
Saídas do desejo autoritário: o drama e o trágico
por Eliseu Raphael Venturi
O desejo autoritário detesta a hesitação. Ele precisa da certeza, do sim ou do não. O desejo autoritário não suporta a complexidade. Ele exige clareza, resolução, fim. Seu funcionamento depende da exclusão do dilema, da expulsão da ambivalência, da recusa do conflito como estrutura.
O autoritário quer ordem sem hesitação, narrativa sem rachadura, justiça sem resto. Ele é uma ficção da unidade — ficção que se realiza à custa da linguagem, do vínculo e da singularidade.
E é por isso que o drama e o trágico, em sua radical diferença, podem funcionar como saídas éticas ao imperativo autoritário: não por oposição direta, mas por produção de outra cena.
O drama é a cena do humano em sua instabilidade. Nele, o sujeito não está diante de um enigma teórico, mas imerso em relações, afetos, escolhas, perdas e limites. O drama é a exposição da carne da vida em sua contradição encarnada. Ele nos mostra que o sujeito não é uno, mas atravessado. Que não há decisão sem hesitação, nem fala sem implicação. Ao contrário do autoritarismo — que opera por personagens unidimensionais (o traidor, o herói, o povo, o inimigo) — o drama restitui a espessura de cada figura. Ninguém está totalmente certo. Ninguém está absolutamente errado. E isso é intolerável para o desejo que exige pureza.
O trágico, por sua vez, leva esse desconforto à estrutura da linguagem. Ele não é uma moral da história, mas uma arquitetura de impossibilidades. Não se trata de uma história com final ruim, mas de uma forma de viver a irresolução. No trágico, não há solução possível sem perda real. Toda escolha é marcada pela falha. E é essa falha, sustentada como núcleo do sujeito e do laço, que o desejo autoritário tenta eliminar. O autoritarismo, nesse sentido, é a recusa do trágico. Ele quer um mundo onde a lei coincida com o bem, onde a autoridade seja justa, onde o outro não seja fonte de angústia — mas de confirmação.
Ao restituir o trágico e o dramático como formas de existência e leitura do mundo, criamos uma possibilidade de deslocamento: não precisamos mais agir como se o conflito fosse defeito do sistema, nem como se o desacordo fosse sinal de decadência.
O drama nos convida a escutar o outro sem reduzi-lo à sua posição atual. O trágico nos convida a agir mesmo sabendo que nenhuma ação é redentora. Juntos, eles desafiam o delírio de coerência total, de salvação, de limpeza simbólica.
Na política, essa restituição é vital. Quando o trágico é expulso do discurso público, restam apenas os afetos totalizantes: indignação, cinismo, sarcasmo, ressentimento. O debate vira guerra, a escuta vira trincheira, a linguagem vira arma. Já o drama e o trágico reintroduzem a hesitação. Mostram que há perdas irrecuperáveis, decisões ambíguas, injustiças inevitáveis — e que, ainda assim, há vida a ser sustentada.
No direito, o trágico aparece quando reconhecemos que nenhuma sentença restitui plenamente o que se perdeu. Que julgar é sempre cortar, decidir é sempre excluir, legislar é sempre deixar algo de fora. O autoritarismo jurídico quer encerrar. O trágico jurídico sabe que o julgamento é um esforço provisório diante do irreparável. E o drama jurídico — que se manifesta nas histórias singulares que sustentam cada caso — impede que o sujeito se dissolva na estatística.
O desejo autoritário quer clareza, pureza, moral. Mas o sujeito é dramático. A existência é trágica. E o comum, se existe, é tecido na convivência com o irresolvível, não na adesão à mesma causa. O drama e o trágico não salvam, não prometem, não pacificam. Mas impedem que sejamos engolidos pela lógica da resposta total.
Quem habita o drama não se apressa em condenar. Quem reconhece o trágico não exige pureza do outro. Ambos sabem que o erro é constitutivo, que a convivência não é fusão, e que a linguagem sempre falha — mas mesmo assim, falam. E nesse gesto, silencioso ou não, retiram do autoritarismo seu maior alimento: a ilusão de que o mundo pode ser organizado sem perda.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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