10 de junho de 2026

Saídas do desejo autoritário: o drama e o trágico, por Eliseu Venturi

O drama nos leva a escutar o outro sem reduzi-lo à sua posição atual. O trágico a agir mesmo sabendo que nenhuma ação é redentora.
Remédios Varo, Ruptura, 1955.

Saídas do desejo autoritário: o drama e o trágico

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Eliseu Raphael Venturi

O desejo autoritário detesta a hesitação. Ele precisa da certeza, do sim ou do não. O desejo autoritário não suporta a complexidade. Ele exige clareza, resolução, fim. Seu funcionamento depende da exclusão do dilema, da expulsão da ambivalência, da recusa do conflito como estrutura.

O autoritário quer ordem sem hesitação, narrativa sem rachadura, justiça sem resto. Ele é uma ficção da unidade — ficção que se realiza à custa da linguagem, do vínculo e da singularidade.

E é por isso que o drama e o trágico, em sua radical diferença, podem funcionar como saídas éticas ao imperativo autoritário: não por oposição direta, mas por produção de outra cena.

O drama é a cena do humano em sua instabilidade. Nele, o sujeito não está diante de um enigma teórico, mas imerso em relações, afetos, escolhas, perdas e limites. O drama é a exposição da carne da vida em sua contradição encarnada. Ele nos mostra que o sujeito não é uno, mas atravessado. Que não há decisão sem hesitação, nem fala sem implicação. Ao contrário do autoritarismo — que opera por personagens unidimensionais (o traidor, o herói, o povo, o inimigo) — o drama restitui a espessura de cada figura. Ninguém está totalmente certo. Ninguém está absolutamente errado. E isso é intolerável para o desejo que exige pureza.

O trágico, por sua vez, leva esse desconforto à estrutura da linguagem. Ele não é uma moral da história, mas uma arquitetura de impossibilidades. Não se trata de uma história com final ruim, mas de uma forma de viver a irresolução. No trágico, não há solução possível sem perda real. Toda escolha é marcada pela falha. E é essa falha, sustentada como núcleo do sujeito e do laço, que o desejo autoritário tenta eliminar. O autoritarismo, nesse sentido, é a recusa do trágico. Ele quer um mundo onde a lei coincida com o bem, onde a autoridade seja justa, onde o outro não seja fonte de angústia — mas de confirmação.

Ao restituir o trágico e o dramático como formas de existência e leitura do mundo, criamos uma possibilidade de deslocamento: não precisamos mais agir como se o conflito fosse defeito do sistema, nem como se o desacordo fosse sinal de decadência.

O drama nos convida a escutar o outro sem reduzi-lo à sua posição atual. O trágico nos convida a agir mesmo sabendo que nenhuma ação é redentora. Juntos, eles desafiam o delírio de coerência total, de salvação, de limpeza simbólica.

Na política, essa restituição é vital. Quando o trágico é expulso do discurso público, restam apenas os afetos totalizantes: indignação, cinismo, sarcasmo, ressentimento. O debate vira guerra, a escuta vira trincheira, a linguagem vira arma. Já o drama e o trágico reintroduzem a hesitação. Mostram que há perdas irrecuperáveis, decisões ambíguas, injustiças inevitáveis — e que, ainda assim, há vida a ser sustentada.

No direito, o trágico aparece quando reconhecemos que nenhuma sentença restitui plenamente o que se perdeu. Que julgar é sempre cortar, decidir é sempre excluir, legislar é sempre deixar algo de fora. O autoritarismo jurídico quer encerrar. O trágico jurídico sabe que o julgamento é um esforço provisório diante do irreparável. E o drama jurídico — que se manifesta nas histórias singulares que sustentam cada caso — impede que o sujeito se dissolva na estatística.

O desejo autoritário quer clareza, pureza, moral. Mas o sujeito é dramático. A existência é trágica. E o comum, se existe, é tecido na convivência com o irresolvível, não na adesão à mesma causa. O drama e o trágico não salvam, não prometem, não pacificam. Mas impedem que sejamos engolidos pela lógica da resposta total.

Quem habita o drama não se apressa em condenar. Quem reconhece o trágico não exige pureza do outro. Ambos sabem que o erro é constitutivo, que a convivência não é fusão, e que a linguagem sempre falha — mas mesmo assim, falam. E nesse gesto, silencioso ou não, retiram do autoritarismo seu maior alimento: a ilusão de que o mundo pode ser organizado sem perda.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados