Desativando a máquina da guerra
por Eliseu Raphael Venturi
A máquina da guerra é veloz, barulhenta e viciante. Sua engrenagem nos oferece certezas rápidas: um inimigo nomeado, uma bandeira erguida, uma vitória imediata.
A máquina nos seduz porque dá a impressão de devolver consistência ao mundo, como se o caos pudesse ser domado pelo gesto simples de aniquilar o outro. Mas o preço dessa máquina é alto: ela consome a palavra, sequestra o desejo, estreita a realidade até reduzi-la a um visor binário.
O que se ganha quando a desativamos parece, de início, pouco atraente: silêncio, demora, hesitação, falta de espetáculo. E, no entanto, é exatamente aí que se abre a possibilidade de outro regime de vida.
Desativar a máquina é recuperar a palavra. Uma palavra que não serve mais como munição, mas como gesto de invenção, espaço de risco e criação. Quando o disparo dá lugar à frase, a linguagem deixa de ser trincheira e volta a ser lugar de convivência.
Recuperamos também a escuta: sem a urgência de contra-atacar, é possível ouvir o que não cabe no binário de amigo e inimigo, o que não se deixa reduzir a slogan. A desativação restitui o tempo, devolve-nos intervalos, pausas, hesitações. Contra a aceleração bélica, que transforma tudo em urgência e exaustão, a demora revela-se um ato de resistência para uns e sobrevivência para todos.
O ganho mais radical, porém, está no reencontro com o comum. Não um comum homogêneo, disciplinado, mas um comum plural, feito de coexistências imperfeitas, de diferenças sustentadas sem necessidade de aniquilação. Desligar a máquina é, nesse sentido, abrir espaço para que o desejo deixe de confundir-se com pulsão de morte e volte a operar como criação. Cada vez que recusamos a celebração da queda do outro, que não cedemos ao gozo do inimigo derrotado, que sustentamos a frustração de não ter a última palavra, uma pequena parte da engrenagem se desliga.
Mas a desativação não é apenas negativa. Ao suspender a máquina da guerra, abrimos campo para outras máquinas possíveis, mais frágeis, mais generosas, mais inventivas. Máquinas de escuta, que amplificam silêncios e acolhem o que não encontra voz. Máquinas de cuidado, que transformam vulnerabilidade em vínculo e não em humilhação. Máquinas de linguagem, não bélicas, mas poéticas, que desarmam pela metáfora, deslocam pela ironia, iluminam pelo riso, que enfrentam a adversidade e o conflito sem a necessidade ou finalidade de aniquilação. Máquinas de convivências. Máquinas de invenção, que ligam o desejo à criação de mundos, não à contabilidade de cadáveres.
Quanto mais desligamos a máquina da guerra, mais espaço há para essas outras máquinas florescerem. E talvez o verdadeiro ganho seja justamente esse: descobrir que a vida não precisa ser medida em batalhas vencidas ou perdidas, mas em encontros possíveis. Cada fio reconectado ao desejo de vida, cada silêncio sustentado, cada palavra poupada ao escândalo abre uma fenda no regime bélico e deixa ver que ainda há algo a ser inventado.
O risco, claro, é grande: sem o espetáculo da guerra, podemos nos sentir órfãos de intensidade, privados do gozo da vitória. Mas talvez seja aí que resida a maturidade política e psíquica do presente: suportar a falta de espetáculo, abrir mão do júbilo diante da morte e experimentar a estranha alegria de conviver, ou mesmo a de se isolar e, assim, ainda assim, viver. Desativar a máquina não é apenas um gesto técnico — é uma escolha ética. E essa escolha, quanto mais e mais se repete, mais e mais nos devolve ao que a guerra tenta nos roubar: a linguagem, a escuta, o tempo, o desejo, o comum.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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