25 de junho de 2026

O Poder Sem Lei, por Dora Nassif

Hoje, empresas privadas como Google, Meta, Amazon, Apple e X operam como verdadeiros centros de poder transnacional
Max Ernst

1. Big Techs operam como governos globais, influenciando bilhões de pessoas sem responsabilidades legais internacionais.

2. Plataformas digitais moldam a esfera pública global, sem regulação internacional, afetando direitos humanos e democracias.

3. Necessidade de reinventar o Direito Internacional para responsabilizar empresas de tecnologia e proteger direitos no mundo digital.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O Poder Sem Lei: Como as Big Techs Se Tornaram Governos Globais Sem Responder ao Direito Internacional

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por Dora Nassif

Nas últimas duas décadas, houve uma transformação silenciosa, porém profunda, na forma como o poder circula no mundo. Tradicionalmente, a autoridade capaz de moldar comportamentos, impor regras, controlar fronteiras e organizar o espaço público era uma prerrogativa exclusiva dos Estados. Mas isso já não é verdade. Hoje, empresas privadas como Google, Meta, Amazon, Apple e X operam como verdadeiros centros de poder transnacional, determinando o que bilhões de pessoas podem ver, dizer, compartilhar, acreditar e até desejar. Elas governam o espaço onde a vida social acontece. Governam sem serem governo. E, sobretudo, governam sem serem responsabilizáveis segundo o Direito Internacional.

Essa é a anomalia estrutural do século XXI, vivemos sob infraestruturas privadas que se tornaram essenciais ao funcionamento das democracias, mas que não são sujeitas a tratados, convenções, tribunais multilaterais ou obrigações internacionais de direitos humanos. A esfera pública global, que antes se articulava em instituições políticas, imprensa, partidos e sociedade civil, agora depende de plataformas cujo objetivo primário não é assegurar direitos, mas maximizar lucros. Apesar disso, são elas que, na prática, organizam a comunicação política planetária.

A mudança ocorreu de modo tão orgânico que quase naturalizamos o fato de que uma empresa pode banir um presidente, moderar eleições, remover conteúdos jornalísticos, reduzir o alcance de movimentos sociais ou favorecer certos discursos por critérios comerciais. A força desse poder não deriva de tanques, exércitos ou território, deriva da capacidade de intermediar a informação, transformar dados em previsões, controlar fluxos de visibilidade e estruturar algoritmos que modulam emoções, engajamento, crenças e comportamento coletivo. Essa arquitetura informacional, descrita por autores como Shoshana Zuboff e Jack Balkin, não é neutra, ela cria incentivos, distribui privilégios, define regras e estabelece sanções. Exerce funções legislativas, executivas e judiciais, sem ser submetida aos mecanismos democráticos que tradicionalmente limitam esses poderes.

O problema é que o Direito Internacional não acompanhou esse deslocamento. As grandes convenções globais, como o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, a Convenção Americana e as normas do sistema ONU, foram construídas para controlar Estados, e não corporações. Os tratados de direitos humanos estabelecem obrigações para governos, que respondem perante cortes internacionais e organismos multilaterais. Mas não criam deveres jurídicos diretos para empresas, mesmo quando elas exercem poderes que afetam diretamente liberdade de expressão, privacidade, igualdade, participação política e integridade informacional.

Assim, quando plataformas removem conteúdos de minorias, amplificam discursos de ódio, permitem campanhas coordenadas de desinformação ou reproduzem vieses discriminatórios em algoritmos, não existe tribunal internacional para responsabilizá-las. As violações de direitos humanos por empresas não encontram um foro global de julgamento. A ONU emite recomendações importantes, como os Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos, mas elas não têm força obrigatória, são soft law, orientações éticas que dependem da boa vontade empresarial. E boa vontade, sozinha, não é parâmetro de garantia de direitos.

