O carojoso colunista da Folha, Celso Rocha Barros, colocou o dedo na ferida no artigo “Mesmo se Flávio perder, direita Master deve ganhar todo o resto“.
“Direitistas específicos podem ser denunciados e presos, mas ninguém com poder, inclusive na mídia, está disposto a denunciar a direita quando isso de fato ameaça a hegemonia conservadora no sistema político brasileiro (…) O público brasileiro foi exposto a uma visão tão difusa dos culpados do Master que pode perfeitamente achar que Lulinha fazendo lobby por canabidiol no Ministério da Saúde é comparável ao que a direita fez durante o maior escândalo financeiro da história brasileira”.
Celso expõe o maior instrumento de manipulação utilizado pela mídia: o exercício da narrativa enviesada. Ele se manifesta em vários pontos, a começar pela hierarquização das matérias.
Em uma matéria jornalística há uma hierarquia de acordo com a maior ou menor visibilidade. A parte de maior visibilidade é o título, seguido do intertítulo e do lead (o primeiro parágrafo da matéria).
Manipulação 1 — a hierarquização das informações
A forma mais banal de manipulação é destacar um viés no título ou no intertítulo e esconder o contraponto no corpo da reportagem. Foi o que fez O Globo nas acusações contra o diretor de fiscalização do Banco Central, apontado como beneficiário do Banco Master. A acusação alimentou chamadas e títulos por uma semana; a retificação veio escondida em um parágrafo de uma matéria de conteúdo genérico sobre o caso Master.
Manipulação 2 — escondendo os contra-argumentos
Aqui se trata de uma manipulação mais grosseira. O caso recente do blogueiro do Maranhão, acusado de perseguir o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, é um bom exemplo. Nas matérias, alegava-se desrespeito ao sigilo de fonte, e Elio Gaspari enfatizava a diferença de forças entre o ministro e o blogueiro. Suprimiam-se do texto todos os argumentos favoráveis à medida — o principal deles é que familiares de ministros do STF, ainda mais em tempos de polarização, estão sujeitos a represálias. Por isso mesmo têm direito a transporte exclusivo e não identificado. Na divulgação dos veículos que transportavam os familiares havia dois crimes claros: o primeiro, o vazamento de informações sigilosas necessárias à segurança dos familiares; o segundo, a própria divulgação dessas informações, que os colocaria como alvos de qualquer exaltado. Basta mudar o alvo: imagine um adversário de Elio Gaspari divulgando a identidade dos filhos dele e os locais que frequentam. Qual seria a reação de Gaspari?
Ou seja, Elio não mentiu ao enfatizar a força do Ministro ante um blogueiro-jornalista. Mas suprimiu a verdade, ao não divulgar os riscos potenciais dos vazamentos para a segurança da família de Flávio Dino.
Manipulação 3 — o senso de proporção
Uma das características essenciais do jornalismo é não apenas apurar as informações, mas também avaliar sua relevância. A equiparação do caso Fábio Luís ao Master é um exemplo clássico de desonestidade jornalística — equiparação que se dá ao conceder a mesma cobertura a ambos os casos. Essa estratégia revela o comportamento de veículos que são, na prática, defensores de Flávio Bolsonaro, mas não podem se assumir como tais, sob risco de se desmoralizar perante o núcleo mais racional de seus leitores. Recorrem, então, a esses falsos paralelismos.
Além disso, até agora não foi divulgado um crime sequer atribuído a Fábio Luís. Tudo se resume a inquéritos abertos e à tal viagem a Portugal, bancada pelo empresário da cannabis. Não há uma informação objetiva sobre suposto tráfico de influência. Mesmo assim, os inquéritos abertos garantiram mais visibilidade ao caso do que os mais de R$ 100 milhões solicitados por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.
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