10 de junho de 2026

Niagara e o Desalinhamento do Ocidente, por Maria Luiza Falcão

Reunião do G7 em Niagara-on-the-Lake expõe desalinhamento do Ocidente, com EUA isolados de aliados devido a operações militares no Caribe.
Reprodução

1. Reunião do G7 em Niagara-on-the-Lake expõe desalinhamento do Ocidente, com EUA isolados de aliados devido a operações militares no Caribe.

2. Críticas de países europeus e suspensão de cooperação militar por parte da Colômbia evidenciam tensões e rachaduras no G7, com Trump testando limites da OTAN.

3. Brasil adota postura de não alinhamento ativo em meio a debates globais, fortalecendo cooperação diplomática e se distanciando da militarização de Trump.

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Niagara e o Desalinhamento do Ocidente

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por Maria Luiza Falcão Silva

O encontro das cataratas que expôs a solidão diplomática dos Estados Unidos

A reunião dos ministros de Relações Exteriores do G7, realizada entre 11 e 12 de novembro em Niagara-on-the-Lake, Ontário, terminou revelando algo mais profundo que divergências de ocasião: mostrou um Ocidente desalinhado, em que os Estados Unidos (EUA), sob o segundo mandato de Donald Trump, se veem isolados de seus próprios aliados.

Convocado pelo Canadá como celebração do “multilateralismo democrático”, o encontro foi ofuscado pela crise provocada pelas operações militares unilaterais dos EUA no Caribe e na América Latina — ações que não apenas violam o direito internacional, mas desafiam a lógica de cooperação que sustentou o bloco desde a Guerra Fria.

 As rachaduras do G7

O tom foi dado pelo ministro francês Jean-Noël Barrot, ao declarar, logo na abertura, que “as operações militares dos EUA na região do Caribe violam o direito internacional”. A França, que mantém territórios ultramarinos na região, viu nas ações de Washington um risco direto à estabilidade regional e à soberania dos Estados locais.

Pouco depois, vieram rumores — jamais desmentidos — de que a Grã-Bretanha suspendeu parte do intercâmbio de inteligência com os EUA, temendo envolvimento indireto em ataques ilegais. Até o anfitrião Canadá, tradicional aliado incondicional de Washington, manteve silêncio desconfortável: a ministra Anita Anand não confirmou se o tema foi oficialmente discutido, mas sua expressão durante a coletiva de encerramento dizia mais do que o comunicado diplomático.

Marco Rubio, secretario de Estado estadunidense escreveu nas redes sociais na terça-feira (11) que estava ali para trabalhar com outras nações “para dar continuidade ao nosso trabalho em prol da missão do presidente Trump de promover a paz duradoura em todo o mundo”.

A declaração pareceu estar em forte desacordo com a campanha de violência do presidente norte-americano nas águas da América Latina. Trump, por meio de seu secretário de Estado, tentou conter a crise — sem sucesso. Rubio, pressionado pelos colegas europeus, repetiu a retórica da “luta contra o narcotráfico” e da “paz pela força”, enquanto o Pentágono ampliava o número de navios de guerra e efetivos navais próximos à costa venezuelana.

O contraste entre o discurso de “paz duradoura” e as imagens de destruição na região caribenha transformou a reunião do G7 num espelho de um Ocidente dividido entre o discurso da legalidade e a prática da intervenção.

 A nova fronteira da guerra de Trump: o Caribe e a Venezuela

Os ataques norte-americanos contra embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico — com dezenas de mortos — provocaram protestos diplomáticos e reações em série. A Colômbia suspendeu a cooperação militar com Washington, alegando “imperativo de direitos humanos”, e governos caribenhos denunciaram a violação de águas territoriais.
A França e a Espanha, que ainda mantêm presença ultramarina, advertiram para o risco de “uma escalada fora de controle”.

Nos bastidores, oficiais europeus reconheceram que Trump está testando os limites da OTAN, agindo sem consulta nem coordenação. Ao deslocar 15 mil soldados para a região, o governo norte-americano sinaliza que a América Latina volta a ser, sob sua ótica, o quintal estratégico de sempre — um espaço onde o poder é exercido, não compartilhado.

Ao contrário do que Trump tenta vender à opinião pública norte-americana, essa política não fortalece o Ocidente; ela ressuscita os fantasmas da intervenção e do neocolonialismo, agora em pleno século XXI.

E em Niagara, o incômodo foi palpável: o “clube das democracias ricas” pareceu menos um bloco coeso do que um conjunto de vozes desalinhadas tentando administrar o declínio de sua autoridade moral.

O Brasil observa e se reposiciona

Enquanto o G7 discutia o futuro da segurança global às portas dos Estados Unidos, o Brasil — ausente do grupo, mas presente na agenda mundial — consolidava sua postura de não alinhamento ativo. O chanceler Mauro Vieira aproveitou a reunião paralela com Marco Rubio para reiterar a posição brasileira contra tarifas unilaterais impostas por Washington e defender o diálogo multilateral sobre segurança hemisférica.

Na prática, Lula eVieira têm feito o oposto de Trump: enquanto o americano militariza a retórica, o Brasil multiplica pontes diplomáticas. Belém (sede da COP 30), Rio de Janeiro (sede do G20) e Brasília (sede do BRICS ampliado) tornaram-se, neste 2025, os novos polos de convergência do Sul Global — onde a cooperação se sobrepõe à coerção.

A América Latina, cansada de ser palco, começa a ser ator. Niagara, paradoxalmente, reforçou essa percepção: o Ocidente debate princípios, mas o Sul produz alternativas.

O G7 diante do espelho

No fim, o comunicado final do G7 tentou esconder o mal-estar sob fórmulas genéricas: “defesa da ordem internacional baseada em regras”, “paz e prosperidade compartilhadas”, “Indo-Pacífico livre e aberto”. Palavras repetidas desde as cúpulas de chefes de Estado e de governos de Hiroshima, 2023, e Fasano, 2024 e Kananaskis  2025 — mas que já não convencem nem os que as assinam.

O mundo viu, nas cataratas de Niagara, o retrato de um Ocidente que fala em multilateralismo enquanto pratica o unilateralismo, e que invoca o direito internacional enquanto o viola nas águas caribenhas.

Em contraste, a agenda emergente — dos BRICS+, da União Africana, do Mercosul e da ASEAN — fala de soberania, desenvolvimento e clima, temas concretos que já não dependem da chancela do Atlântico Norte.

O G7 não acabou. Mas envelheceu — e Niagara foi seu espelho.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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