Enquanto isso, o poder das plataformas cresce porque sua infraestrutura é global, mas as regulações são nacionais, e, portanto, fragmentadas, assimétricas e frequentemente frágeis diante de corporações cuja escala supera o PIB de muitos países. O que se tem, na prática, é um vácuo jurídico internacional, um espaço de não direito, onde as maiores instituições normativas do mundo contemporâneo operam sem um arcabouço de responsabilização à altura do impacto que produzem.

Esse abismo fica ainda mais visível quando se observa como elas regulam a esfera pública. Os termos de uso funcionam como constituições privadas, definem o que é permitido, o que é proibido, o que será punido e qual é o procedimento para contestar decisões, quando existe algum. A moderação automatizada funciona como polícia e judiciário, detecta, julga e sanciona sem transparência, sem contraditório e com margem enorme de erro, especialmente para grupos vulneráveis e línguas não hegemônicas. Uma denúncia pode derrubar páginas inteiras em segundos, enquanto campanhas de ódio persistem por semanas sem intervenção. O impacto dessas decisões não é abstrato, é político, social e humano. São decisões que moldam a opinião pública, influenciam eleições e afetam vidas. E, mesmo assim, não são submetidas a padrões universais de direitos humanos.

A União Europeia tem tentado enfrentar parte desse problema com regulações robustas como o Digital Services Act e o Digital Markets Act. Ambos introduzem obrigações legalmente vinculantes para empresas, impondo transparência, auditorias independentes e avaliação de riscos sistêmicos. Mas, ainda que representem o maior avanço regulatório da era digital, são normas regionais, e não internacionais. Seu alcance é limitado pela jurisdição europeia, e sua eficácia global depende do interesse econômico das empresas em manter acesso ao mercado europeu. Ou seja, não é Direito Internacional, é Direito da União Europeia com efeitos extraterritoriais, motivados pela força do mercado e não pela construção de um sistema multilateral de proteção de direitos.

No Brasil, convivemos com uma combinação de avanços e lacunas. O Marco Civil da Internet foi pioneiro ao consagrar princípios de liberdade, privacidade e neutralidade, mas nasceu antes da explosão dos desafios algorítmicos e da desinformação industrializada. A Lei Geral de Proteção de Dados trouxe salvaguardas importantes, mas não regula a arquitetura de visibilidade das plataformas, nem suas decisões sobre moderação de conteúdo. O PL 2630 busca preencher parte desse vazio, ao exigir mais transparência e mecanismos de accountability, mas enfrenta resistência política e limitações estruturais, afinal, regulações nacionais nunca serão suficientes para disciplinar empresas globais cuja atuação ignora fronteiras.

Essa assimetria cria um cenário perigoso, democracias são obrigadas a operar dentro de infraestruturas privadas sobre as quais não têm controle internacional. Enquanto Estados respondem perante tratados, cortes e obrigações multilaterais, as plataformas respondem apenas a seus acionistas. Isso distorce o equilíbrio democrático e enfraquece a capacidade coletiva de proteger direitos fundamentais. Uma democracia pode ser forte institucionalmente, mas será vulnerável se sua esfera pública for frágil, e, hoje, a esfera pública global é controlada por empresas que não têm obrigações internacionais de proteger pluralismo, igualdade ou liberdade.

Reconhecer esse problema é o primeiro passo para enfrentá-lo. O Direito Internacional precisará se reinventar para incluir empresas de tecnologia como atores obrigados, e não apenas observadores. Precisará criar mecanismos multilaterais de responsabilização, transparência e supervisão, capazes de impor limites ao poder algorítmico da mesma forma que impôs limites ao poder estatal no pós-guerra. Tal como a criação da ONU, da Declaração Universal e dos sistemas regionais de direitos humanos responderam às ameaças do século XX, será necessário um novo movimento internacional para responder às ameaças invisíveis, porém poderosas, do século XXI.

