O futuro não se compra
Por que as grandes potências voltaram a investir em universidades, empresas estratégicas, engenharia e conhecimento.
Oportunidades Perdidas – Três ensaios sobre conhecimento, inovação e soberania
por Celso P. de Melo
“O progresso científico é uma das chaves essenciais para nossa segurança,
nossa saúde e nossa prosperidade.”
Vannevar Bush (1945) [1].
Este artigo conclui uma série de três ensaios dedicada a compreender como as nações constroem sua capacidade de aprender, inovar e produzir prosperidade.
No primeiro, mostrei que empresas estratégicas são muito mais do que unidades produtivas: constituem ecossistemas permanentes de aprendizagem e inovação. No segundo, ampliei essa ideia para a escala nacional, discutindo como países constroem – ou deixam de construir – as capacidades científicas, tecnológicas e institucionais que sustentam seu desenvolvimento [2, 3]. Este último ensaio completa essa trajetória ao mostrar que a própria competição entre as grandes potências passou a ocorrer em torno da construção dessas capacidades. É por isso que universidades, engenheiros, empresas estratégicas e conhecimento voltaram a ocupar um lugar central nas estratégias de desenvolvimento e de segurança nacional.
Como se constrói o futuro no século XXI
Durante boa parte das últimas décadas, acreditou-se que uma das mais antigas questões da história econômica havia finalmente encontrado uma resposta. A abertura dos mercados, a expansão das cadeias globais de produção e a circulação internacional de capitais alimentaram a expectativa de que a prosperidade dependeria cada vez menos da capacidade de cada país produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e manter uma base científica e industrial própria [4]. Bastaria integrar-se ao comércio internacional, atrair investimentos, importar tecnologias e concentrar esforços nas atividades em que cada economia apresentasse maior eficiência.
Durante algum tempo, essa expectativa pareceu confirmar-se. A produção fragmentou-se entre dezenas de países, as empresas dispersaram suas cadeias produtivas por diferentes continentes e a própria ideia de uma estratégia nacional de desenvolvimento perdeu espaço diante da promessa de uma economia global cada vez mais integrada.
Hoje, porém, o cenário mudou profundamente. Estados Unidos, China, União Europeia, Japão, Coreia do Sul e Índia passaram a investir centenas de bilhões de dólares em semicondutores, inteligência artificial, computação de alto desempenho, minerais críticos, biotecnologia, energia, infraestrutura digital e manufatura avançada. Universidades, laboratórios nacionais, empresas estratégicas, bancos públicos de desenvolvimento e políticas industriais voltaram ao centro das estratégias das maiores economias.
À primeira vista, essa mudança poderia ser interpretada apenas como resposta às tensões geopolíticas recentes, à pandemia de COVID-19 ou à rápida ascensão tecnológica da China. Este artigo propõe outra interpretação. Talvez estejamos assistindo não ao nascimento de uma nova estratégia de desenvolvimento, mas ao reconhecimento de uma realidade que nunca deixou de existir: nenhuma nação produz tecnologias de fronteira sem construir, ao longo de décadas, as capacidades científicas, tecnológicas, industriais e institucionais que tornam essa inovação possível.
É por isso que as grandes potências voltaram a investir deliberadamente em universidades, engenharia, empresas estratégicas e conhecimento. No fundo, voltaram a investir na capacidade de construir o futuro.
A nova corrida estratégica
Se a competição econômica do século XX era frequentemente associada ao controle de territórios, recursos naturais e mercados consumidores, a do século XXI deslocou-se para um terreno muito menos visível: a capacidade de produzir conhecimento, desenvolver tecnologias e transformar inovação em poder econômico [5]. Todos esses fatores continuam importantes, mas já não bastam para explicar a competição entre as grandes potências.
Hoje ela ocorre em um nível mais profundo: envolve a capacidade de formar pesquisadores, atrair talentos, desenvolver tecnologias críticas, controlar cadeias produtivas complexas e converter descobertas científicas em inovação, produtividade e poder econômico.
Por isso, governos passaram a disputar a localização de fábricas de semicondutores, grandes centros de pesquisa, infraestrutura digital, inteligência artificial, minerais críticos e cadeias produtivas de baterias avançadas. Não se trata apenas de fabricar chips, veículos elétricos ou sistemas de inteligência artificial, mas de controlar os ambientes em que nascerão as próximas gerações de tecnologias.
Essa é talvez a mudança mais importante da economia contemporânea. Durante muito tempo imaginamos que as nações competiam principalmente para vender produtos. Hoje, competem para construir os ecossistemas capazes de criar os produtos que ainda não existem [6].
