Será que o Chile esqueceu Víctor Jara?
por Katherine Vargas Vargas
Não se trata de acusar o Chile nem de ditar uma sentença moral. Trata-se, antes, de uma preocupação legítima diante de uma tensão que hoje atravessa muitas democracias latino-americanas sobre como convivem a memória das ditaduras com o avanço eleitoral de projetos que reivindicam parte desse passado.
Víctor Jara não foi apenas uma voz emblemática da canção latino-americana. Foi um dos rostos culturais mais visíveis do projeto da Unidade Popular e um aliado ativo do governo de Salvador Allende. Suas canções acompanharam greves operárias, lutas camponesas, movimentos estudantis e o sonho de um país que apostava na justiça social por meio da via democrática. Dos palcos, das fábricas e das universidades, Jara ajudou a dar linguagem e emoção a esse projeto coletivo, e por isso se tornou um dos símbolos mais claros do que essa experiência política significou para amplos setores populares.
O golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 interrompeu brutalmente esse projeto. Jara foi detido na Universidade Técnica do Estado e levado ao então Estádio Chile, hoje Estádio Víctor Jara, utilizado como centro de detenção em massa. Ali foi cruelmente torturado, sofreu fraturas nas mãos e finalmente foi assassinado com múltiplos impactos de bala. Seu corpo apareceu dias depois no necrotério de Santiago, deixando uma mensagem clara, o novo regime não vinha apenas para desmontar um governo, mas para quebrar referências culturais e políticas que encarnavam outra forma de entender o país.
A ditadura de Augusto Pinochet configurou um sistema de perseguição política que combinou detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e torturas em instalações oficiais e clandestinas. Relatórios da verdade e comissões oficiais documentaram milhares de pessoas assassinadas ou desaparecidas e dezenas de milhares de sobreviventes de tortura. Junto com a repressão, foi imposto um modelo econômico neoliberal extremo que aprofundou desigualdades e reconfigurou o tecido social chileno.
Nesse contexto, a eleição de José Antonio Kast como presidente adquire um significado que vai além da alternância ideológica. Kast não é apenas um líder conservador que capitaliza o descontentamento social. Ele se apresentou publicamente como defensor de aspectos do regime de Pinochet e reivindicou seu legado de “ordem” e “progresso” como parte de sua proposta política. Soma-se a isso o fato de que pesquisas históricas comprovaram a militância de seu pai no Partido Nazista alemão, o que acrescenta novas camadas de sentido ao debate sobre memória e projeto político.
A pergunta, então, é inevitável: como pode uma sociedade que viu Víctor Jara ser torturado e assassinado eleger, por maioria, um dirigente que se reconhece herdeiro político de quem tornou possível esse crime? Dizer que se trata de um “povo sem memória” soa contundente, mas é uma resposta profundamente injusta. O nome de Víctor Jara continua vivo em canções, arquivos judiciais e lugares de memória. O que acontece é que essa memória hoje convive com o desgaste de anos de promessas não cumpridas, com a frustração e com o medo de que o presente se torne cada vez mais incerto.
Nesse cenário, as desigualdades, a precariedade e a desconfiança em relação à política não desaparecem, mas tampouco explicam por si mesmas o rumo que um país toma. O que faz a diferença é quem se atreve a transformar esse mal-estar em capital político. Os projetos que reivindicam o legado da ditadura souberam ler esse cansaço e o exploram: apresentam-se como a única saída diante da desordem, prometem soluções rápidas e apontam inimigos simples, enquanto minimizam ou justificam a violência do passado. Não é que a necessidade legitime esse discurso, é que esse discurso se alimenta da necessidade e a utiliza para tornar aceitável o que nunca deveria ter sido.
Assim, a partir da perspectiva do direito internacional dos direitos humanos e da justiça transicional, memória, verdade, justiça e garantias de não repetição são pilares interdependentes. No entanto, a não repetição não se assegura apenas com sentenças nem com lugares de memória. Exige democracias capazes de oferecer horizontes de dignidade, reduzir desigualdades, responder ao medo sem sacrificar direitos e evitar que a segurança se transforme em pretexto para enfraquecer liberdades. Quando essas condições falham, o passado autoritário pode reaparecer, desta vez legitimado pela via eleitoral.
Mais do que um apontamento isolado ao Chile, essa discussão interpela toda a América Latina. Nenhuma sociedade está imune ao risco de trivializar suas próprias feridas históricas quando elas se cruzam com o medo, a desconfiança ou a precariedade, e nenhum símbolo, por mais potente que seja, se defende sozinho. A história de Víctor Jara não pertence apenas à memória chilena, é também um lembrete para todos de que as decisões tomadas hoje, no terreno eleitoral, podem voltar a colocar à prova aquilo que um dia se prometeu não repetir e de que a pergunta, hoje, é se essa vida, suas lutas, sua aposta democrática, o país que imaginou junto a outros, continuam tendo lugar nas decisões que se tomam nas urnas.
“Por Víctor, não quis falar sobre sua morte. O que eu queria trazer de volta ao Chile era a vida de Víctor”. Joan Jara, viúva do cantor e compositor Víctor Jara.
Katherine Vargas Vargas – Advogada colombiana, Mestra em Direitos Humanos, Interculturalidade e Desenvolvimento e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilha.
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