Até lá, continuaremos vivendo em um regime híbrido, no qual governos são regulados por lei e empresas são reguladas por si mesmas. É um modelo insustentável a longo prazo. Democracias não sobrevivem quando a esfera pública é governada por interesses privados sem controle. E a pergunta que nos acompanha, e que ainda não sabemos responder, é talvez a mais importante do nosso tempo, quem governa o mundo da informação, Estados democráticos ou empresas que não respondem a nenhum direito internacional?

Enquanto não houver uma resposta jurídica clara, a realidade continuará sendo esta, as Big Techs governam a esfera pública global com o poder de um Estado, mas sem as responsabilidades de um.


Referências

BALKIN, Jack M. Information Fiduciaries and the First Amendment. UC Davis Law Review, 2017.
BRADFORD, Anu. The Brussels Effect. Northwestern University Law Review, 2012.
BRASIL. Marco Civil da Internet, 2014.
BRASIL. Lei Geral de Proteção de Dados, 2018.
EBERT et al. Business and Human Rights in the Data Economy. 2020.
EU. Regulation (EU) 2022/2065 (DSA).
GORWA et al. Algorithmic Content Moderation. 2020.
ICJ. Digital Technologies and Human Rights. 2022.
OHCHR. ICCPR. 1966.
SAD. Acordos mínimos pró regulação das plataformas digitais. 2023.
SANTOS, Rafael de Oliveira. O artigo 19 do Marco Civil e a desinformação. 2022.
UNITED NATIONS. Guiding Principles on Business and Human Rights. 2011.
ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. 2019.

Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.

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Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    20 de novembro de 2025 2:00 pm

    É bem conhecida a passagem do livro O Príncipe, em que Maquiavel diz que:

    “Deve o príncipe fazer-se temer de maneira que, se não se fizer amado, pelo menos evite o ódio, pois é fácil ser ao mesmo tempo temido e não odiado, o que sucederá uma vez que se abstenha de se apoderar dos bens e das mulheres dos seus cidadãos e dos seus súditos, e, mesmo sendo obrigado a derramar sangue de alguém, poderá fazê-lo quando houver justificativa conveniente e causa manifesta.” (O Príncipe, capítulo XVII, Nicolau Maquiavel, Abril Cultural, São Paulo, 1973, p. 76)

    Essa passagem só pode ser bem compreendida se levarmos em conta a maneira peculiar como Maquiavel descreve a humanidade:

    “É que os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos de dinheiro, e, enquanto lhes fizerem o bem, todos estão contigo, oferecem-te sangue, bens, vida, filhos, como disse acima, desde que a necessidade esteja longe de ti. Mas, quando ela se avizinha, voltam-se para a outra parte. E o príncipe que confiou plenamente em palavras e não tomou outras precauções, está arruinado. Pois as amizades conquistadas por interesse, e não por grandeza e nobreza de caráter, são compradas, mas não se pode contar com elas no momento necessário.” (O Príncipe, capítulo XVII, Nicolau Maquiavel, Abril Cultural, São Paulo, 1973, p. 76)

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    Apesar de ser considerado um inovador por ter removido da política qualquer consideração ética, jurídica, moral ou religiosa, ninguém pode dizer que Maquiavel foi o primeiro escritor a considerar a arena política fundamentalmente asquerosa. Afinal, como disse Hesíodo, que viveu no final do século VIII ou começo do século VII aC:

    “Ó Perses! mete isso em teu ânimo:
    a Luta malevolente teu peido do trabalho não afaste
    para ouvir querelas na ágora e a elas dar ouvidos.
    Pois pouco interesse há em disputas e discursos
    para quem em casa abundante sustento não tem armazenado
    na sua estação: o que a terra traz, o trigo de Démeter.
    Fartado disto, fazer disputas e controvérsias
    contra bens alheios poderias. Mas não haverá segunda vez
    para assim agires. Decidamos aqui nossa disputas
    com retas sentenças, que, de Zeus, são as melhores.
    Já dividimos a herança e tu de muito mais te apoderando
    levaste roubando e o fizeste também para seduzir reis
    comedores-de-presentes, que esse litígio querem julgar.
    Néscios, não sabem quando a metade vale mais que o todo
    nem quanto proveito há na malva e no asfódelo.”
    (Os trabalhos e os dias, Hesíodo, Editora Iluminuras, São Paulo, 2002, p. 23)

