Entre o circuito e o resto
por Eliseu Raphael Venturi
Em certos períodos históricos, a arte questiona suas próprias condições de existência em vez de apenas formas. No Brasil pós-1964, não se tratava mais de saber o que representar, mas se ainda era possível representar. O golpe não produziu apenas censura; produziu uma reorganização profunda dos regimes de circulação, visibilidade e sentido.
É nesse cenário que Cildo Meireles (1948-) e Artur Barrio (1945-) surgem não como estilos ou movimentos, mas como respostas ontologicamente distintas ao mesmo impasse histórico.
Cildo compreende precocemente que o poder moderno, e o autoritário em particular, não se impõe apenas pela violência explícita, mas pela naturalização de seus circuitos. O dinheiro, os sistemas de troca, os meios de circulação cotidiana são mais eficazes do que qualquer discurso oficial. Sua arte no período nasce dessa percepção: não há imagem suficientemente forte para enfrentar um poder que já aprendeu a absorver imagens. É preciso agir onde o sentido circula sem ser percebido como sentido.
Ao infiltrar-se nos circuitos ideológicos, Cildo não produz uma obra a ser vista, mas um desvio a ser vivido. A crítica não se apresenta; ela acontece. Não convoca o espectador à consciência, mas o envolve numa operação silenciosa, quase clandestina, que só se revela quando já produziu efeito.
Essa economia extrema do gesto não é neutralidade; é cálculo político. Ao recusar a retórica, Cildo protege a crítica da captura. Sua arte não pede adesão, não solicita empatia, não oferece catarse. Ela opera como um curto-circuito: algo falha, algo não fecha, algo insiste em circular fora do esperado. Por isso sua obra permanece atual. Não porque fale de ditadura, mas porque compreende o funcionamento estrutural do poder, inclusive em democracias administradas, financeirizadas e algorítmicas.
Barrio, por sua vez, parte de uma constatação oposta e igualmente radical: há situações em que qualquer mediação simbólica já é excessiva. Quando o corpo é violentado, quando pessoas desaparecem, quando o medo se instala como atmosfera cotidiana, transformar isso em signo pode ser uma forma de pacificação.
A resposta de Barrio é brutal em sua simplicidade: não representar, não simbolizar, não estabilizar. Suas “situações” não comunicam uma mensagem; elas instauram um estado de indistinção entre arte e realidade. As trouxas ensanguentadas não dizem nada — e é justamente isso que as torna insuportáveis. Elas devolvem à cidade aquilo que o regime tenta manter fora de cena: o resto, o resíduo, o corpo sem nome.
Barrio não trabalha com sistemas; trabalha com aquilo que os sistemas produzem e descartam. Onde Cildo infiltra, Barrio expõe. Onde Cildo calcula o circuito, Barrio expõe o colapso. Sua recusa à institucionalização não é romantismo nem ingenuidade: é coerência ética. Transformar o trauma em objeto durável seria reinscrevê-lo numa economia de valor que ele rejeita. Por isso sua obra é instável, precária, frequentemente irrecuperável. Ela não quer permanecer; quer marcar.
Ambos, no entanto, compartilham algo decisivo: a recusa da arte como lugar de conforto. Nenhum dos dois oferece imagens redentoras, narrativas claras ou posições morais tranquilizadoras. Em Cildo, o desconforto é intelectual e estrutural; em Barrio, é físico e afetivo. Um age no nível da circulação invisível; o outro, no nível do choque irredutível. Um desmonta o poder mostrando como ele funciona; o outro o confronta mostrando o que ele abandona.
Talvez seja por isso que, diante da produção contemporânea frequentemente esvaziada pela circulação excessiva, ambos pareçam ainda tão vivos. Eles lembram que a arte, quando efetivamente crítica, não compete por visibilidade, mas redefine as condições do visível. Não busca consenso, mas produz fratura. Não administra o conflito; o mantém aberto.
Cildo Meireles e Artur Barrio não são apenas artistas de um período autoritário. São formuladores de duas éticas possíveis da arte contemporânea: a da infiltração silenciosa e a da exposição sem mediação. Entre o circuito e o resto, entre o sistema e o corpo, ambos ensinam que a arte só se torna necessária quando deixa de querer ser suficiente.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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Gaspar Alencar
4 de janeiro de 2026 1:46 pmValeu Eliseu e GGN!
Anônimo
4 de janeiro de 2026 1:47 pmMassa!