10 de junho de 2026

Pânico moral, pautas da opinião pública e oportunismos, por Eliseu Venturi

A pauta que ganha visibilidade não é a mais urgente ou justa; é a que atravessa o filtro da emoção coletiva e converte-se em moeda política.
Roy Lichtenstein, Whaam!, 1963.

Pânico moral, pautas da opinião pública e oportunismos: uma advertência

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por Eliseu Raphael Venturi

O pânico moral é a reação coletiva que não nasce de um fato isolado, mas da fabricação insistente de um inimigo a partir de fragmentos, exageros e distorções, até que o objeto dessa histeria social se torne mais crível do que a realidade que o possa contradizer.

Essa reação emocional profunda se instala com a força de uma narrativa repetida ao ponto de parecer natural — e, justamente por isso, escapa ao exame crítico que deveria cercar qualquer pretensão de verdade.

A opinião pública, nesse cenário, deixa de ser um espaço de circulação plural de ideias, ou mesmo para construção de posturas diante de inevitáveis fatos sociológicos, para tornar-se uma arena de reverberação, em que o eco vale mais que a voz, ou a razão vale menos que a agitação.

A pauta que ganha visibilidade não é, necessariamente, a mais urgente ou a mais justa; é a que consegue atravessar o filtro da emoção coletiva e converter-se em moeda política.

Sob o pânico moral, cada fato é um combustível para reforçar a impressão prévia de ameaça, e a lógica da confirmação substitui a lógica da prova. Por mais legítima, verídica e mesmo verdadeira que seja a pauta, seus usos merecem atenção: a apropriação política, midiática ou comercial de um fato ou uma causa pode distorcer seu sentido, reduzir sua complexidade e instrumentalizar sua força simbólica.

Em suma: acende-se e apaga-se a pauta sem qualquer enfrentamento racional que envolva a complexidade do problema ou a visão sequer a curto prazo, quem dirá a médio ou longo, ou mesmo estrutural.

Nesse caldo de medos organizados, prosperam oportunismos. Líderes políticos, figuras midiáticas e até setores do mercado aprendem a instrumentalizar a emoção pública, moldando agendas conforme o que mantém a comoção acesa.

A indignação torna-se um ativo, e a solução apressada — muitas vezes punitivista, restritiva ou moralizante — serve mais ao prestígio imediato de quem a propõe do que à resolução concreta do problema.

A advertência é simples, mas desconfortável: uma sociedade que se entrega ao pânico moral, sem a disciplina da escuta e sem a hesitação que protege contra decisões precipitadas, perde não só a clareza sobre o que combate, mas também a capacidade de distinguir entre proteção e controle, entre justiça e espetáculo.

O gesto ético, aqui, talvez seja o menos sedutor dos caminhos: não se deixar convocar pelo alarme imediato, insistir na pergunta que atrasa a resposta, devolver o debate ao campo onde a razão não está sequestrada pela urgência. É nesse intervalo que se preserva a política como espaço de convivência, e não de caça.

De onde virá o abismo mais profundo do que aquele que vemos? A conferir. Resistir a essa lógica exige sustentar o vazio — o tempo necessário para compreender — e recusar-se a confundir velocidade com responsabilidade.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia e radicado em Curitiba/PR.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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