Quando a inovação se torna o principal fator de competitividade, universidades deixam de ser apenas instituições de ensino e passam a integrar a infraestrutura estratégica de um país. É nas empresas que boa parte desse conhecimento se transforma em engenharia, produtos, processos e novas competências. Por isso, elas constituem um componente indispensável da infraestrutura invisível descrita neste ensaio.
Empresas tornam-se espaços permanentes de formação de competência tecnológica; laboratórios convertem-se em ativos de segurança nacional; e políticas industriais deixam de funcionar apenas como mecanismos de proteção setorial para assumir um papel de coordenação na formação de capacidades consideradas decisivas para o futuro.
É essa transformação que ajuda a explicar por que países com histórias, sistemas políticos e modelos econômicos tão distintos convergiram, nas últimas décadas, para uma estratégia surpreendentemente semelhante: investir deliberadamente na construção de capacidades nacionais.
A infraestrutura invisível do século XXI
À primeira vista, a corrida tecnológica contemporânea parece concentrar-se em produtos específicos: semicondutores, inteligência artificial, baterias, computadores quânticos, biotecnologia ou minerais críticos. Essa impressão, embora compreensível, pode ser enganosa.
Nenhuma dessas tecnologias nasce isoladamente. Todas dependem de uma infraestrutura muito mais ampla e menos visível, formada por universidades, centros de pesquisa, empresas inovadoras, laboratórios nacionais, programas de pós-graduação, engenheiros, cientistas, fornecedores especializados, investidores, sistemas de financiamento e instituições capazes de transformar conhecimento em inovação [7, 8].
Essa infraestrutura raramente aparece nas estatísticas econômicas tradicionais ou nos balanços patrimoniais das empresas. Ainda assim, é ela que determina a velocidade com que um país aprende, incorpora novas tecnologias e cria sucessivas gerações de produtos, processos e empresas.
Essa talvez seja a principal mudança de perspectiva do século XXI. Durante muito tempo, o conhecimento foi tratado como mais um fator de produção. Hoje, é reconhecido como uma infraestrutura estratégica, indispensável não apenas ao crescimento econômico, mas também à segurança, à autonomia tecnológica e à soberania nacional.
Em 1944, quando a Segunda Guerra Mundial ainda não havia terminado, o presidente Franklin D. Roosevelt encarregou Vannevar Bush – engenheiro e principal coordenador civil do esforço científico norte-americano – de responder a uma pergunta decisiva: como preservar, em tempos de paz, a extraordinária capacidade científica mobilizada durante o conflito? A resposta foi o relatório “Science, the Endless Frontier”(1945), que lançou as bases da política científica dos Estados Unidos ao defender o investimento contínuo em pesquisa básica, universidades e formação de recursos humanos como fundamentos da prosperidade, da inovação e da segurança nacional [1].
Décadas mais tarde, Mariana Mazzucato retomou, sob outra perspectiva, a mesma questão formulada por Bush: quem constrói as capacidades que tornam possíveis as grandes revoluções tecnológicas? Se as tecnologias que transformaram o século XX nasceram de investimentos públicos de longo prazo, faria sentido imaginar que os mercados, sozinhos, produziriam as competências necessárias às próximas revoluções? Sua resposta devolveu protagonismo às instituições capazes de coordenar missões de longo prazo, articulando universidades, empresas, centros de pesquisa e políticas públicas em torno da construção de novas capacidades [5].
Mais de oitenta anos depois, é exatamente essa arquitetura institucional que os Estados Unidos, a China e a União Europeia procuram fortalecer. A Fig. 1 sintetiza essa lógica. Em vez de tratar universidades, centros de pesquisa, empresas, financiamento e políticas públicas como elementos isolados, ela mostra como sua interação forma um ecossistema nacional de aprendizagem capaz de transformar conhecimento em prosperidade.

Universidades, empresas, laboratórios e instituições de financiamento, antes tratados como componentes independentes das políticas de ciência, tecnologia e desenvolvimento, passaram a ser compreendidos como partes de uma mesma infraestrutura estratégica. É da interação contínua entre esses atores que surgem as competências capazes de gerar sucessivas ondas de tecnologias, empresas e mercados.
Naturalmente, desenvolver essas competências não garante, por si só, o sucesso tecnológico. Estratégias mal coordenadas, escolhas equivocadas ou mudanças abruptas de rumo podem consumir décadas de investimentos com resultados limitados. Ainda assim, nenhuma sociedade alcançou liderança tecnológica duradoura sem desenvolver essa infraestrutura de aprendizagem.
