25 de outubro de 2026

Roberto Campos, o avô: um gigante, por Luís Nassif

Durante décadas, Campos passou por "entreguista" mesmo sendo lá fora um intransigente defensor do ele considerava interesses brasileiros.
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Roberto Campos, ex-ministro e deputado, enfrentou críticas e foi chamado de “entreguista”, mas defendeu interesses brasileiros.
Campos e Lucas Lopes foram pioneiros no planejamento do BNDES e em reformas para gerar crescimento econômico sustentável.
O artigo compara a geração de Campos com FHC, destacando a falta de grandes batalhas e compromisso nacional do último.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Recebo de Rosa Freire D´Aguiar, viúva de Celso Furtado, o recorte da crônica abaixo, que escrevi no início de 1994. Falava dos grandes homens públicos brasileiros, de todas as linhas políticas, comparando com Fernando Henrique Cardoso e seu acomodamento em relação à construção da nacionalidade.

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Foi escrito logo após uma visita que fiz a Roberto Campos. Tive várias pinimbas com ele. Começamos a nos aproximar após uma crônica que escrevi a seu respeito, quando, internado no hospital, saiu de cadeiras de rodas para votar pelo impeachment de Fernando Collor e se comoveu com os aplausos.

Depois disso, tornamo-nos quase amigos, estimulados ainda por uma pesquisa da Fernando Pacheco Jordão com as 50 fontes mais ouvidas pela imprensa. A pesquisa visava saber quem influenciava as fontes influentes. Fiquei em primeiro, ao lado de Campos.

A crônica abaixo mostrava a diferença de dimensão entre a geração dos anos 50, que pretendia construir um país grande, por caminhos diversos, e o academicismo estéril de FHC. Obviamente, perto da geração de Roberto Campos, o Neto, FHC era um gigante.

Pais da pátria e os anões

LUÍS NASSIF

No seu apartamento no Rio de Janeiro, o deputado Roberto Campos já começou a dar um balanço na sua vida. Escreveu um livro de memórias e em seus artigos semanais por vezes abandona sua preocupação obsessiva com o presente e o futuro para render-se ao memorialismo. Mas só por vezes. A cabeça continua no futuro.

Durante quarenta anos, o ex-ministro Campos foi a pessoa mais execrada do país. No governo JK, as passeatas nacionalistas portavam invariavelmente duas faixas: “Abaixo a carestia” e “morra Roberto Campos”.
Tempos depois, recebeu o apelido de Bob Fields. De “entreguista” ele sempre foi chamado, desde que voltou de uma missão diplomática nos EUA, no início dos anos 50, com idéias estranhas na cabeça.

Cabeça-dura, jamais fez concessões às idéias com as quais não concordasse, nem cedeu ao carreirismo. Recusou um convite para uma embaixada, no governo Jânio –com quem ele concordava–, porque achou que não seria útil. Mas dispôs-se a ser embaixador nos EUA no governo Goulart –cujo populismo ele abominava.

A ironia rascante, com que reagia às críticas, poderia passar a falsa impressão de que se tratasse de um masoquista praticante. Não era.

Fortaleza

Não se pretende, aqui, chover no molhado. O deputado, ex-senador e ex-ministro Campos já tem o reconhecimento da história. O que se pretende é analisar de que material são feitos os homens públicos. Durante décadas, Campos passou por “entreguista” mesmo sendo lá fora um intransigente defensor do ele considerava interesses brasileiros.

Pode-se discutir se seu conceito de interesse brasileiro era o mais correto, se ele não exagerava no seu internacionalismo, se não era excessivamente radical em considerar como único espécimen digno o empreendedor –sem jamais reconhecer a importância do trabalhador como parceiro da produção. Mas jamais se poderá criticá-lo por incoerência ou falta de patriotismo. Dentro do que acreditava, foi inegavelmente um dos pais da pátria.

Ao lado de Lucas Lopes (recentemente falecido), talvez tenha sido o brasileiro que mais se preocupou com questões de desenvolvimento. Coube a ambos preparar a tradição de planejamento do BNDES e, mais tarde, a Campos e Bulhões montar um plano econômico com um conjunto de reformas que tinha como único intuito gerar um ambiente econômico para o crescimento. No entanto, durante anos, foi taxado de “monetarista” e de “recessivo” por defender o equilíbrio nas contas públicas.

Reconhecimento da história

Em todas essas décadas, Campos suportou ou com silêncio estóico, ou com sua ironia rascante, críticas e incompreensões de toda espécie.

“As críticas o afetavam?”, indaguei-lhe. “Profundamente”, respondeu, principalmente quando partiam de seu mais feroz crítico, o ex-governador carioca Carlos Lacerda, que dizia que “Campos mata o pobre de fome e o rico de raiva”.

Então por que acirrava ainda mais os críticos com uma ironia que beirava a provocação? “Porque sabia que estava certo e que, mais cedo ou mais tarde, haveria o reconhecimento”, explica o deputado.

O reconhecimento veio mais tarde, apenas na era Gorbatchev. “Significa que agora o senhor é um homem plenamente realizado?”, indago. “Como posso ser realizado se o país está nessa situação?”, responde o deputado.

Por vezes, corre-se o risco até do reconhecimento não vir em vida. Prova é Lucas Lopes, o principal responsável pelo Plano de Metas de JK, que morreu praticamente ignorado pelas novas gerações.

Mas pouco importava. Homens como Campos, Bulhões ou, mais à esquerda, Rômulo de Almeida, Celso Furtado, diferentes nas suas convicções, tinham em comum o sentimento de homens públicos, de construtores da pátria. O sucesso do país, era seu sucesso: o fracasso do país, seu fracasso.

Quando, à luz desses exemplos, observa-se a maneira como Fernando Henrique Cardoso acabou fugindo das grandes batalhas, desviando a atenção dos grandes temas, perdendo a oportunidade histórica de preparar o ajuste, por uma demagogia eleitoreira, como essa URV, constata-se que a índole dos verdadeiros homens públicos não depende de sua formação ou de seus títulos.

Um grande homem público, já nasce.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. José Djamar

    27 de setembro de 2026 11:47 am

    Uma leitura obrigatória.

  2. ed.

    27 de setembro de 2026 4:46 pm

    Bem, o adjetivo ‘gigante” serve para pessoas como p.ex.: Gandhi, Hitler, Jesus, Atila, Luther King, Herodes, Confúcio, Gengis Kahn…
    Eu conheço Campos pela míRdia, Nassif muito mais, até pessoalmente, então sei lá, né?

  3. André Teixeira César

    27 de setembro de 2026 7:32 pm

    Olá, Nassif.

    Sei que esse meu textinho é fora do tema do seu artigo. Todavia, coloco-o aqui, porque, talvez você ache oportuno desenvolver o teor com a sua eloquência mais bem preparada do que a minha. O assunto me parece ser desconhecido pela população.

    Agradeço a sua atenção e a sua dedicação à defesa da democracia.

    ———————

    Sim, demorei para me animar a escrever sobre o caso, já escamoteado, com o desempenho do verborrágico “pastor mirim” brasileiro. Francamente, desse assunto, só li os títulos e ouvi algumas chamadas nos noticiários televisivos. Ignorei ler as reportagens. É um tema entediante.

