4 de junho de 2026

Estudo aponta práticas anticompetitivas da indústria farmacêutica em diversos países

Livro recém-lançado reúne 129 casos de aumentos abusivos de preços, pressão contra genéricos e formação de monopólios; Interfarma contesta conclusões

Preço de medicamento para epilepsia subiu até 2.600% no Reino Unido entre 2012 e 2016 por manobra regulatória.Na África do Sul, 10 mil mulheres com câncer de mama ficaram sem remédio essencial por preço elevado entre 2010 e 2020.Livro documenta 129 casos globais de práticas anticompetitivas no setor farmacêutico, incluindo cartéis e abusos de patentes.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um medicamento utilizado no tratamento da epilepsia teve seu preço elevado em até 2.600% no Reino Unido entre 2012 e 2016, após uma manobra regulatória adotada pelas empresas detentoras do produto. Em poucos meses, o sistema público de saúde e as farmácias passaram a pagar até 26 vezes mais pelo mesmo remédio, sem qualquer alteração em sua fórmula ou qualidade.

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Outro episódio citado ocorreu na África do Sul, onde cerca de 10 mil mulheres diagnosticadas com câncer de mama ficaram sem acesso a um medicamento essencial entre 2010 e 2020. O preço cobrado pela empresa detentora da patente era considerado tão elevado que inviabilizava a compra pelo sistema público de saúde. Autoridades locais classificaram o impacto como uma violação ao direito à saúde e à vida.

Os dois casos integram a pesquisa apresentada no livro Condutas Anticompetitivas no Setor Farmacêutico, dos juristas Luiz Augusto Hoffmann e Pedro Victor Lacerda. A obra, lançada em novembro pelo Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, reúne 129 episódios documentados de práticas consideradas anticompetitivas por grandes empresas do setor farmacêutico.

Além de exemplos internacionais, o estudo também aborda situações ocorridas no Brasil, como a investigação sobre o mercado de escopolamina. Em 2021, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) recomendou a abertura de processo administrativo ao identificar indícios de atuação em cartel por parte de sete empresas envolvidas na produção do composto, utilizado como insumo em medicamentos antiespasmódicos.

Segundo o órgão antitruste, o esquema teria operado por aproximadamente 30 anos e incluía desde a limitação coordenada da produção e o ajuste prévio de preços até a divisão de clientes e territórios, além da criação de barreiras artificiais para impedir a entrada de novos concorrentes.

Com base em decisões oficiais de dezenas de países, do Brasil à Coreia do Sul, os autores apontam como abusos de patentes, reajustes injustificados de preços, acordos para atrasar a entrada de medicamentos genéricos, cartéis em licitações e ações judiciais de má-fé afetam diretamente a concorrência e o acesso da população a medicamentos essenciais.

Para os juristas, o problema não se limita a contextos nacionais específicos, mas configura um fenômeno global, sustentado por estratégias de exclusão de mercado e falhas regulatórias. “Embora os contextos regulatórios e econômicos variem, os desafios fundamentais e as estratégias ilícitas adotadas pelas empresas exibem uma notável universalidade”, afirmam.

O setor farmacêutico é descrito pelos autores como um “oligopólio diferenciado”, permanentemente tensionado entre a proteção à inovação e a garantia de acesso a medicamentos por pacientes e sistemas públicos de saúde. Diante desse cenário, eles defendem que o enfrentamento das condutas anticompetitivas exige mais do que a aplicação de multas, passando por cooperação internacional, atualização das normas regulatórias e maior integração entre política industrial, propriedade intelectual e defesa da concorrência.

O livro busca, segundo os autores, contribuir para a construção de um mercado farmacêutico mais transparente, competitivo e alinhado ao interesse público.

Resposta do setor

Procurada pela CNN Brasil, a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) contestou as conclusões do estudo. A entidade afirma que o setor opera atualmente sob “padrões éticos e regulatórios robustos” e destaca que foi pioneira na criação do Código de Conduta da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, que estabelece regras rígidas de compliance.

A associação argumenta que análises sobre o mercado devem considerar o contexto e a evolução regulatória do setor no Brasil. Segundo a Interfarma, a apresentação de casos antigos ou ocorridos em outros países, sem a devida contextualização, pode levar a interpretações equivocadas sobre a realidade brasileira atual.

A entidade também ressalta que a inovação científica demanda investimentos elevados e longos ciclos de pesquisa, o que torna a proteção à propriedade intelectual essencial para garantir segurança jurídica e previsibilidade. De acordo com a associação, o atraso médio de 9,5 anos na análise de patentes pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) gera insegurança e desestimula investimentos, motivo pelo qual defende mecanismos de recomposição de prazo quando o atraso é causado pelo Estado.

Por fim, a Interfarma afirma que continuará colaborando com autoridades e a sociedade na formulação de políticas públicas que conciliem inovação, acesso a medicamentos e padrões éticos no setor de saúde.

O Grupo FarmaBrasil, que representa empresas farmacêuticas brasileiras de capital nacional, também não se manifestou. O espaço permanece aberto para manifestação.

*Com informações da CNN.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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