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O ativismo identitário e a universidade
por Luis Felipe Miguel
Na série de debates que encenou com o autor ultrarreacionário e teórico da conspiração Dinesh D’Souza, no início dos anos 1990, Stanley Fish ridiculariza a ideia de que os campi das universidades dos Estados Unidos estavam sendo tomados por hordas de ativistas, que impunham sua agenda – na época, chamada de “multicultural” ou “politicamente correta” – em detrimento de valores acadêmicos consolidados. Uma visão exagerada, unilateral, destinada a gerar pânico e deslegitimar vozes emergentes. Da sua posição de professor de literatura, Fish desmonta balelas como a de que A cor púrpura, o livro de temática antirracista da escritora Alice Walker, seria mais estudado nas universidades do que a obra de Shakespeare.

Muita água passou debaixo da ponte, tanto lá quanto aqui no Brasil, desde então. Nos Estados Unidos, hoje são os aliados do senhor D’Souza que estão com a faca e o queijo na mão. É a extrema-direita que representa a ameaça principal à liberdade nas universidades. As políticas de diversidade, equidade e inclusão ruíram com o primeiro sopro do lobo mau, tal como a choça do porquinho menos precavido. Aliás, este fato é suficiente para colocar em xeque a visão de Fish, de que os grupos dominados devem se impor pela força bruta, quando ganham influência política, sem se preocupar em justificar suas demandas em termos de valores universalizáveis, mas esta é uma discussão para outro momento.
No Brasil, a universidade sofre pressões de todos os lados. A direita hidrófoba a acusa de “doutrinadora”, o privatismo a pressiona incessantemente. Não, o ativismo dos grupos identitários que tentam impor sua nova ortodoxia a ferro e fogo não é a única, nem mesmo a maior ameaça à universidade.
Nem por isso suas investidas deixam de ser perniciosas. Dois episódios recentes, dessemelhantes entre si, mas tendo em comum esse pano de fundo, são ilustrativos, expondo o mal-estar nas universidades brasileiras, causado por grupos que tentam instrumentalizar seus espaços em favor de agendas que, sob o manto de uma retórica emancipatória, servem a disputas de poder.
O fato de que foram recebidos com o silêncio, em vez do repúdio, de grande parte dos intelectuais “progressistas” é a prova do quanto são poderosos a intimidação, o cancelamento, o amordaçamento da crítica.
Refiro-me aos casos da doutoranda da UFSC, que foi proibida de levar adiante a sua tese, e do funcionário da UFPB, condenado a um ano de prisão por cumprir suas obrigações profissionais.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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