    Contudo, entretanto, todavia, porém… “por incresça que parível”, televisão, também é cultura. E, veja só: existe um canal aberto que exibe programas com ideários dos conceitos evangélicos, pentecostais, políticos (“‘liberais’ na economia e ‘conservadores’ nos costumes”…), também já deram espaço e voz para cartomantes. Tudo isso, intercalados pela generosa oferta de filmes clássicos do cinema e sugestivas películas das avaliadas como “B”; eis que, certa vez, passaram uma dessas com data de realização em 1976, de imediato, reconheci a Lynda Carter (ainda antes de ser a, “eterna, Mulher Maravilha”) que contracenou com um ator interpretando um “galã” de aparência peculiar em personagem típico estadunidense com suas atitudes estereotipadas dos masculinos daquele país. Vê-los em cenas de seminudismo, nas quais a, (depois), heroína da _DC Comics_, aparece despida, foi surpreendente, por ela, pouco tempo após, tornar-se a exemplar e famosíssima ícone cultural para o público infanto-juvenil. Sendo assim, até hoje. “Tá bão, intão”. Curioso, pus-me a pesquisar quem é o tal “exótico” que lhe fez par “romântico”.

    Pois é:
    Bobbie Jo and the Outlaw (br: O Anjo e o Marginal) é um filme de drama policial estadunidense lançado em 1976, dirigido por Mark L. Lester e estrelado por Lynda Carter e Marjoe Gortner.

    (Disponível no Youtube com o título original e falado em Inglês).

    O ator: Marjoe Gortner: antes, muito antes, a partir dos 4 anos, seus pais o treinaram e conseguiram que se tornasse um “exímio tagarela especializado em convencer como o extraordinário pastor mirim”. Fizeram fortuna arrecadando “doações para o ‘iluminado’ pregador” que estimulava numeroso público de fiéis que acreditavam nele. Um “fenômeno divino”. Ao longo dos anos, pai, mãe, filho e seus incentivadores prosperaram nessa, inesgotável, fonte de renda: “os vendilhões dos templos”. Até que, o natural desenvolvimento do organismo transformou a criança em adolescente e, mais adiante, em adulto que, junto, adquiriu discernimentos compatíveis com a faixa etária. Sentiu remorso porque entendeu que, até então, vivera, sob as determinações dos pais, mentindo e enganando multidões de crédulos e ele sabia que tudo era falso. Rebelou-se. Abandonou aquela situação. Obviamente, manteve os ganhos milionários em sua conta. Em 1972, denunciou todo o esquema (inclusive os dos concorrentes) que foi divulgado no documentário de longa-metragem “Marjoe”, ganhador do Oscar nessa categoria daquele ano, na cerimônia de entrega em 1973. Desde então, seguiu carreira de “canastrão bem sucedido”.

    (No Youtube tem partes do documentário que mostram como era óbvia toda a falsidade nos textos, nos gestos, nos olhares e nas falas decoradas e ensaiadas da criança manipulada pelos pais e o absurdo de ser levada a sério pela sociedade civil no evidente “me engana que eu gosto”).

    Enquanto essa história é antiga na América do Norte, e, possivelmente, assimilada e esquecida, por lá; nas Terras Brasilis, região onde informações dispensáveis prevalecem, espertalhões seguem tentando emular experiências já realizadas e desmistificadas que, mesmo assim, permanecem viáveis quando a malandragem as põem em prática aproveitando a grande quantidade de desinformados, por aqui.

    “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.“

    A frase “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino” encontra-se em 1 Coríntios 13:11. O apóstolo Paulo usa essa metáfora para ilustrar a necessidade de amadurecimento espiritual, abandonando a imaturidade e focando no crescimento na fé.

    Esses mirins são mirins e têm mentalidades compatíveis com suas idades. Sem as responsabilidades intelectuais de adultos. Dar-lhes “poderes inexistentes” é esperteza lucrativa para saciar desejos fantasiosos de populações mal servidas de meios de evoluir suas cognições.

    Como se lê, para discorrer sobre o nacional, recorri à descrição do precursor estrangeiro. Tédio.

    A.T.C. – 29-04-26

  4. fabricio coyote

    1 de outubro de 2026 9:11 pm

    racismo da extrema direita. é o que acontece com o Sepultura: o fato de ter um vocalista do Bronx é motivo de ódio gratuito a uma das maiores bandas de thrash metal já inventadas. o ministro andré mendonça assumiu a família miliciana em decisão do TSE. basta saber se michele aceita. My Michelle!

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