Enviado por jns
Fonte: http://www.historia.uff.br/nec/wp-content/uploads/Sobre_rabos_de_cometa…
“Os acadêmicos comem Tinhorão e arrotam Mário de Andrade.”
Do artigo “Sobre rabos de cometa… ou os limites da crítica musical na hegemonia de uma memória de esquerda no Brasil”, de Luisa Quarti Lamarão
“Tinhorão é demonizado pelas esquerdas, por ser aquele que, de alguma maneira, desmascara essa memória vitimizadora da esquerda.”
No caso de José Ramos Tinhorão, ele foi ‘patrulheiro’ e ‘patrulhado’. Patrulheiro por que cobrava dos artistas da classe média um comportamento que valorizasse a cultura popular, fugindo dos ‘ditames’ da indústria cultural; e patrulhado pela esquerda que via em seus artigos uma radicalização nacionalista que punha em evidência os novos rumos da música popular brasileira.
Nesse sentido, Tinhorão representava uma parcela da população brasileira que prezava a conservação de determinados valores culturais – e muitas vezes políticos.
Era um grupo que não necessariamente se engajou a um movimento contra o regime, e preferia culpar terceiros sobre o fracasso da “revolução” da esquerda; no campo cultural, não acreditava no potencial artístico ou revolucionário dos artistas da MPB.
Por isso, Tinhorão é demonizado pelas esquerdas, por ser aquele que, de alguma maneira, ‘desmascara’ essa memória vitimizadora da esquerda.
No caso específico da memória da música popular brasileira, o ‘erro’ de Tinhorão foi contar outra história da MPB e tentar difundi-la, indo de encontro à ‘história oficial’ que a memória de certa esquerda quis institucionalizar. Cada uma das versões sobre a MPB elegeu seus ‘heróis’; para essa esquerda, era importante enaltecer a figura daqueles que resistiram a qualquer forma de repressão política (sambistas do Estado Novo, compositores da ditadura militar…), já para Tinhorão, era preciso dar destaque àqueles que permaneceram fiéis à cultura popular, sem entregar-se às facilidades da ‘indústria cultural’.
[ … ]
Dessa forma, o jornalista conseguiu ser o oposto de tudo que a memória da MPB determinou. Além de padrão de ‘bom-gosto’, os memorialistas quase sempre exaltavam a luta deste estilo musical contra o ‘mercado’. Entretanto, Tinhorão denunciava constantemente a entrega desses artistas da MPB à indústria musical e às influências estrangeiras, em detrimento da qualidade de suas obras. Sua visão classista da cultura brasileira colocava em instâncias separadas a cultura ‘do povo’ e a ‘popular’ – já associada ao mercado. Assim, sua imagem foi invariavelmente associada ao atraso e ao nacionalismo xenófobo.
[ … ]
Apontando para o limite mercadológico do trabalho musical, Tinhorão expôs o ‘calcanhar de Aquiles’ da memória de esquerda forjada para a MPB. Para o jornalista, os imperativos econômicos vinham se sobrepondo aos interesses estéticos e até políticos das canções. Para uma memória que insiste em definir a MPB como música resistente, classificá-la como alienada e/ou vendida é algo inaceitável. Assim, o jornalista colocava em evidência a configuração do resultado histórico em que a esquerda não conseguia reconhecer a sua derrota política.
‘Já sou um sujeito longevo e serei muito mais. Então pode ter certeza que muitas dessas pessoas que me odiavam vão morrer antes de mim. E aí eu ficarei tranqüilo, porque como a nova geração não terá preconceito contra o Tinhorão, lerá os livros do Tinhorão e achará que eram bons.’ – TINHORÃO
Sérgio Rodrigues
4 de fevereiro de 2014 10:22 pmFatiado
Confesso que não entendi!…Talvez porque o Artigo esteja seletivamente fatiado. Tinhorão era um tradicionalista bem fundamentado, mas nunca ouvir dizer que a esquerda o demonizasse, nem tão pouco que a direita o endeusasse!…
Antonio C.
4 de fevereiro de 2014 10:22 pmComentário.
“Quais” esquerdas?
