A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro reacendeu um debate essencial. O momento não pede euforia punitivista, mas sobriedade democrática.
Para o professor João Cezar de Castro Rocha, da UERJ, transformar Bolsonaro em mártir é oferecer ao bolsonarismo a única chance de reorganização às vésperas das eleições de 2026.
Em publicação nas redes sociais, o escritor alertou que a reação pública à prisão pode definir os rumos da política brasileira no próximo ciclo eleitoral.
“Não nos move o desejo de vingança. O que nos move é o desejo de fortalecer a democracia. 2026 é um ano chave, um ano encruzilhada. Não podemos permitir que Bolsonaro se vitimize. Seria a única chance para que o bolsonarismo voltasse a ganhar o apoio das massas e voltasse a mobilizar multidões”, alertou Castro Rocha, em vídeo publicado no Instagram.
A armadilha da vitimização
Castro Rocha relembra que a extrema-direita tem sobrevivido politicamente muito menos pela capacidade de governar e muito mais pela habilidade de mobilizar ressentimentos. A construção de uma narrativa de perseguição, afirma, é o combustível decisivo para manter coesa a base bolsonarista.
O professor observa que o desgaste do bolsonarismo é evidente. Escândalos envolvendo a própria família corroeram o imaginário do “patriotismo moralizador” propagandeado desde 2018.
No entanto, a euforia diante da detenção serve ao adversário. Quanto maior a festa, maior o potencial de alimentar a figura do perseguido, e, com ela, a reativação do engajamento eleitoral.
“O bolsonarismo definhou ao ponto da quase irrelevância, porque a sua base principal, o patriotismo, foi comprometida pela traição da pátria, pelo crime de lesa pátria cometida por Eduardo Bolsonaro, cometido por Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo se torna a cada dia menos relevante, insignificante mesmo. A prisão em si não devemos comemorar, mas a justiça deve ser cumprida”.
A madrugada que terminou na prisão
A decisão pela prisão preventiva foi decretada na madrugada deste sábado (22), após uma sequência de fatos que acenderam o alerta das autoridades:
- convocação, por Flávio Bolsonaro, de uma vigília em frente ao condomínio do ex-presidente, com potencial para incitar tumulto e risco à ordem pública;
- violação comprovada da tornozeleira eletrônica;
- suspeita de tentativa de fuga para uma embaixada estrangeira.
Relatório da Secretaria de Administração Penitenciária registrou queimaduras em toda a circunferência da tornozeleira. Em vídeo, o próprio Bolsonaro confirmou ter aplicado um ferro quente no equipamento, justificando a ação por “curiosidade”.
O ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos da chamada “trama golpista” no STF, destacou que os eventos da madrugada repetem o método de escalada de tensão e mobilização usado durante a tentativa de golpe de 2023 — episódio pelo qual Bolsonaro foi condenado, em setembro, a 27 anos e três meses de prisão pela Primeira Turma da Corte.
Os próximos passos
Por determinação de Moraes, Bolsonaro foi levado para a Superintendência da Polícia Federal, onde permanece em prisão preventiva. Neste domingo, ele passará por uma audiência de custódia, e a medida será reavaliada na próxima segunda-feira, em sessão extraordinária da Primeira Turma do STF marcada das 8h às 20h.
Independentemente do desfecho, Castro Rocha alerta que a reação pública e a narrativa construída a partir da prisão do ex-mandatário terá peso direto no tabuleiro político que leva a 2026.
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AMBAR
23 de novembro de 2025 9:37 amÓdio festivo e euforia punitivista já! Chega de bom mocismo e contenção, porque a alegria da esquerda demora pra acontecer, é vã, dura pouco e o mal que caracteriza a direita nunca descansa. Aproveitemos!
Edivaldo Dias de Oliveira
23 de novembro de 2025 11:10 amO problema entre a teoria e a prática, a cátedra e a praça pública. É muito cômodo e fácil pregar essa divisão, mas com operar isso na prática? Quer saber: Na dúvida, celebrem, o resto a gente vê depois.