A “banalidade do mal”, de Hannah Arendt, continua sendo uma das explicações mais precisas para entender como pessoas aparentemente normais podem participar de engrenagens de destruição moral sem se perceberem como monstros.
A tese de Arendt não era a de que o mal fosse pequeno. Mostrou que o mal extremo pode nascer da renúncia ao pensamento crítico, da submissão à rotina burocrática, da obediência automática a uma máquina institucional.
No Brasil contemporâneo, poucos fenômenos expressaram tão claramente essa dinâmica quanto o ambiente criado pela Lava Jato e por suas derivações. Não se tratou apenas de uma operação judicial. Foi um estado de espírito, um paroxismo que contaminou procuradores, policiais, juízes, jornalistas, políticos e parte expressiva da opinião pública. Criou-se uma fogueira inquisitorial em que qualquer cautela jurídica era tratada como cumplicidade com o crime; qualquer dúvida, como defesa da corrupção; qualquer garantia individual, como obstáculo à purificação nacional.
Espero que um dia alguns dos personagens desse período mergulhem nas próprias entranhas para compreender como a maldade pode se alojar em mentes aparentemente racionais. Como foi possível naturalizar conduções coercitivas abusivas, prisões espetaculares, vazamentos seletivos, linchamentos morais e ataques a familiares, esposas, filhos e filhas dos acusados. Como foi possível transformar o sofrimento alheio em espetáculo de televisão e, depois, apresentar-se como guardião da democracia que se ajudou a comprometer.
Houve o procurador que pediu a condução coercitiva de funcionários do BNDES, inclusive mulheres grávidas, e que, anos depois, no auditório do próprio BNDES, entregaria certidões de óbito retificadas a vítimas da ditadura. Houve o jornalista que alimentou a fogueira inquisitorial, que inaugurou o discurso pesado da ultradireita e hoje posa de campeão das liberdades públicas. Houve autoridades que, em nome do combate à corrupção, relativizaram direitos elementares e ajudaram a criar a cultura de exceção que depois ameaçaria a própria democracia.
E houve o procurador afável de Santa Catarina, que ordenou a prisão e o suplício moral de professores da Universidade Federal de Santa Catarina, transformando decisões administrativas corriqueiras em indícios de organização criminosa.
Poucos casos foram tão explícitos quanto a Operação Ouvidos Moucos. A operação levou ao suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, destruiu reputações, lançou professores à cadeia e submeteu servidores a anos de processo. Tudo sob a lógica típica das cruzadas morais: primeiro se constrói o escândalo; depois se procura o crime que justifique o espetáculo.
Na época, escrevi sobre o procurador observando a foto dos filhos que emoldurava sua estante. Imaginei a cena doméstica: depois de um dia de trabalho, ele chegaria em casa, tomaria banho quente, vestiria o roupão, ligaria a televisão no Jornal Nacional e assistiria à prisão e à humilhação de suas vítimas.
- Olha, filhinho, o que papai fez hoje.
A frase era cruel, mas traduzia a essência daquele momento: a incapacidade de perceber o outro como pessoa. O acusado deixava de ser professor, servidor, reitor, pai, mãe, filho ou filha. Virava personagem de uma narrativa penal previamente escrita. A biografia desaparecia; ficava apenas o papel atribuído pela acusação.
Agora, anos depois, chegou ao fim o julgamento em primeira instância de dois dos acusados. Os tempos são outros. O procurador federal é outro. E o Ministério Público, após a produção das provas, pediu a absolvição por reconhecer que não havia elementos suficientes para sustentar a denúncia.
A origem do caso era muito menos espetacular do que a operação fez parecer. Tudo começou com apurações sobre verbas do programa Universidade Aberta do Brasil, administradas por fundação de apoio. Para lidar com a burocracia cotidiana — deslocamentos, motoristas, transporte de professores — a fundação contratava empresas credenciadas. Como a administração pública exigia cotações formais mesmo para despesas pequenas e recorrentes, consolidou-se uma prática comum em muitas universidades: a empresa acionada para prestar o serviço apresentava as propostas necessárias para cumprir a formalidade.