Sem traçar um mapa das esquerdas no Brasil, o que posso dizer é que a relevância dadas às suas questões estéticas é inversamente proporcional à capacidade de falar das e com as pessoas comuns quando se trata de se analisar a MPB.
Como provocação: muita gente fala do funk, mas quando passa a garota de Ipanema, fala-se de amor e se sentem os hormônios.
Por exemplo, o disco “Transa”, de Caetano Veloso. Pago um picolé de coco pra quem conseguir provar que aquele disco é de música popular.
O nacionalismo é tabu. Sua formação esteve e está muito ligada a setores reacionários e conservadores, e Tinhorão está muito longe disso. Muitas teorias do desenvolvimento (com exceção evidente àquelas ligadas ao desenvolvimento autoritário), entre as décadas de 1960 e 1980, favoreceram na elaboração do pensamento “terceiro-mundista”, uma postura mais heterogênea de compreender a própria situação de países latino-americanos sem o apelo às definições eurocêntricas.
Infelizmente, há quem se sinta mais à vontade em ler o Adorno (suas interpretações sobre o jazz são dispensáveis) do que o Tinhorão, muito embora eu considere que o pessimismo do primeiro não nos ajude em coisa alguma.
Rcdo
4 de fevereiro de 2014 10:48 pmPrimor de obscurantismo
Sinceramente, é difícil saber por que cargas d’água este artigo macarrônico, mal escrito e mal alinhavado em idéias e argumentos veio parar aqui.
“História da MPB contada pela esquerda”? Caraca! Esse sujeito está vendo comunistas debaixo da cama? Desde quando Almirante, Zuza Homem de Melo, Sérgio Cabral (pai), Rui Castro, Hermínio Belo de Carvalho, são personagens de “esquerda”???
Quer dizer que todo tipo de malabarismo falsificatório é justificável pra tentar limpar a barra de um crítico parcial e obtuso como Tinhorão? um sujeito para quem a idéia de uma “música brasileira” se restringe a um purismo fundamentalista tão delirante que só poderia ser sintoma clínico da síndrome de Policarpo Quaresma… um sujeito que se acha no direito divino de declarar que Bossa Nova não é música brasileira simplesmente porque ele quer que assim o seja, pelo fato de ser intelectualmente assemelhando a uma criança assombrada pelo fantasma dessa perversão gringa chama a jazz…
Pra defender uma caricatura só mesmo idéias caricaturais!
joao
4 de fevereiro de 2014 11:47 pmBambas comunistas
DE MARÇO DE 2011 – 9H45
Bambas comunistas: militância vermelha em outros carnavais
Durante o período de legalidade do Partido Comunista do Brasil, entre 1945 e 1947, os comunistas tiveram intensa participação nas escolas de samba – para dançar e também para se aproximar do povo.
Por Valéria Guimarães*
Em viagem pela União Soviética no final de 1957, Mário Lago visitou a Rádio de Moscou. Diante do que viu, não pensou duas vezes: “Olha, eu só tenho esperança de que, se algum dia o Partido Comunista tomar o poder no Brasil, não faça o rádio que os camaradas estão fazendo. Vai ser uma chatice e ninguém vai ligar o rádio!” O relato está no livro Mário Lago: Boemia e política, da historiadora Mônica Veloso, publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 1997. Militante e boêmio, Lago era um crítico contumaz do trabalho de propaganda política do partido e da postura ortodoxa dos “camaradas” que renunciavam à vida social em nome da causa comunista. Para ele, não fazia sentido ser militante 24 horas por dia. “Você não pode abrir mão de sua individualidade. Você é um militante naquele momento. Está cumprindo uma tarefa, fazendo uma reunião, está estudando uma coisa. Agora, você continua sendo o homem comum que trabalha numa loja, trabalha numa fábrica, e quando sai do trabalho vai ver o seu futebol, vai se divertir.” Para o compositor, ator e escritor, vida social e militância política nunca foram incompatíveis. Conversas de botequim poderiam ser uma eficiente propaganda partidária. Falar a linguagem do povo e “ser igual a qualquer um” era a senha para conquistar as massas populares para o partido.
segue aqui
http://www.vermelho.org.br/prosapoesiaearte/noticia.php?id_noticia=148897&id_secao=285
joao
4 de fevereiro de 2014 11:54 pmUnião Geral das Escolas de Samba do Brasil
…
Apesar de na década de 40, o samba já estar sendo inclusive incentivado pelo regime nacionalista de Getúlio Vargas, este fato não impediu que durante o ano de 1946 começassem as aproximações entre a UGES e o PCB. Tanto que em 1947, o jornal Tribuna Popular, órgão de imprensa do partido, foi quem organizou o badalado concurso Cidadão do Samba.
