19 de junho de 2026

Saídas do desejo autoritário: o cuidado, por Eliseu Venturi

O cuidado desacelera, desfoca, descentraliza — e o autoritarismo, que precisa da aceleração, do foco e do controle, se inquieta.
Magritte, Afinidades Eletivas, 1933.

Saídas do desejo autoritário: o cuidado

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por Eliseu Raphael Venturi

O desejo autoritário se alimenta da ilusão da centralidade. Ele quer o macro, o absoluto, o visível, o comando que reverbera por todas as estruturas e organiza tudo a partir de um centro incontestável.

O cuidado, ao contrário, opera nas margens. Não porque seja menor, mas porque não precisa ser visto para agir. Sua potência não está na força da imposição, mas na discrição do gesto que sustenta o outro sem tomar o lugar do outro. E é precisamente aí que o cuidado se torna uma prática micropolítica de resistência: ele escapa à lógica do espetáculo, da eficiência e da verticalidade.

O cuidado, como ato ético, não exige reconhecimento nem reciprocidade imediata. Ele acontece no detalhe: no tempo que se estende, na escuta que não encurta a dor, no corpo que se oferece como presença e não como máquina. E isso, por si só, já contraria o desejo autoritário, que despreza o detalhe, que teme o tempo, que recusa o corpo quando ele não é instrumento.

O cuidado desacelera, desfoca, descentraliza — e o autoritarismo, que precisa da aceleração, do foco e do controle, se inquieta.

É fácil imaginar que o cuidado seja o oposto da violência. Mas é mais radical entender que o cuidado não é o oposto, é o deslocamento silencioso da cena da dominação. Ele não nega a existência do autoritarismo — ele simplesmente não joga sob suas regras.

Enquanto o autoritário organiza o mundo a partir da lei, da punição e da obediência, o cuidado constrói espaços de convivência onde o comum se dá sem hierarquia. O cuidado não impõe; ele se implica. E nessa implicação está sua força política.

No plano da convivência, o cuidado transforma relações verticais em vínculos laterais. Onde antes havia comando e resposta, instala-se escuta e reconhecimento. Onde havia medo, aparece confiança. Onde havia normalização, emerge singularidade. No cuidado, o outro deixa de ser objeto de controle para tornar-se sujeito de relação. Isso não significa passividade — significa recusar a lógica da captura, da eficiência e da padronização que estruturam o desejo autoritário.

Mas o cuidado também é ambíguo. Pode ser manipulado, instrumentalizado, transformado em verniz. Da mesma forma que o autoritarismo pode vestir o discurso da proteção, o cuidado pode ser transformado em técnica de gestão. A diferença está na ética do gesto.

Cuidar, como prática micropolítica, é não ocupar o lugar do Outro, mas sustentar a ausência de garantias que o vínculo exige. É cuidar sem subjugar. É sustentar a fragilidade como forma de convivência, não como fraqueza a ser corrigida.

Nas instituições, o cuidado é o que permite que algo do sujeito sobreviva à norma. Quando um servidor escuta sem enquadrar, quando uma política pública se curva ao contexto, quando uma norma hesita diante de uma singularidade, há cuidado. Não como concessão, mas como escolha ética: reconhecer que o outro não é cifra, nem categoria, nem ameaça — é sujeito. E isso desestabiliza profundamente o autoritarismo, que depende da desumanização para se manter.

O cuidado é, então, o que resiste onde nada mais parece possível. Ele não grita, mas também não silencia. Ele não confronta, mas também não se omite. Ele sustenta, e sustentar — em tempos de destruição simbólica — é um ato de coragem.

Em tempos de cancelamento, de algoritmos, de discursos performativos que apenas reforçam o gozo do mesmo, cuidar é criar um intervalo. Um intervalo no qual o outro possa existir sem precisar se justificar.

O desejo autoritário é uma resposta ao medo: medo do caos, da diferença, da falha. O cuidado é uma resposta à fragilidade: ele não corrige a falha, mas convive com ela. E isso, em si, já é político. Uma política que não promete salvação, mas presença. Uma política que não disputa poder, mas sustenta laços. Uma política que, por se fazer no pequeno, tem o potencial de desorganizar o grande.

O cuidado como prática micropolítica não se opõe diretamente ao autoritarismo — ele o dissolve por dentro, infiltrando-se nas brechas, nos detalhes, nas dobras do cotidiano onde o poder ainda não alcançou. Ele é a política dos afetos sem manipulação, da escuta sem domesticação, da linguagem sem captura.

E talvez, ao fim, seja a única política que nos resta: aquela que, sem gritar, nos permite continuar humanos.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia e radicado em Curitiba/PR.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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