O que poderia ser tratado como irregularidade administrativa, falha de controle ou expediente burocrático disseminado foi transformado em prova de corrupção. A denúncia concentrou-se na contratação de motoristas para transportar professores. Compararam-se viagens para uma mesma cidade, apontaram-se discrepâncias de preços, sem levar em conta que, em um dos casos, houve o pernoite do motorista e, a partir daí, construiu-se a narrativa de direcionamento.
Ou então, identificava um aluno que era carteiro dos Correios. Em vez de enaltecer seu esforço em se formar, era apresentado como prova de corrupção. Afinal, como pode um mero entregador de cartas pretender um curso superior.
O raciocínio acusatório era simples — e devastador: como os pedidos eram encaminhados com frequência à mesma empresa, haveria ali o sinal de um esquema. Pouco importava que o servidor ou coordenador só pudesse solicitar transporte a empresas previamente credenciadas. Pouco importava que os pagamentos fossem feitos diretamente pela fundação, que o professor ou coordenador não ordenasse despesas, não movimentasse recursos e não recebesse vantagem pessoal. O que importava era o escândalo.
A máquina já estava em marcha. A denúncia foi apresentada, os acusados foram presos ou expostos, as carreiras foram paralisadas, as famílias foram atingidas, a universidade foi humilhada. Durante anos, todos carregaram o peso de uma acusação que, ao final, não se sustentou.
O próprio Ministério Público, nas alegações finais, reconheceu que as provas produzidas em juízo afastavam a participação dos acusados nos crimes imputados. A sentença acolheu a absolvição. Em linguagem jurídica, faltaram provas. Em linguagem humana, sobraram ruínas.
Esse é o ponto central. O fascismo cotidiano não aparece apenas na figura do ditador de botas, no partido de massas ou na saudação ritual. Ele também se manifesta quando instituições democráticas passam a operar com lógica de exceção; quando a presunção de inocência vira detalhe incômodo; quando o sofrimento do acusado se converte em ativo político, manchete ou troféu funcional; quando agentes públicos se convencem de que sua causa é tão nobre que já não precisam responder pelos meios utilizados.
A Operação Ouvidos Moucos é uma aula amarga sobre esse mecanismo. Não houve apenas erro. Houve vaidade institucional desmedida, adesão coletiva a um clima de época em que destruir reputações parecia demonstração de virtude cívica.
Anos depois, a absolvição não devolve o que foi perdido, a vida de Cancellier, a serenidade dos professores acusados. Não apaga a humilhação pública, o medo, a solidão, o adoecimento, a marca deixada nos filhos e nas famílias.
Mas deixa uma lição: quando o combate ao crime abandona o direito, já não combate apenas o crime. Passa a produzir suas próprias vítimas. E, quando isso ocorre sob aplausos, manchetes e câmeras de televisão, a banalidade do mal deixa de ser conceito filosófico. Torna-se rotina administrativa.
Fábio de Oliveira Ribeiro
2 de agosto de 2026 1:46 pmSujo Moro e Deltan Dellagnol seguem se apresentando no Facebook usando camisetas dando a entender que são os heróis da Lava Jato que prenderam Lula. Brasília teria soltado um ladrão e nao corrigido os imensos abusos que ambos cometeram. A falta de punição de ambos e dos caras da PF, MPF e da Justiça Federal que causaram a morte do reitor Luiz Carlos Cancellier é sem dúvida o maior problema do Brasil. Um incentivo para a ressurgência do Lavajatismo nas últimas semanas.
Edson
2 de agosto de 2026 2:38 pmNinguém vai destruir as sementes democráticas plantadas , sequer os ouvidos moucos dessas almas tristes que habitam os corredores os porões onde os sonhos ainda resistem. Marielli vive… Cancellier vive…
Veritas
2 de agosto de 2026 3:42 pmUma sociedade em que o entretenimento é mais importante que a sabedoria da teologia, da filosofia e da ciência, onde não há mais afirmações verdadeiras ou falsas, onde tudo é narrativa válida, evidentemente os que possuem o pseudopoder de prejulgar encontram muitas brechas para distorcerem fatos e produzirem violências e maldades impunemente. Que a consciência de cada um se reforce e freie os cachorros fascistas, próprios e dos outros, e possamos viver na ética e na paz divina.
Paulo Dantas
2 de agosto de 2026 3:50 pmTem uns trés ou quatro fãs da Lavajato entre os candidatos a presidente.
