Brasil, o país dos gramados abertos
por Felipe Bueno
Renderam polêmica para além da bolha do futebol as declarações dos (ex?) técnicos brasileiros Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira sobre a presença de profissionais estrangeiros no nosso país. Vale pensar um pouco o debate do ponto de vista da nossa tradição de potência em soft power.
A camisa amarela, atualmente bastante desbotada, sustenta sua fama e sua admiração no planeta do futebol como símbolo de um interminável estoque de atletas para abastecer os mercados mais ricos – especialmente a Europa, a vitrine mais desejada por qualquer moleque ou menina que chuta bola desde criança.
Se isso sempre ocorreu e provavelmente sempre ocorrerá dentro das quatro linhas, o inverso se dá nas áreas técnicas. O Brasil exporta commodities; não teoria, nem massa crítica. Em português claro, nossos técnicos têm importância perto de zero; são irrelevantes nas discussões mundiais sobre 4-1-4-1 ou linhas altas e baixas de marcação.
Não é coincidência que o treinador mais vencedor no país atualmente seja europeu, com a vantagem adicional de falar a língua mãe. Vizinhos argentinos já circulam com tranquilidade por aqui, com variados níveis de sucesso. O mais recente paradigma derrubado foi a entrega do cargo de técnico da seleção brasileira a outro europeu – no caso, um italiano.
Para além da deselegância de Leão e Oliveira, que não são pioneiros na defesa da reserva de mercado, chama a atenção a falta de argumentos na defesa de nossa brava gente. É, literalmente, um papo de arquibancada, uma torcida que segue se apoiando no lado sobrenatural da modalidade para ter razão.
Como estaria o mundo do futebol se na Inglaterra, na Itália, na Espanha, em Portugal e outros países-mercados, jogadores, torcedores e imprensa resolvessem tomar medidas contra os atletas brasileiros?
E há outro ponto que deixa a discussão ainda mais patética: tanto Leão quanto Oswaldo de Oliveira foram estrangeiros em algum ponto da carreira. Ou seja, de acordo com os próprios critérios atuais deles, poderiam (mereceriam) ser cancelados antes de chegar ao aeroporto.
A quem achar o futebol desimportante, como já escrevi aqui, recomenda-se a leitura de Eduardo Galeano, Albert Camus e Pier Paolo Pasolini, entre outros. Esse microcosmo da humanidade está sempre pronto para nos ensinar sobre as relações entre gentes e povos. Uma permanente fábrica de emoções e de dinheiro, uma máquina de moto perpétuo de fabricação e destruição de ídolos e pessoas.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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