Essa perspectiva ajuda a explicar por que países tão distintos passaram a fortalecer deliberadamente os ecossistemas que sustentam a produção contínua de conhecimento e inovação. A competição deixou de se concentrar apenas nos mercados existentes e passou a se voltar para a capacidade de criar os mercados do futuro.
Quando todos voltaram a construir capacidades
Se a primeira década do século XXI ainda preservava muitas das expectativas da globalização, a segunda produziu uma sucessão de acontecimentos que alterou profundamente essa percepção.
A crise financeira internacional de 2008 revelou a fragilidade de sistemas produtivos excessivamente dependentes de cadeias globais dispersas. A pandemia de COVID-19 expôs os riscos da concentração da produção de medicamentos, equipamentos médicos e semicondutores em um número reduzido de países. Pouco depois, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China transformou semicondutores, inteligência artificial, computação avançada e minerais críticos em temas centrais da geopolítica contemporânea [9].
As grandes economias reagiram rapidamente. Os Estados Unidos aprovaram o CHIPS and Science Act, destinado a reconstruir sua capacidade de produção de semicondutores e fortalecer a pesquisa científica, e o Inflation Reduction Act, que mobiliza centenas de bilhões de dólares para acelerar investimentos em energias limpas, manufatura avançada e tecnologias estratégicas. A União Europeia respondeu com o European Chips Act, o Critical Raw Materials Act e a European Economic Security Strategy, voltados ao fortalecimento da indústria de semicondutores, à redução da dependência de minerais críticos e à integração entre inovação, comércio e segurança econômica [10]. A China intensificou investimentos em semicondutores, inteligência artificial, computação quântica e manufatura avançada, enquanto Japão, Coreia do Sul e Índia seguiram caminhos semelhantes, adaptando essas políticas às suas prioridades nacionais.
À primeira vista, essas iniciativas podem parecer bastante diferentes entre si. Na realidade, todas partem do mesmo diagnóstico: nenhuma grande potência acredita que tecnologias estratégicas possam depender exclusivamente dos mecanismos de mercado ou da organização espontânea das cadeias globais de produção.
Mais do que produzir chips, baterias ou sistemas de inteligência artificial, essas políticas procuram construir os ambientes em que nascerão as tecnologias do futuro. Nesse contexto, a descarbonização deixou de ser apenas um objetivo ambiental para tornar-se uma das principais missões contemporâneas de construção de capacidades científicas, tecnológicas e industriais. Essa é talvez a principal diferença em relação às políticas industriais do século XX. O objetivo já não é proteger setores maduros, mas sim acelerar processos permanentes de construção de conhecimento.
Essa redescoberta não surgiu apenas dos governos. Ela também foi impulsionada por pesquisadores que passaram a questionar algumas das premissas da globalização. Entre eles, Gary Pisano chamou atenção para um problema que muitos formuladores de políticas haviam subestimado. Ao observar a transferência contínua de atividades manufatureiras para o exterior, concluiu que os Estados Unidos não estavam perdendo apenas fábricas, mas parte das competências acumuladas no próprio processo de produzir. Sua conclusão era simples e inquietante: quando a manufatura desaparece, desaparece também uma parte importante da capacidade de inovar [6].
Essa constatação ajudou a explicar por que governos passaram a reconsiderar políticas industriais que, poucos anos antes, pareciam definitivamente superadas.
A competição deixou de ser por produtos
Quando a aprendizagem passa a ser o principal ativo econômico, a própria natureza da competição entre as nações se transforma.
Durante boa parte do século XX, a força econômica de um país era medida pela quantidade de aço que produzia, pelos automóveis que fabricava, pelo petróleo que extraía ou pelo volume de suas exportações. Esses indicadores continuam importantes. Mas já não revelam onde se trava a disputa decisiva do século XXI.
Hoje, a competição começa muito antes do lançamento de um novo produto. Ela se inicia na capacidade de formar pesquisadores, fortalecer universidades, consolidar centros de pesquisa e criar empresas capazes de transformar conhecimento em inovação. O verdadeiro objeto da competição deixou de ser o produto final e passou a ser a capacidade permanente de gerar sucessivas gerações de novos produtos.