Nasceu de uma cultura de que tudo que vinha do Estado era desperdício, corrupção etc.
Jose carlos lima
2 de agosto de 2026 3:54 pmSe há uma coisa a qual as pessoas e Instituições tem muito medo de enfrentar ê a falsa acusação
Inclusive no âmbito da Lei Maria da Penha
o que ocorre?
Acusar falsamente virou coisa banal, quando se descontar que a acusação era falsa, fica por isso mesmo, os erros judiciais também são impunes
Porque será
Alguém me explica?
Quem ganha com a falsa acusação que, há 30 anos, quando do caso Escola Base, já deveria ter sido freada através de pesadas penas, bem como indenização as vítimas de falsa acusação e erros judiciais: só que não
Todos fazem cara de paisagem, tanto a direita como a esquerda e demais espectros políticos
Aliás, quem faz falsa acusação termina por ser premiado com cargos puplicos e aplausos: Miro, a delegada Érika Marenacda falsa acusação contra Cancellier,,,,
Enfim, aí um crime hediondo que compensa, viu
JuzéPontoMarcelo
2 de agosto de 2026 3:54 pmPoucos dão ouvidos nos deixando roucos nas mãos dedtes loicos,para quê tanta difamação e perseguição q ma intenção mas PODE DEIXAR q aqui tem cabra bâo !!!
João de Deus
3 de agosto de 2026 9:59 amO pior em tudo isso é que os crimes “oficiais” se sucedem sem que ninguém seja punido. Com CNJ e CNMP funcionando como associações de amigos, Judiciário e MP viraram um antro de incompetência e impunidade.
Ronaldo Marinho
3 de agosto de 2026 11:54 amBom dia, prezado Nassif!
Sempre muito proveitoso ler seus artigos!
Lembro que recentemente escrevi um artigo que foi publicado pela revista Conjur (https://conjur.com.br/2025-mai-19/8-de-janeiro-a-metamorfose-do-individuo-na-psicologia-das-massas-e-a-analogia-do-pateta-2/), em que fiz um paralelo entre o ocorrido no 8 de janeiro, o curta-metragem de 1950 Motor Mania (do Pateta), acarado nas lições de Gustave Le Bom, em Psicologia das Massas, tentando explicar como pessoas que, em outras circunstâncias, sozinhas, condenariam a ilegalidade, tenham participado das tais ações do 8 de janeiro?
A resposta está na psicologia das massas descrita por Le Bon. Diz ele:
“Várias causas determinam o aparecimento de características especiais nas massas. A primeira é que o indivíduo numa massa adquire, apenas pelo fator número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, certamente refrearia. Quanto mais anónima for a massa, e consequentemente irresponsável, maior será a cedência voluntária doo sentimento de responsabilidade, que sempre acaba por travar os indivíduos, e que aqui desaparece completamente.
Uma segunda causa, o contágio mental, também intervém nas massas e, ao mesmo tempo, a sua orientação. O contágio é um fenômeno fácil de constatar, mas que ainda não explicado e que é preciso ligar aos fenómenos de ordem hipnótica que também iremos abordar. Numa massa, todos os sentimentos, todos os actos são contagiosos, a ponto de levar o indivíduo a sacrificar muito facilmente o interesse pessoal ao interesse colectivo. Esta é uma atitude contrária à sua natureza, que o homem não é capaz de tomar a não ser quando faz parte de uma massa.
Uma terceira causa, e de longe a mais importante, determina as características especiais dos indivíduos numa massa, por vezes claramente opostas às do indivíduo isolado. Falo da sugestibilidade, da qual o contágio mencionado anteriormente não constitui senão um efeito”
Portanto, no caso da finada lava-jato e suas ramificações a situação é a mesma, pois tudo “Foi um estado de espírito, um paroxismo que contaminou procuradores, policiais, juízes, jornalistas, políticos e parte expressiva da opinião pública”, criando, assim, “uma fogueira inquisitorial em que qualquer cautela jurídica era tratada como cumplicidade com o crime; qualquer dúvida, como defesa da corrupção; qualquer garantia individual, como obstáculo à purificação nacional”.
Houve, com isso, o emburrecimento coletivo!
É isso!
Att., Ronaldo Marinho
RONALDO MARINHO
3 de agosto de 2026 12:00 pmBom dia, prezado Nassif!
