10 de junho de 2026

Saídas do desejo autoritário: a ética da hesitação, por Eliseu Raphael Venturi

Hesitar, no sentido ético, não é fraqueza nem indecisão. É a escolha deliberada de não responder nos termos impostos pelo Outro.
George Grosz, Uma vítima da sociedade, 1919.

Saídas do desejo autoritário: a ética da hesitação

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por Eliseu Raphael Venturi

O desejo autoritário detesta a hesitação. Ele precisa da certeza, do sim ou do não, da resposta rápida e do gesto afirmativo. Alimenta-se da pressa do sentido, da ordem da fala e do corte da dúvida. Onde há hesitação, ele sente ameaça. Porque hesitar é não aderir de imediato, é interromper a fluidez da obediência, é desarticular a cadeia da identificação automática.

E é por isso que, mais do que um traço de caráter, a hesitação é uma posição ética — talvez uma das mais potentes saídas diante da pulsão autoritária que se infiltra nos discursos, nos vínculos e nas práticas contemporâneas.

Hesitar, no sentido ético que aqui interessa, não é fraqueza nem indecisão. É a escolha deliberada de não responder nos termos impostos pelo Outro. É criar um intervalo entre o estímulo e a resposta, entre a provocação e o posicionamento, entre o chamado e a identificação.

A ética da hesitação rompe com a lógica binária que sustenta o desejo autoritário: ou você é a favor ou é contra; ou está conosco ou está contra nós; ou se posiciona agora ou cala para sempre. A hesitação recusa esse jogo — não para ficar em cima do muro, mas para não construir mais um muro.

Sabe-se que a urgência nem sempre é do sujeito — às vezes é do sintoma. A fala apressada, a demanda imediata, a busca por definição são formas de escapar da angústia. Mas o gesto analítico, muitas vezes, é justamente o de não responder de imediato, é o de sustentar o intervalo, é o de deixar que o desejo se diga por outras vias.

Há, nesse gesto, uma ética: não se trata de calar o outro, mas de não ser cúmplice da pressa que o aliena. Isso vale para a clínica, para a política, para a linguagem, para os modos de estar no mundo.

O desejo autoritário exige velocidade. Ele é sustentado por algoritmos, por manchetes, por comentários, por indignações serializadas. A lentidão da hesitação é um escândalo nesse regime. Ela não produz engajamento imediato, não gera aplauso, não capitaliza afetos. Mas ela pode produzir outra coisa: um espaço simbólico em que o sujeito não seja reduzido ao seu último posicionamento. Na hesitação, há escuta. Há demora. Há tempo de elaborar — e é justamente esse tempo que o autoritarismo quer eliminar, porque nele algo pode escapar ao controle.

A ética da hesitação exige coragem. Porque quem hesita, em tempos de grito, é acusado de covardia. Quem sustenta a dúvida, em tempos de certeza, é lido como conivente. Mas a hesitação ética não é a ausência de resposta — é a recusa de respostas impostas. É a aposta de que há um modo de existir que não seja reativo, compulsivo, adaptado. É o gesto de desviar o curso do discurso, de abrir uma fenda no automatismo, de criar um não-saber fecundo. E o autoritário, que depende da repetição, não sabe o que fazer com essa fenda.

Hesitar, então, é também preservar o desejo. O desejo que não se encaixa, que não se esgota, que não se submete à ordem da demanda. É manter vivo algo que não se resolve. A ética da hesitação não busca uma posição justa no campo dos signos — ela busca sustentar o campo onde a justiça ainda não se formulou. E é por isso que ela incomoda: porque ela lembra que o tempo do sentido não é o tempo da política do gozo.

No direito, na política, na convivência, hesitar pode ser gesto radical. Um juiz que hesita diante da norma, um servidor que escuta antes de aplicar, um militante que recusa a fórmula pronta, um analista que não interpreta de imediato — todos esses gestos criam um descompasso na engrenagem autoritária. Não se trata de procrastinar, de recusar a ação, mas de recusar o modo como a ação é exigida. A hesitação é uma forma de não ceder à cena, de não se inscrever na lógica que organiza a demanda.

Se há saída para o desejo autoritário, ela não virá da resposta certa, nem da fala mais forte, nem da norma mais precisa. Ela virá, talvez, da capacidade de habitar a zona cinza entre o dito e o ainda não dito. De suportar o silêncio sem preenchê-lo. De sustentar a espera como condição da criação. De saber que há coisas que não se respondem — mas se escutam.

A ética da hesitação não é uma fuga. É um ato. Um ato que interrompe a marcha do discurso dominante. Que resguarda o sujeito de ser totalmente capturado. Que aposta, mesmo sem garantias, na possibilidade de outra linguagem.

Uma linguagem que ainda não nasceu — mas que talvez só possa nascer se alguém, em algum lugar, tiver hesitado o suficiente para não dizer o que o desejo autoritário esperava ouvir.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia e radicado em Curitiba/PR.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. S.W.

    4 de setembro de 2025 7:20 pm

    Texto potente. A ideia de que a saída não está na resposta imediata, mas na coragem de sustentar o silêncio e a hesitação, é profundamente provocadora. Faz pensar que resistir também pode ser não ceder ao automatismo de responder, e sim abrir espaço para uma outra linguagem nascer

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