4 de junho de 2026

EUA, IA e Socialismo Democrático, por Alfredo Pereira Jr.

Empresas como Nvidia lucram com IA. Críticos veem uso da IA como parte da acumulação capitalista e disseminação de Fake News.
(Fernando Frazão/Agência Brasil)

1. Crise capitalista nos EUA: Aumento da desigualdade gera crise social. Eleição de prefeito socialista democrático em Nova York como resposta.

2. Valorização da IA: Empresas como Nvidia lucram com IA. Críticos veem uso da IA como parte da acumulação capitalista e disseminação de Fake News.

3. Perspectiva de transição para socialismo: Possibilidade de superar crise capitalista com IA. Previsão de Governança Híbrida Democrática baseada em conhecimento qualificado.

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EUA, IA e Socialismo Democrático

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por Alfredo Pereira Jr.

O Império Norte-Americano se encontra em crise capitalista aguda, em que os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres, fazendo com que o poder aquisitivo da classe média seja rebaixado. Como previsto por Karl Marx, a contradição entre aumento da produtividade e redução do poder de compra da maioria dos consumidores, devido ao processo de extração da mais-valia, inviabiliza a economia de mercado nos moldes capitalistas, gera uma crise social e uma resposta dos trabalhadores contra o sistema. Esta resposta, ainda incipiente, se anuncia na eleição de um prefeito socialista democrático para a Cidade de Nova Yorque.

Ao mesmo tempo em que ocorre a crise social, um ramo empresarial apresenta valorização exponencial de seus ativos; trata-se de empresas que operam com a Inteligência Artificial, entendida como meio eficaz de se acessar conhecimento científico-tecnológico de boa qualidade, necessário para aumentar a eficiência dos processos econômicos e gerar facilidades na vida quotidiana. A empresa Nvidia, produtora de hardware para computação pesada, por exemplo, se beneficiou de aumento em 580% de seu lucro líquido entre 2023 e 2024.

Analistas críticos do processo social, em sua grande maioria, entendem que o uso da IA faz parte do processo de acumulação privada capitalista, e que os algoritmos usados têm como objetivo aumentar o ganho das empresas que produzem as máquinas, os programas, e disponibilizam o serviço para a população consumidora. Acredita-se ainda que, devido ao crescimento da extrema-direita internacional na última década, que tais algoritmos favoreçam a divulgação de Fake News geradas nos computadores dos ideólogos da extrema-direita.

Neste pequeno artigo eu defendo a possibilidade de que a IA, ao invés de acentuar a crise capitalista, possa subsidiar uma superação deste sistema por alguma forma de socialismo, democrático ou não. Aliás, me parece evidente que isso já ocorre na China. Indo mais longe, eu diria que se houver a transição de qualquer país, do sistema econômico capitalista para o socialista, terá que ser com o uso da IA, e não contra ela.

Obviamente, não se trata de uma revolução violenta para instauração de uma “ditadura do proletariado”, com estatização e/ou coletivização dos meios de produção. Essa solução bolchevique/estalinista não faz parte das opções aqui consideradas. IA é força produtiva que ao crescer possibilita superação da contradição do capitalismo. Trata-se agora de uma transição em que a abolição da exploração do trabalho humano ocorreria em parte pela substituição do trabalho pesado pelas máquinas, e em parte por medidas – de um estado popular – de distribuição de renda e criação de oportunidades de trabalho nos moldes da economia inclusiva, solidária e sustentável.

Esse tipo de transição teria sido prevista por Joseph Schumpeter, que argumentou que “o capitalismo se tornaria obsoleto devido ao seu próprio sucesso, e não por falhas, prevendo a ascensão do socialismo como uma consequência de suas próprias conquistas…a produção em massa e a disseminação de riqueza criariam um desejo por igualdade que corroeria a essência da concorrência capitalista” (IA do Google). Seu livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia” detalha essa tese, a qual, evidentemente, difere da visão bolchevique da revolução. Acredito que Marx concordaria com Schumpeter, e não com os marxistas da linhagem russa!

É de se levar em conta que a IA em boa parte é guiada por artigos científicos produzidos por acadêmicos de carreira e tecnólogos geradores de patentes aprovadas de modo criterioso, nunca por ‘Fake News’. Falsidades inventadas pela extrema direita são facilmente refutáveis pela IA. Isso pode virar o jogo, pois as consultas feitas pela população indicam claramente quem está inventando mentiras e quem está fazendo propostas embasadas em dados confiáveis.  Portanto, o que vai definir os rumos da história é o banco de dados que a IA utiliza, juntamente com o que as pessoas irão fazer com ele nas suas práticas sócio-políticas e obras culturais em geral.

As consequências disso para a governança pública podem ser já vislumbradas. Acredito que caminhamos para uma Governança Híbrida Democrática, em que a gestão do estado seria baseada em conhecimento qualificado, utilizando-se os bancos de dados compilados pela IA, que sintetizam o trabalho intelectual humano de gerações, para se promover o bem estar humano, com eficácia e eficiência, sem corrupção e desvios de verbas, seguindo princípios bioéticos também humanos.

Se estas conjecturas estiverem corretas, podemos prever que os EUA encontrarão uma solução para sua economia de mercado, utilizando a IA atualmente em voga, de modo a promover o crescimento das forças produtivas, gerando trabalho e renda, com base em um estado democrático (não no formato atual, com certeza) que envide esforços neste sentido, criando condições para que o crescimento das forças produtivas não seja barrado pela desigualdade econômica crescente. Juntamente com o aumento do desemprego previsto, decorrente do próprio uso da IA, seria necessário implantar um programa de Renda Básica, que possibilite a sobrevivência pessoal, juntamente com um programa de investimento público nos setores produtivos, engendrando um novo sistema econômico, de cunho cooperativo e sustentável, em que a promoção do bem estar social seja mais valorizada que a maximização do lucro privado.

Alfredo Pereira Jr. – Docente da Pós-Graduação em Filosofia da UNESP e Pesquisador do CNPQ – Email: [email protected]

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Rui Ribeiro

    28 de novembro de 2025 9:37 am

    Marx previu a possibilidade da instauração do socialismo sem violência no “Fragmento sobre as máquinas”.

    “(…) Logo que o trabalho, na sua forma imediata, deixe de ser a fonte principal da riqueza, o tempo de trabalho deixa e deve deixar de ser a sua medida, e o valor de troca deixa portanto de ser a medida do valor de uso. O trabalho excedente das grandes massas deixa de ser a condição do desenvolvimento da riqueza geral, tal como o não-trabalho de alguns poucos, deixa de ser a condição do desenvolvimento dos poderes gerais do cérebro humano. Por essa razão, desmorona-se a produção baseada no valor de troca, e o processo de produção material imediato acha-se despojado da sua forma mesquinha, miserável e antagónica, ocorrendo então o livre desenvolvimento das individualidades. E assim, não mais a redução do tempo de trabalho necessário para produzir trabalho excedente, mas antes a redução geral do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, correspondendo isso a um desenvolvimento artístico, científico, etc. dos indivíduos no tempo finalmente tornado livre, e graças aos meios criados, para todos.

    https://ghiraldelli.org/2022/01/22/fragmento-sobre-asa-maquinas/

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