Nenhum país desenvolve continuamente semicondutores, medicamentos, sistemas de inteligência artificial ou tecnologias energéticas apenas porque domina uma técnica específica. O que sustenta essa capacidade é um ecossistema de aprendizagem no qual universidades, empresas, laboratórios, investidores e instituições públicas acumulam conhecimentos que se reforçam mutuamente [2,3]. Por isso, as políticas tecnológicas passaram a envolver muito mais do que incentivos à produção. Elas incluem infraestrutura científica e computacional, financiamento de longo prazo, proteção da propriedade intelectual, fornecedores especializados e instituições capazes de coordenar esses diferentes elementos [5].
Essa transformação torna-se particularmente evidente quando comparamos as estratégias tecnológicas adotadas por Taiwan e pela China.
Depois de uma longa carreira na Texas Instruments, Morris Chang aceitou, aos 56 anos, o desafio de criar, em Taiwan, uma empresa dedicada exclusivamente à fabricação de semicondutores para outras companhias. A decisão parecia contrariar a lógica da época. Em vez de competir em toda a indústria eletrônica, Taiwan concentrou seus esforços em dominar o elo mais sofisticado da cadeia global de produção de chips. Ao longo das décadas seguintes, universidades, institutos de pesquisa, governo e empresas atuaram de forma coordenada para consolidar essa estratégia, transformando a TSMC na principal fabricante mundial de semicondutores sob encomenda.
A China percorreu um caminho diferente. Quando Ren Zhengfei fundou a Huawei, em 1987, a empresa chinesa era uma pequena fornecedora de equipamentos de telecomunicações, distante da fronteira tecnológica mundial. Em vez de apostar na especialização em um único segmento, a estratégia chinesa buscou ampliar continuamente suas capacidades em pesquisa, engenharia e desenvolvimento tecnológico. Durante décadas, a Huawei investiu intensamente na formação de engenheiros, em pesquisa própria e na acumulação de competências científicas e industriais, tornando-se uma das principais empresas globais de telecomunicações e tecnologias digitais.
As estratégias foram distintas, mas convergiram para a mesma lógica. Nem Taiwan nem a China alcançaram posições de destaque apenas porque criaram empresas bem-sucedidas. O sucesso da TSMC e da Huawei foi consequência de décadas de investimentos coordenados em educação, pesquisa, engenharia, instituições e políticas públicas voltadas para a construção de capacidades tecnológicas. Taiwan tornou-se um elo indispensável da indústria global de semicondutores; a China consolidou competências que hoje sustentam sua presença competitiva em diversos setores estratégicos. Em ambos os casos, a vantagem competitiva não nasceu espontaneamente do mercado: foi construída deliberadamente ao longo do tempo.
Talvez essa seja a transformação mais profunda da economia contemporânea. No século XX, a vantagem competitiva era medida pelas fábricas que um país possuía. No século XXI, ela passa a ser determinada pela capacidade de construir as pessoas, as instituições e os ecossistemas que tornarão possíveis as fábricas do futuro.
O Brasil precisa reconstruir ou reconectar?
Essa mudança de perspectiva ajuda também a recolocar o debate brasileiro em novos termos.
Durante muitos anos, tornou-se frequente afirmar que o país havia perdido sua capacidade industrial e tecnológica. A constatação contém parte da verdade, mas talvez conduza à pergunta errada. Mais importante do que medir o que o Brasil perdeu é compreender o que ainda conserva.
Poucos países reúnem, ao mesmo tempo, um sistema nacional de pós-graduação consolidado, universidades públicas de excelência, instituições como Embrapa, Fiocruz, Petrobras, Embraer e WEG, uma matriz elétrica predominantemente renovável, liderança em agricultura tropical, competências em exploração offshore, biodiversidade incomparável e reservas expressivas de minerais críticos.
Esses ativos, porém, raramente funcionam como partes de uma mesma estratégia nacional. Em vez de formar um ecossistema integrado de inovação, frequentemente permanecem como ilhas de excelência separadas por barreiras institucionais.
Isso significa articular universidades, empresas, centros tecnológicos, bancos públicos de desenvolvimento, agências de fomento e políticas industriais em torno de objetivos comuns e de uma estratégia de longo prazo. É essa coordenação que transforma ativos dispersos em um ecossistema nacional de aprendizagem e inovação.
Essa diferença é decisiva. Países que precisam começar do zero enfrentam um desafio muito maior. O Brasil já dispõe de uma base expressiva de competências; falta transformá-la em um projeto nacional coerente. E é justamente essa capacidade de coordenação que as maiores economias do mundo voltaram a tratar como um ativo estratégico.