    Hesíodo e Maquiavel, cada qual de sua maneira peculiar, referem-se de maneira depreciativa ou realística ao fenômeno do poder e do seu exercício em sociedades complexas nas quais a arena política já conquistou autonomia. Onde essa autonomia não existe, o prestígio e seu exercício não se identificam com o poder e sua imposição e as coisas se passam de maneira muito diferente:

    “… Em regra geral, um chefe não tenta (ele nem mesmo sonha) subverter a relação normal (conforme às normas) que mantém com seu grupo, subversão que, de servidor da tribo, faria dele o senhor. Essa relação normal, o grande cacique Alaykin, chefe guerreiro de uma tribo abipone do Chaco argentino, a definiu perfeitamente na resposta que deu a um oficial espanhol que queria convencê-lo a levar sua tribo a uma guerra que ela não desejava: ‘Os Abipones, por um costume recebido de seus ancestrais, fazem tudo de acordo com sua vontade e não de acordo com a do seu cacique. Cabe a mim dirigi-los, mas eu não poderia prejudicar nenhum dos meus sem prejudicar a mim mesmo; se eu utilizasses as ordens ou a força com meus companheiros, logo eles me dariam as costas. Prefiro ser amado e não temido por eles’. E, não duvidemos, a maior parte dos chefes indígenas teria sustentado o mesmo discurso.” (A Sociedade Contra o Estado, Pierre Clastres, Cosac Naify, São Paulo, 2003, p.224/225)

    “Especialmente encarregado de eliminar os conflitos que podem surgir entre indivíduos, famílias, linhagens etc, ele [o chefe tribal] só dispõe, para restabelecer a ordem e a concórdia, do prestígio que lhe reconhece a sociedade. Mas evidentemente prestígio não significa poder, e os meios que o chefe detém para realizar sua tarefa de pacificador limita-se ao uso da palavra: não para arbitrar entre as partes opostas, pois o chefe não é um juiz e não pode se permitir tomar partido por um ou por outro; mas para, armado apenas de sua eloqüência, tentar persuadir as pessoas da necessidade de se apaziguar, de renunciar às injúrias, de imitar os ancestrais que sempre viveram no bom entendimento. Empreendimento cuja vitória nunca é certa, aposta sempre incerta, pois a palavra do chefe não tem força de lei. Se o esforço de persuasão fracassa, então o conflito corre o risco de se resolver pela violência e o prestígio do chefe pode muito bem não sobreviver a isso, uma vez que ele deu provas de sua impotência em realizar o que se espera dele.” (A Sociedade Contra o Estado, Pierre Clastres, Cosac Naify, São Paulo, 2003, p. 223)

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    Entre esses dois polos, o do prestígio exercitado de maneira eloquente e amorosa sem coerção (Pierre Clastres,) e o do poder que se impõe mediante ardil e temor (Maquiavel), está contida toda a história da filosofia política. Afinal, a conquista e o exercício do poder numa aristocracia, monarquia, oligarquia, democracia ou tirania corresponde uma maneira específica de considerá-lo legítimo. Origem familiar, fortuna pessoal ou familiar, carisma e apoio popular, liderança militar incontestável… o poder perambula de um lado para o outro como se fosse uma divindade caprichosa.

