
Saídas do desejo autoritário: a multiplicidade
por Eliseu Raphael Venturi
O desejo autoritário não suporta o múltiplo. Seu modo de operar exige a redução: a um nome, a uma identidade, a uma lógica, a uma narrativa que tudo amarra. Onde há multiplicidade, ele vê ameaça. Onde há variação, ele exige coerência. Onde há singularidade, ele impõe categoria.
O desejo autoritário quer um mundo sem resto, em que tudo possa ser previsto, governado e nomeado — em que o sujeito se defina de forma estável e onde as diferenças não se espalhem para além do controle do significante mestre.
A multiplicidade, como regime de existência, rompe essa lógica na raiz. Ela não é a soma das diferenças nem a celebração estética da diversidade. É um modo de habitar o mundo sem a pretensão de unificá-lo. É aceitar que o sujeito é feito de fragmentos, de temporalidades cruzadas, de versões parciais de si. É uma posição ontológica e política que afirma: não somos um, e isso é bom.
O autoritarismo se instala nos ambientes em que há um apelo por unidade. Unidade da nação, da linguagem, da verdade, da moral. Essa unidade é sempre ficção, mas uma ficção eficaz — porque oferece segurança frente ao abismo da contradição.
A multiplicidade, ao contrário, não propõe segurança, mas sustentação na instabilidade. Ela não resolve as tensões internas, ela as mantém vivas. E é essa vitalidade do múltiplo que pode operar como saída ética frente à compulsão por coerência que alimenta o autoritarismo.
Há quem veja na multiplicidade um risco de desagregação. Mas esse é o olhar do poder, que teme o que não pode representar. O múltiplo não é caos, é pulsação. É o modo como o real se organiza sem centro. O desejo autoritário tenta fechar essa pulsação com normas, disciplinas, manuais. Mas a vida — no sentido mais radical do termo — não se fecha. E a subjetividade que se permite múltipla resiste não com força, mas com porosidade.
Multiplicidade também não é escolha de estilo. É estrutura. O sujeito que se autoriza a ser múltiplo desativa a demanda por pureza, por fidelidade absoluta, por coerência permanente. Isso não significa cinismo ou indiferença — significa responsabilidade pelas posições que ocupa, mesmo que elas entrem em conflito. O sujeito múltiplo não nega seus atravessamentos: ele os habita. Não pede ao outro que se simplifique — ele se oferece como campo de complexidade.
No campo político, sustentar a multiplicidade é sustentar o desacordo. É suportar que o comum não se funde na identidade, mas no atravessamento de diferenças. É aceitar que a convivência não se dá por convergência de valores, mas pela disposição de sustentar o que não se encaixa.
No campo subjetivo, é abrir mão da imagem ideal de si. É reconhecer que não há centro estável, que não somos iguais a cada dia, a cada vínculo, a cada fala. E que isso não é fragilidade: é potência.
O desejo autoritário quer capturar o sujeito em um só traço. Uma nacionalidade. Um gênero. Uma ideologia. Um trauma. Uma causa. Mas a multiplicidade resiste. Não como espetáculo de si, mas como reconhecimento silencioso de que somos atravessados demais para caber em qualquer fórmula. A multiplicidade não quer ocupar o lugar do autoritário. Ela quer esvaziar esse lugar.
Viver a multiplicidade como regime de existência é também abandonar a exigência de se explicar o tempo todo. É recusar a coerência como prova de legitimidade. É preferir a escuta à resposta, o deslocamento ao pertencimento, a invenção à repetição.
E nesse gesto, o desejo autoritário perde seu alimento. Porque ele vive de certezas. E o múltiplo — como sujeito, como corpo, como linguagem — não tem nenhuma a oferecer.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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