Talvez o principal desafio brasileiro já não seja reconstruir capacidades, mas reconectar aquelas que o próprio país acumulou ao longo de décadas [7].
O verdadeiro patrimônio das nações
Ao longo desta série procurei defender uma ideia simples.
O verdadeiro patrimônio de uma nação não se mede apenas por suas reservas minerais, pelo tamanho de seu mercado interno ou pelo volume de suas exportações. Tampouco se resume ao número de fábricas, laboratórios ou universidades que ela possui. Tudo isso é importante, mas constitui apenas a parte visível de um patrimônio muito mais profundo.
O que realmente distingue as sociedades capazes de renovar continuamente sua prosperidade é a habilidade de materializar conhecimento em novas competências, formar pessoas, enfrentar problemas inéditos, desenvolver tecnologias, criar empresas e reorganizar permanentemente sua estrutura produtiva diante de novos desafios [2].
É esse processo que explica por que algumas economias atravessam sucessivas revoluções tecnológicas sem perder protagonismo, enquanto outras permanecem especializadas em atividades cujo valor diminui à medida que o conhecimento avança.
Recursos naturais podem ser extraídos. Fábricas podem ser transferidas. Tecnologias tornam-se obsoletas. Até empresas desaparecem.
O que permanece é a capacidade de uma sociedade produzir conhecimento, formar engenheiros, construir instituições sólidas e conectar ciência, tecnologia e produção. Quando isso acontece, ela desenvolve uma competência muito mais valiosa do que qualquer produto específico: aprende a reinventar continuamente sua própria economia [8].
Talvez essa seja a maior riqueza das nações no século XXI.
A pergunta que nunca deixou de existir
No início deste artigo formulei uma pergunta aparentemente simples: como se constrói o futuro de uma nação?
Durante algum tempo acreditou-se que a resposta estivesse principalmente na abertura dos mercados, na livre circulação de capitais e na integração às cadeias globais de produção. Esses fatores continuam importantes, mas já não são suficientes.
As maiores economias do mundo parecem ter compreendido que prosperidade, autonomia e segurança dependem também de uma infraestrutura muito menos visível: universidades, centros de pesquisa, empresas inovadoras, engenheiros, cientistas, instituições de financiamento e políticas capazes de converter conhecimento em vantagem competitiva [1, 7].
Talvez seja por isso que governos tão diferentes passaram a disputar exatamente os mesmos ativos. Compreenderam que a verdadeira riqueza de uma nação não é aquilo que ela produz hoje, mas sua capacidade permanente de criar aquilo que ainda não existe.
Ao longo desta série procurei defender uma ideia simples. Empresas não produzem apenas bens e serviços; formam pessoas, acumulam conhecimento e ampliam competências. Países fazem o mesmo. É essa capacidade permanente de aprender, inovar e transformar conhecimento em novas capacidades que, em última instância, sustenta sua prosperidade, autonomia e soberania.
O futuro não é uma mercadoria.
Não pode ser importado.
Não pode ser terceirizado.
Nem comprado.
Ele é construído, geração após geração, por sociedades que transformam conhecimento em capacidade de criar.
Nenhuma sociedade controla o futuro.
Mas aquelas que investem continuamente em aprender são as que acabam construindo o futuro dos outros – e o seu próprio.
No fim, a maior riqueza de uma nação não é aquilo que ela possui, e sim o que ela é capaz de aprender a construir.
Bibliografia
1. Bush, V., Science, the Endless Frontier. 1945, United States Government Printing Office: Washington, DC.
2. Lall, S., Technological Capabilities and Industrialization. World Development, 1992. 20(2): p. 165–186.
3. Rosenberg, N., Inside the Black Box: Technology and Economics. 1982, Cambridge: Cambridge University Press.
4. Baldwin, R., The Great Convergence: Information Technology and the New Globalization. 2016, Cambridge, MA: Harvard University Press.
5. Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private Sector Myths. 2013, London: Anthem Press.
6. Pisano, G.P. e W.C. Shih, Producing Prosperity: Why America Needs a Manufacturing Renaissance. 2012, Boston: Harvard Business Review Press.
7. National Systems of Innovation: Towards a Theory of Innovation and Interactive Learning. 1992, Pinter Publishers: London.
8. National Innovation Systems: A Comparative Analysis. 1993, Oxford University Press: New York.
9. International Energy Agency, Global Critical Minerals Outlook 2024. 2024, International Energy Agency: Paris.
10. European Commission, The Future of European Competitiveness. 2024, Publications Office of the European Union: Luxembourg.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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