    Indômito, o poder se desloca de uma família para outra, de um indivíduo para outro, de um grupo para outro, de uma religião para outra, de um ramo econômico para outro e de uma tecnologia da comunicação para outra. A imprensa escrita derrubou a monarquia francesa em 1789 e por quase 150 anos estruturou a arena pública. Nos anos 1930, os nazistas consolidaram e expandiram seu poder através do rádio, produzido em massa na Alemanha e vendido a preços populares. Após a II Guerra Mundial, republicanos e democratas norte-americanos transformaram a televisão num local privilegiado de disputa do poder até que em certo momento a política foi totalmente capturada pela encenação e passou a ser exercido diretamente por atores como Ronald Reagan. Mas isso não impediu o surgimento de dinastias familiares: Kennedy, Clinton, Bush e ao que tudo indica Trump.

    A internet democratizou e capilarizou os meios de produção e de difusão de informações. Mas ela foi rapidamente capturada pelas plataformas de internet, que transformam sua imensa capacidade tecnológica de coletar e processar dados em tempo real numa imensa fonte de lucro e de poder político. Esse poder é agora colocado nas mãos das agências de segurança estatal e utilizados militarmente. Isso para não mencionar os crimes que já são cometidos com o uso de ferramentas virtuais extremamente sofisticadas, que os usuários de internet banking geralmente ignoram.

    Quando desligavam seus rádios e televisões, os cidadãos recuperavam sua autonomia. Mas ninguém pode simplesmente desligar os algoritmos que já coletaram e refinaram informações sobre seus hábitos pessoais. Eles continuam a criar processar informações e a criar cenários com base em atividades bancárias, deslocamento espacial, etc… para produzir estímulos: mensagens personalizadas que visam atrair a atenção do dono do smartphone para um produto, serviço ou informação que alguém em algum lugar definiu como sendo relevante.

    A ferocidade eloquente de Hitler, o charme sedutor de JFK, a bestialidade grotesca de Jair Bolsonaro, a fanfarronice de Donald Trump e até mesmo estilo gentil e bonachão do Papa Francisco podem agora ser codificados e transformados em agentes virtuais capazes de deformar a opinião pública. E até aquilo que nós chamamos de “opinião pública” virou algo qualitativamente diferente, porque algumas mensagens são mais populares do que outras não porque foram referendadas por um número maior de pessoas de carne e osso e sim porque são exaustivamente compartilhadas por robôs ou impulsionadas pelos algoritmos das plataformas de internet com base em critérios desconhecidos do público.

    Rapidamente o poder e seu exercício se desloca dos políticos para os donos da infraestrutura tecnológica que ameaça engolir o mundo inteiro para regurgitá-lo de maneira individualizada nas telas dos smartphones de bilhões de pessoas. Nós fomos ou seremos todos rebaixados à condição de apêndices biológicos de vastos sistemas vigilância permanente que coletam e processam dados que produziram mais lucro e poder para Google, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla? Quem garantirá cidadania, dignidade humana e direitos humanos num mundo em que as pessoas valem menos do que os terabytes que elas produzem diariamente?

    O massacre cometido por policiais numa favela do Rio de Janeiro foi comemorado como um sucesso pelos políticos de direita e pela imprensa anti-petista, que tenta colar Lula ao crime organizado Na internet, a matança recebe mais apoio do que desaprovação, sendo incerto quanto
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    desse apoio é automatizado. O contexto que está sendo criado certamente influenciará na próxima eleição presidencial no Brasil. Mas quem está influenciando quem aqui?

    É evidente que a direita brasileira gosta da violência policial, desde que ela seja utilizada apenas contra os pobres e que os policiais, promotores e governadores que realizaram e legitimaram a matança não sejam criminalizados. Centenas de cadáveres orgulhosamente expostos no chão… O que ocorreu no Rio de Janeiro seria considerado pela imprensa um crime inenarrável se tivesse ocorrido em Brasília em janeiro de 2023? Sem dúvida, mas muito embora naquele contexto o uso de violência letal fosse muito mais justificável.

