha ocorre em data próxima à Parada LGBT+. Trata-se de segmento atacado velada ou explicitamente por ser associado ao demônio por muitos evangélicos. “Quem quiser ser gay, que seja! … Todavia, ser heterossexual é coisa de Deus”. Palavras do deputado federal Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), que se diz “ex-gay”, ex-drogado, ex-sabe Deus!

A vertente LGBT+ engrossa o discurso do “bem contra o mal”. Nesse sentido, entra no rol de contradições das lideranças evangélicas que, a despeito de pregarem a defesa da família, estão entre os fatores de desagregação da própria família. Mais que isso, divide a sociedade brasileira, com expressivo peso político. Segundo o IBGE, no Brasil, 26,9% da população (47,4 milhões de pessoas) são evangélicas.

As igrejas neopentecostais, com raízes e financiamento estrangeiros vindos do hemisfério norte, expandiram sua influência no país. O livro “Os Demônios Descem do Norte”, escrito pelo sociólogo Délcio Monteiro de Lima, traz uma análise sociológica e crítica sobre o avanço do fundamentalismo religioso no Brasil. Trata do tema como projeto deliberado de dominação cultural e política (1).

O mapeamento revela forte atuação dessas igrejas em comunidades de baixa renda e indígenas por meio de assistência social, ao mesmo tempo em que passaram a promover a intolerância contra religiões de matriz africana. Na década de 1980 surgem as primeiras articulações como forças políticas organizadas. Foco: além do crescimento numérico, mais controle de espaços de poder na sociedade brasileira.

Na visão do autor, a lógica inicial era a busca por prosperidade e cura individual, mas enveredou para a Teologia do Domínio. Tal doutrina prega que os cristãos devem ocupar as esferas de poder da sociedade — política, mídia e educação —, tudo voltado para moldar a nação sob preceitos bíblicos. O velho lema “crente não se mete em política” deu lugar ao chavão institucional “irmão vota em irmão”.

Eis que o chavão evoluiu para a bolha. A vertente LGBT+ é usada como exclusão para promover a união intra-gueto evangélico. Com base bíblica, alguns pastores pregam “Não vos associeis com quem, dizendo-se irmão, for impuro…” (Coríntios 5:11).”Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10:37). “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis” (2 Coríntios 6:14).

Veio abaixo a pretensa defesa da família, já que muitos interpretam os tais preceitos bíblicos como sendo uma ordem para romper o contato com familiares que “vivem no pecado”. Há pastores conservadores que orientam pais a “não compactuar” se o filho não “abandonar a prática (sexual)”. A regra, para muitos, é evitar a “influência de espíritos”, evitar o convívio com os expulsos ou desassociados. Família?

O discurso pró-família caiu por terra com líderes religiosos ou políticos com mais de uma família, entre as quais figura a do ex-capitão golpista condenado. Na esteira do fenômeno, surgem pais expulsando filhos de casa, fiéis proibidos de ir a aniversário e/ou funeral de parente “mundano”, sem contar a ruptura muitas vezes total com pais idosos, pelo simples fato de serem adeptos de outra fé.

Numa mistura de Cristo, dinheiro sujo e projeto de poder, a Igreja Batista da Lagoinha entrou na mira da PF. O pastor Fabiano Zettel foi preso como operador financeiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Em jogo está um repasse de R$ 41 milhões, uma bufunfa que foi parar na conta da tal igreja. Eis que a Marcha para Jesus, parte visível do tal projeto de poder, se tornou uma marcha contra Jesus.

1 – Editora: Livraria Francisco Alves Editora (F. Alves) 1987


Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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