
Saídas do desejo autoritário: o silêncio
por Eliseu Venturi
O desejo autoritário tem pressa. Ele exige resposta, posicionamento, visibilidade, reação. Seu funcionamento depende do ruído contínuo: da fala que se impõe, da opinião que se repete, do discurso que ocupa todos os espaços. Mas há um gesto que desmonta sua lógica pela via do intervalo: o silêncio. Não o silêncio da omissão ou da cumplicidade, mas o silêncio como posição — ativa, ético-política, sustentada — que recusa jogar com as regras do autoritarismo.
Silenciar, quando tudo grita, é insuportável para o desejo autoritário, pois ele vive da captura de todas as palavras. Ele exige enunciação constante para melhor nomear, rotular, administrar. O silêncio, nesse cenário, escapa. Ele não se deixa categorizar, não fornece material para o gozo da vigilância, não confirma nem nega. Ele fura. E o furo, no campo da linguagem, é sempre político.
Há um silêncio que paralisa e há outro que sustenta. O primeiro é produto da opressão, da censura, do medo. O segundo é escolha: um gesto ético que recusa participar da cena armada pelo Outro. Esse silêncio não é ausência, mas presença intensa. É corpo que não se dobra, palavra que se adia, pensamento que não se oferta à captura. É pausa onde o autoritário exige fluxo. É não-resposta onde o sistema quer engajamento imediato.
Na lógica neoliberal da transparência absoluta, do engajamento compulsório, da performance contínua de posicionamento, o silêncio torna-se um escândalo. E é justamente por isso que ele pode ser saída: porque inviabiliza a retroalimentação do gozo autoritário, que se sustenta da polarização e da repetição. Quando o sujeito cala — não por retração, mas por precisão — ele introduz um intervalo na cadeia significante. Um intervalo onde algo do sujeito, ainda não nomeado, se preserva.
Na psicanálise, o silêncio é um dos nomes do real. Ele marca o ponto onde a linguagem falha, onde não há significante que dê conta. Mas, paradoxalmente, é desse silêncio que algo novo pode surgir — desde que ele seja sustentado, não como defesa, mas como ato. Na política, esse mesmo silêncio pode ser gesto de desobediência simbólica. Não ceder à interpelação é recusar ser moldado pela lógica binária do inimigo e do aliado. É não preencher o espaço com qualquer coisa só para não parecer ausente. É habitar o intervalo como espaço de reinvenção.
Mas é preciso cuidado. Nem todo silêncio é ético. Nem toda recusa de fala é resistência. O silêncio como saída só se configura como tal quando sustentado por uma escuta ativa, por uma recusa consciente de responder nos termos do Outro. Quando ele protege a linguagem da banalização, quando preserva o sentido de sua erosão acelerada, quando sustenta o tempo necessário para que o desejo próprio se diferencie do ruído geral.
O desejo autoritário exige que falemos agora, já, em alto volume. Ele se alimenta da instantaneidade. O silêncio ético, ao contrário, devolve o tempo ao discurso. Ele adia, hesita, desloca. E nesse adiamento há força. Há resistência. Há posicionamento. A posição do silêncio é também a posição do cuidado: com o que se diz, com o que ainda não pode ser dito, com o que não se deve entregar ao consumo simbólico imediato. É o cuidado com a palavra como espaço de vida — e não de morte.
Silenciar, então, não é calar-se diante da injustiça, mas recusar-se a repeti-la com outras palavras. É não legitimar a cena imposta. É não reforçar a maquinaria da linguagem esvaziada. É, talvez, o último gesto de liberdade possível quando todas as falas já foram absorvidas. O silêncio ético não se reduz à mudez. Ele é forma ativa de presença — a presença de quem, mesmo sem dizer, resiste a ser dito pelo Outro.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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