Sempre muito proveitoso ler seus artigos!
Lembro que recentemente escrevi um artigo que foi publicado pela revista Conjur (https://conjur.com.br/2025-mai-19/8-de-janeiro-a-metamorfose-do-individuo-na-psicologia-das-massas-e-a-analogia-do-pateta-2/), em que fiz um paralelo entre o ocorrido no 8 de janeiro, o curta-metragem de 1950 Motor Mania (do Pateta), acarado nas lições de Gustave Le Bon, em Psicologia das Massas, tentando explicar como pessoas que, em outras circunstâncias, sozinhas, condenariam a ilegalidade, tenham participado das tais ações do 8 de janeiro?
A resposta está na psicologia das massas descrita por Le Bon. Diz ele:
“Várias causas determinam o aparecimento de características especiais nas massas. A primeira é que o indivíduo numa massa adquire, apenas pelo fator número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, certamente refrearia. Quanto mais anónima for a massa, e consequentemente irresponsável, maior será a cedência voluntária doo sentimento de responsabilidade, que sempre acaba por travar os indivíduos, e que aqui desaparece completamente.
Uma segunda causa, o contágio mental, também intervém nas massas e, ao mesmo tempo, a sua orientação. O contágio é um fenômeno fácil de constatar, mas que ainda não explicado e que é preciso ligar aos fenómenos de ordem hipnótica que também iremos abordar. Numa massa, todos os sentimentos, todos os actos são contagiosos, a ponto de levar o indivíduo a sacrificar muito facilmente o interesse pessoal ao interesse colectivo. Esta é uma atitude contrária à sua natureza, que o homem não é capaz de tomar a não ser quando faz parte de uma massa.
Uma terceira causa, e de longe a mais importante, determina as características especiais dos indivíduos numa massa, por vezes claramente opostas às do indivíduo isolado. Falo da sugestibilidade, da qual o contágio mencionado anteriormente não constitui senão um efeito”
Portanto, no caso da finada lava-jato e suas ramificações a situação é a mesma, pois tudo “Foi um estado de espírito, um paroxismo que contaminou procuradores, policiais, juízes, jornalistas, políticos e parte expressiva da opinião pública”, criando, assim, “uma fogueira inquisitorial em que qualquer cautela jurídica era tratada como cumplicidade com o crime; qualquer dúvida, como defesa da corrupção; qualquer garantia individual, como obstáculo à purificação nacional”.
Houve, com isso, o emburrecimento coletivo!
É isso!
Att., Ronaldo Marinho
Frederico Firmo
4 de agosto de 2026 7:32 pmA história do carteiro não se encerra apenas no ataque claramente classista. Usaram um estereótipo social para pavimentar um caminho para a condenação e execração pública dos acusados. A primeira menção pública do carteiro dizia que o carteiro recebia bolsa como tutor no curso de Física. Isto não foi um erro, assim como a quantia de 80 milhões, não foi um erro, foi cuidadosamente planejado para que a acusação de malversação das bolsas se tornasse óbvia. O carteiro era a mensagem de que a operação se justificava. No imaginário popular não se conjuga carteiro com mecânica quântica, a física é para poucos. A menção ao carteiro é colocada para excitar os baixos instintos , excitar os preconceitos, excitar aquelas imagens que todos consideram óbvias. O carteiro, era na verdade um funcionário dos correios, com graduação em administração e era aluno da pós graduação , tinha todos os requisitos e era um tutor do curso de Administração. Estas informações estavam em mãos do MP e da PF e do setor de propaganda da Força Tarefa. A manipulação e a construção de uma narrativa pela Força Tarefa não é ocasional, é uma atividade central. É assim que se pavimenta a história para condenar e permanecer nos holofotes da mídia. Quase ninguém sabe, quem é de fato o carteiro, mas se tornou para alguns uma metáfora da mal versação do dinheiro público e para outros a manifestação bruta dos preconceitos. Para a força tarefa o carteiro e apenas um instrumento de convencimento
Ateu Nuante
8 de agosto de 2026 9:42 amTentam construir uma Ditadura TEOCRATICA, como no Irã.
A Lavanderia Geral empoderou as Igrejas Evangélicas ao extremo. São isentos de impostos, e não prestam contas de nada.
Tomaram o Congres$$o.