Trump e a crise humanitária em Cuba. “Sueño con Serpientes”
por Armando Coelho Neto
Cuba já foi referência mundial em saúde, com taxas de mortalidade infantil muito baixas e expectativa de vida elevada, capazes de provocar inveja em países desenvolvidos. Mesmo com dificuldades, a excelência figurava na prevenção, com médicos e enfermeiros residentes em áreas de atendimento e em missões internacionais — profissionais ou humanitárias — no enfrentamento de catástrofes.
Esse grau de excelência era capaz de estimular o “turismo médico” por parte de estadunidenses, os quais, muitos com sucesso, driblavam as restrições dos EUA que limitam gastos financeiros no território cubano. Entre as exceções figuram competições esportivas, visitas familiares e atividades religiosas. Estranho, claro, justo no “país da liberdade” — inclusive a de ir e vir —, proibir o turismo de lazer.
Com a imagem de um país congelado no tempo, de regime fechado e outros fantasmas criados em parte por cubanos de Miami, os ianques constatam incrédulos que a pequena ilha é capaz de produzir vacinas inovadoras contra a hepatite B, contra o câncer avançado no pulmão e contra a Covid-19, além de medicamentos para evitar a amputação de membros em pacientes com úlceras de pé diabético.
Mas o que já era difícil, com Donald Trump, piorou. Cuba vive seu maior colapso histórico e, ainda que os médicos continuem residindo nos locais de atendimento, faltam remédios para prescrição, energia para o uso de aparelhos de exames e para a fabricação de fármacos. Há desabastecimento e dificuldades de acesso rápido a medicamentos quimioterápicos, equipamentos de radioterapia e insumos cirúrgicos.
O embargo criminoso por parte dos EUA, em curso há décadas, foi agravado. A penúria na área médica cubana atingiu em cheio a ala de pediatria do Instituto Nacional de Oncologia de Cuba, que atende crianças em tratamento contra o câncer. A taxa de sobrevida infantil, que era de 80% a 85%, despencou para cerca de 65%. As dificuldades se estendem à área de transporte e atingem dietas específicas.
De repente, uma canção(*). A velha Havana, com suas construções deterioradas e ruas por onde transitam velhos automóveis, bicicletas e triciclos, ferve como uma vida improvisada, reinventada. Depois, prédios bem conservados ganham o colorido de Cadillacs dos anos 40 e 50. Imagens que servem de fundo para Chico Buarque e Silvio Rodríguez cantarem um pesadelo que se contrapõe à utopia cubana.
A ideia foi de Silvio, que escolheu “Sueño con Serpientes” para uma campanha em favor das crianças cubanas acometidas pelo câncer. Trata-se de uma peça musical sobre um angustiante sonho, permeada por cobras gigantescas. Em vez de ser destruído por elas, há renascimento interior, resistência contra forças opressoras — uma metáfora poética potente sobre a sobrevivência e a luta constante contra o mal.
Ciente do carinho histórico do povo cubano por Chico Buarque, ter o artista de volta a Cuba após 34 anos teria sido, segundo alguns, uma jogada milimetricamente pensada para dar visibilidade global a uma intervenção em favor das crianças da ilha. Com apoio do YouTube, a arrecadação gerada pelos direitos autorais e pelas visualizações oficiais do vídeo será integralmente destinada à campanha.
Sob a indiferença do mundo dito civilizado, o cenário na ilha foi agravado pelo assenhoreamento da Venezuela por parte de Donald Trump e pelas ações econômicas deste na região. Como resultado, o expressivo fornecimento de petróleo subsidiado para Cuba foi suspenso, acentuando o bloqueio vigente há mais de 60 anos contra a ilha do Caribe. A metáfora do sonho com a serpente soa denunciante.
Se de um lado Tio Sam se reinventa em sua própria maldade, o povo cubano, ao seu modo, também se reinventa na resistência. É o que os cubanos têm feito ao longo da história, sobrevivendo entre o sonho e o pesadelo. “Sueño con Serpientes” cai como uma luva no que trava, engasga, com muito mais inferno e indigestão, ao mesmo tempo em que a “enveneno com o que há de bom em mim…
Para os EUA, Cuba serve como espantalho para os países das Américas e vige como a eterna ameaça para quem ousar sonhar e fugir do padrão. Se invadir ou tentar mudar Cuba, pode perder o espantalho. A ilha responde com poesia ao ataque e se recusa a aceitar o diagnóstico da derrota. O canto de Chico e Silvio não é um simples lamento sobre as ruínas de Havana. E, mesmo cercada por serpentes, a utopia se recusa a morrer.
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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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