A vantagem do mau jornalismo é que ele deixa as impressões digitais sobre quais são suas intenções. Alguém poderia supor um veículo de mídia minimamente sério apoiando um candidato com vínculos reais e públicos com o crime organizado, com a ficha de Flávio Bolsonaro?
Há duas maneiras de fazer lobby. Uma, é defendendo o padrinho. Quando a defesa for impossível, ataque o seu adversário.
É o caso da campanha de O Globo explorando o tal episódio Fábio Luís-Roberta Luchsinger.
O jornal amanheceu trazendo o tema na manchete principal. A matéria é o chamado “cozidão”, sobre a mansão mantida por Roberta em Brasília, sem nenhuma informação nova. Baseia-se no depoimento de uma ex-funcionária da casa, que entrou com ação trabalhista, e que tinha sido dada pelo Metrópole duas semanas antes (clique aqui).
Para fugir da acusação de “cozidão”, a reportagem diz ter consultado “três fontes”. Conversa! A história de 3 fontes remete a uma reportagem séria, a do The Washington Post sobre os crimes de Richard Nixon. A informação só saía depois de três confirmações. Por aqui, virou esperteza de jornalista, muito utilizada por colunista do jornal. Há uma fonte – ou outro veículo ou informação vazada pela Polícia Federal – e pespega-se o tal “confirmado por três fontes” para cumprir o ritual.

Analise a matéria de hoje (em azul, o cozidão). A rigor, a única novidade é a ex-empregada, provocada pelo repórter, dizer que “se recorda” de Marcola por lá, apenas como álibi para introduzir Marcola no cozidão.


A intenção da reportagem é obviamente torpedear a candidatura de Lula, em cima de duas possibilidades:
Possibilidade A – desistência de Flávio abrindo espaço para outro candidato da extrema direita.
Possibilidade B – se não for possível sem Flávio, com Flávio mesmo.
Aí entra-se em um novo terreno. Com exceção de alguns lava jatistas notórios, nenhum colunista do jornal decidiu sujar as mãos. E, aí, há uma diferença radical com a Lava Jato 2, onde quase todos se lambuzaram de sangue.
Os motivos
Certamente, o diretor de redação não está tomado pela chamada sagrada do neoliberalismo. O que está em jogo é algo muito mais prosaico: é a chamada Faria Lima.
O período Bolsonaro-Roberto Campos escancarou o mercado financeiro para a lavagem de dinheiro. E a lavagem não beneficia apenas o crime organizado, mas um enorme universo de capital financeiro. A política monetária em vigor, e a opacidade do mercado, permitem o mais violento processo de extração de riqueza da história, uma enorme bolha que, mesmo após a explosão do Master, continua permitindo a sonegação mais desenfreada.
É por aí que se entende essa “militância pública” de alguns veículos, de se expor de tal maneira em apoio a um candidato explicitamente ligado às milícias e ao crime organizado.
E demonstra que o jornal não é um mero receptador passivo do tráfico de notícias praticado pela Polícia Federal. É cúmplice.
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