    A repressão policial e judicial ao terrorismo bolsonarista continua sendo intensamente criticada. Imagens do seu Jair chorando são coletadas e reproduzidas à exaustão para emocionar os tolos. Quando defendem o pai, os filhos do candidato a ditador condenado ganham grande visibilidade midiática como se eles mesmos não estivessem respondendo processos criminais, As plataformas de internet impulsionam a campanha pela anistia, pois odeiam o STF. As Big Techs querem ter o poder de regular a si mesmas inclusive e principalmente porque almejam o poder de governar indiretamente o Brasil?

    O presidente dos EUA apoia as empresas de tecnologia norte-americanas com contratos lucrativos e isenções fiscais. Em troca, ele é apoiado de maneira quase incondicional pelos donos da Google, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla. Nesse contexto, convém lembrar que nem mesmo os cidadãos norte-americanos podem dizer que ficarão protegidos da violência política e policial. Afinal, o ICE consome produtos das Big Techs e está rapidamente se voltando contra os opositores de Donald Trump.

    O poder e seu exercício, que se deslocava entre as famílias, os indivíduos, os grupos de pessoas, os ramos empresariais e de uma tecnologia de comunicação para outra, está agora centralizado numa única tecnologia controlada por poucos. As Big Techs não têm e não querem concorrentes privados ou públicos, nem dentro nem fora dos EUA até porque o planeta inteiro (ou aquilo que no planeta tem realmente valor) está armazenado e/ou continuará sendo armazenado apenas nos centros de dados delas. Google, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla se colocaram no topo do mundo justamente por causa da total assimetria econômica e tecnológica entre elas mesmas e os demais, que são ou serão todos obrigados a consumir e utilizar os produtos delas.

    No tempo de Hesíodo, os gregos ainda podiam se concentrar no trabalho e ficar longe das ágoras e dos reis comedores-de-presentes. Homens que não fossem ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos de dinheiro ou mesmo aqueles que tinham esses defeitos poderiam perfeitamente ser cautelosos e manter distância de um príncipe maquiavélico sabendo que ele podia ser temível. Os indígenas nunca tiveram muita dificuldade para se afastar de chefes tribais ineptos e/ou brutais. Mas nós já somos todos tecnologicamente dependentes das Tecnologias da Informação. E nem mesmo os indígenas conseguem deixar de ser vítimas das campanhas de Fake News promovidas contra eles e seus costumes e crenças por evangélicos, ruralistas e garimpeiros gananciosos.

    Ser amado por uma Inteligência Artificial é impossível. Mas os donos das Big Techs já estão criando e disponibilizando amantes virtuais para obter lucro. Ser temido pelos algoritmos é algo irrelevante, porque eles podem invisibilizar os adversários da assimetria tecnológica. O poder de convencimento dos críticos dos barões dos dados pode ser anulado com a produção automatizada de conteúdos a favor deles. Sobretudo, as Big Techs estão em condições de fazer campanhas para destruir a credibilidade de juízes que tentam limitar o poder delas e a ajudar a derrotar políticos considerados inimigos da supremacia total da soberania tecnológica privada.

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    Nós podemos continuar discutindo o prestígio, o poder e seu exercício com base em Hesíodo, Maquiavel, Pierre Clastres etc… Mas seria inútil fazer isso sem levar em consideração o deslocamento do poder da política para a tecnologia, da ágora para o data center, do predomínio da verdade factual para a facticidade da reprodução exaustiva automatizada de Fake News distribuída de maneira cirúrgica a cada cidadão com base em perfis virtuais que foram criados e são atualizados com as informações fornecidas pelos próprios usuários de internet.

    O conflito entre a soberania territorial e a assimetria tecnológica está apenas começando. O primeiro round ocorreu no Brasil durante o governo Jair Bolsonaro, quando territórios indígenas foram invadidos por garimpeiros que, dentre outros recursos modernos, utilizavam Stalink. A vitória eleitoral de Lula permitiu a expulsão dos garimpeiros dos territórios indígenas invadidos, mas o ouro extraído de lá foi exportado (e em grade medida adquirido pelo próprio Elon Musk). O segundo roud está ocorrendo em Gaza, com vitória do genocídio cometido pelos sionistas usando IAs e armas letais contra os palestinos. Genocídio que aliás não tem sido retratado como genocídio e sim como entretenimento israelense ou como uma campanha antissemita.

