Por menos armas e mais almas!
Profa. Dra. Ellen de Lima Souza
No mês de novembro o Brasil tem sido marcado por reflexões acerca da equidade racial na última década, inclusive, o feriado nacional de 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, é resultado de uma trajetória legislativa e social que se desenvolveu ao longo de mais de meio século, envolvendo o movimento negro, debates públicos e avanços legislativos recentes. Importante destacar que o marco para a escolha do 20 de novembro ocorreu em 1971, quando o Grupo Palmares, formado por jovens negros em Porto Alegre, propôs um dado em referência à morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do Brasil, como alternativa ao 13 de maio que não valorizava o protagonismo dos negros na abolição. Em 2003, a Lei nº 10.639/03, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em seus artigos 26A e 79 B, tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, incluindo o 20 de novembro no calendário escolar.
Contudo, no último dia 11 de novembro na EMEI Antônio Bento, localizada na região do Butantã na capital paulista, o pai de uma criança se dirigiu até a escola para demonstrar insatisfação rasgando as atividades das crianças que envolvia um mural com um desenho de Iansã, a produção do mural, foi baseada no currículo de educação antirracista da cidade de São Paulo e tendo como recurso metodológico o livro infantil Ciranda em Aruanda de autoria de Liu Olivina da editora “Quatro Cantos”, o livro têm o selo Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e faz parte do acervo oficial da rede municipal de ensino.
No dia seguinte o pai faz uma denúncia a polícia militar e a EMEI é invadida por quatro policiais armados, um deles portando metralhadora, indicavam que a denúncia recebida era: aula de religião africana sendo ministrada para as crianças. Segundo Portal da Transparência, pai de menina é soldado da 1ª Classe da Polícia Militar de São Paulo, conforme informação do portal metrópoles. A invasão dos policiais aconteceu durante o horário de funcionamento da escola, ainda com crianças e professores em atividade, os policiais permaneceram na escola por mais de uma hora e foram embora por volta das 17h com o pai da aluna. A diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira, pediu afastamento médico do cargo.
O caso provocou revolta nas famílias que têm filhos na unidade escolar. Eles se dispuseram a prestar depoimento sobre o ocorrido. O Ministério da Igualdade Racial, o Sindicato dos Profissionais da Educação, parlamentares como Sâmia Bomfim manifestaram apoio e seguem acompanham os desdobramentos do caso. Está programada a realização de um ato político e cultural no dia 25/11, terça, em defesa da EMEI Antônio Bento e também em defesa da educação antirracista, da escola pública e contra a violência policial.
Embora o relato seja autoexplicativo e um exemplo de racismo e brutalidade do cristianismo compulsório que invade o Estado brasileiro, esse episódio poderia se encaixar no documentário “Apocalipse nos trópicos” de Petra Costa, ilustrando como o apocalipse se dá na educação, cabe trazer algumas reflexões. Rasgar desenhos das crianças, ameaçar professoras, invadir um espaço “sagrado” como uma instituição de ensino acusando pessoas de ensinar religião africana é representativo do que há de mais putrefato no fascismo da cor que sistematiza o racismo brasileiro, desde quando existe a religião de um continente? Em uma cidade cujo nome é São Paulo e um dos nomes da instituição é Bento a ameaça é a “Ciranda de Aruanda” e o desenho de “Iansã”? UM SALVE A DISTOPIA!!
Que os valores civilizatórios afro-brasileiros compilados por Azoilda Trindade: a ancestralidade, oralidade, corporeidade, musicalidade, religiosidade, energia vital, cooperativismo, ludicidade, memória e circularidade possam seguir nos salvando da violência e nos embalando no colo de Iansã que se expressa nos desenhos, mas, também, nas vozes de suas filhas; como pensar um Brasil sem Elza Soares interpretando “Meu Guri”? Como reconhecer a estética nacional sem ouvir e olhar para Maria Bethania, a menina dos olhos de Oya? Imagina um mundo sem Clara Nunes e o som de Morena de Angola? Essas mulheres não deram nenhum tiro, mas com a sutileza de um furacão são as donas da alma desse país! Podem rasgar desenhos, mas não atingiram as almas que seguirão embalando nossos sonhos de um país em que a educação seja sagrada!
Valeu Zumbi !! Eparrey Iansã!!!
Profa. Dra. Ellen de Lima Souza é professora e pró-reitora adjunta de assuntos estudantis e políticas afirmativas da Unifesp e coordenadora do grupo de pesquisa LAROYÊ.
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AMBAR
21 de novembro de 2025 3:40 pmProfessora Doutora Ellen de Lima Souza, não obstante a inafastável razão para o seu protesto e a nossa comum indignação pela ignorância de nosso povo, havemos de agir em nome da sobrevivência e do bom senso. O ensino básico, cujos alunos são pessoas em formação e sem qualquer autonomia de pensamento e ação, deve respeitar as limitações de suas origens, quais sejam, as mães, os pais e os responsáveis, aqueles que dão a primeira educação ao ente humano vivo. Assim, COMO JÁ FOI ANTIGAMENTE, aqueles professos de religiões estupidificantes FICARIAM ISENTOS de assistir aulas que tratassem de religião qualquer, ainda que em prejuízo da educação básica, eis que na vida o infante terá oportunidade de conhece-las posteriormente.