    O terceiro round ocorrerá na Venezuela ou na próxima eleição presidencial brasileira? A conferir.

  2. Lênin and The Ulianovs

    20 de novembro de 2025 2:12 pm

    Uai…os oligopólios anteriores, como Rothschild, Rockfeller, as 4 irmãs, Hoescht, Bayer, Monsanto, GM, Ford, VW, etc sempre agiram como potências transnacionais.

    Em nome dela foram guerras.

    60 milhões morreram na Europa.

    Nenhuma novidade. Afinal.

    1. Dora Nassif

      21 de novembro de 2025 8:40 am

      Agradeço o comentário, mas o ponto do texto é justamente mostrar que há uma diferença qualitativa entre conglomerados industriais do século XX e plataformas digitais do século XXI.

      Os oligopólios clássicos tinham poder econômico e influência política, mas não atuavam como infraestruturas de comunicação, informação, vigilância e regulação social, como fazem as Big Techs hoje.

      As plataformas definem normas, mediam a esfera pública, coletam dados em escala planetária e operam em um vazio jurídico internacional inédito.

      Por isso, tratá-las como mera continuidade dos oligopólios anteriores é insuficiente para entender o tipo de poder que exercem atualmente, que é mais difuso, mais profundo e muito menos regulado.

  3. AMBAR

    21 de novembro de 2025 11:00 am

    Muito bom post e, como dizem, a solução para um problema difícil está dentro problema. O sistema capitalista que elege a “democracia neoliberal” como forma de estado com liberdade aparente de escolha pelo povo de seus governantes, não deixa de potencializar as desigualdades e a força do poder econômico nas decisões coletivas, logo, quem pode mais chora menos, sempre, e a sobrevivência do mais forte é a consequência natural. Claro que essa é uma visão bem simplista sobre forma de governo e forma de estado, mas, considerando-se comparativamente o sucesso do governo comunista chinês (por exemplo), de um partido só, que em princípio já dissipa dissenções e inimizades partidárias específicas e sabotadoras de políticas públicas; que tem uma forte conotação socialista; que prioriza o bem estar coletivo, com rígido controle econômico do estado sobre a iniciativa privada, sem impedi-la, sem abafar seu desenvolvimento e sem fechar as fronteiras do capital para investimento estrangeiro; que controla o estado; temos uma experiência que permite administrar estados gigantescos por tempo confiável suficiente para PLANEJAR O FUTURO , coisa que não se consegue nem nos reinados, nem nas democracias ocidentais (dada a alternância de poder) nem nas ditaduras, nem nas teocracias, enfim, nas muitas formas de governo que temos visto ultimamente.
    A propósito, que diabos é “mecanismos de accountability”?

  4. José de Almeida Bispo

    21 de novembro de 2025 2:36 pm

    “Enquanto não houver uma resposta jurídica clara, a realidade continuará sendo esta, as Big Techs governam a esfera pública global com o poder de um Estado, mas sem as responsabilidades de um.”
    NÃO HAVERÁ.
    Infelizmente, esse sistema só morrerá por exaustão. Antes, levará a civilização ocidental consigo, com o fim dos Estados, ora já em estado bem adiantado. E balançará o Oriente, obviamente; mas nada próximo do que vai ocorrer ao Ocidente.
    Sob comentário do “Lênin e Ullianovs”… não mais há União Soviética para forçar “Rothschild, Rockfeller, as 4 irmãs, Hoescht, Bayer, Monsanto, GM, Ford…”; e o que ora se apresenta, de fato os põe na mesma situação dos Estados nacionais, a partir dos Estados Unidos da América, agora pertencente a eles; e não em contrário, como antes.

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