Porém, por causa dessa aproximação, e devido ao crescimento do PCB, o poder público começou a incentivar cisões na UGES, a ponto de tentar afastar as escolas de samba dos comunistas. A partir disto, foi fundada em 2 de janeiro de 1947 a Federação Brasileira de Escolas de Samba, que de início recebeu pouca adesão: apenas a Azul e Branco do Salgueiro, entre as grandes escolas, aderiu a FBES, mas esta para camuflar sua real adesão, dizia contar com o apoio de outras escolas, muitas supostamente fantasmas, e outras já extintas. A ligação entre sambistas e comunistas era tão forte que a UGES chegou a ser apelidada por seus opositores de “União Geral das Escolas Soviéticas”
…
http://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Geral_das_Escolas_de_Samba_do_Brasil
joao
5 de fevereiro de 2014 12:02 amPaulo da Portela
– Em 1935, o jornal A Nação promoveu um concurso “a fim de se verificar qual será o maior compositor de sambas dos morros do Rio de Janeiro”.2 Este concurso foi vencido por Paulo da Portela, apesar de Osvaldo Cruz não ser exatamente um morro, era considerado por alguns autores da época como uma “favela na planície”
–
PAULO DA PORTELA: CIVILIZADOR DOS SUBÚRBIOS
Escrito por CARLOS NOBRE
Neste sentido, foi uma figura fundamental na história cultura brasileira nas décadas de 20, 30 e 40.
Paulo Benjamin de Oliveira, o Portela da Portela, trabalhou como lustrador e participou de pequenas agremiações carnavalescas formadas por operários e funcionários públicos.
Começou a frequentar rodas de samba no subúrbio do Rio de Janeiro no início dos anos 1920.
Compositor fecundo, Paulo da Portela fundou com Antônio Caetano e Antônio Rufino dos Reis, o Conjunto Oswaldo Cruz, que depois foi renomeado para Quem nos Faz é o Capricho, Vai Como Pode e, finalmente GRES Portela, em referência à Estrada do Portela.
Paulo da Portela foi um dos que mais lutaram para mudar a imagem estereotipada e preconceituosa que se tinha a respeito do sambista, de malandro e vagabundo, para a de artista de respeito.
Para isso, ele impôs vestuário próprio para sua agremiação, e defendia que todos os portelenses estivessem devidamente vestidos com as cores da escola no dia do desfile. Foi o primeiro presidente da Portela e sua casa foi a primeira sede da escola, muito embora nesta época a sede não fosse nada além de um lugar para guardar os instrumentos.
Era uma glória para o criador da Portela, tinha seu trabalho artístico reconhecido pelas elites, se tornava num grande nome do samba carioca…
Ainda neste mesmo ano, participou da primeira excursão de sambistas ao exterior, indo ao Uruguai, e retornando ao Brasil já no Carnaval.
Apressando-se para participar do desfile daquele ano, desentendeu-se com integrantes da Portela, que não permitiram que seus amigos Heitor dos Prazeres e Cartola, que não estavam devidamente vestidos com as cores da agremiação, desfilassem.
Por conta disso, Paulo não desfilou mais nesse ano e após isso se afastou da escola.
Porém, durante as tentativas dos Estados Unidos da América de construir uma “relação de boa-vizinhança” com os seus vizinhos da América do Sul, Paulo da Portela foi escolhido para ser o modelo da criação do personagem Zé Carioca, bem como para representar o samba no exterior.
Por conta disso a Portela excursionou pelos Estados Unidos, e acabou sendo apresentada no evento pelo próprio Paulo da Portela.
Por conta do seu desentendimento com a diretoria da Portela, Paulo compôs “O Meu Nome Já Caiu no Esquecimento” (“chora Portela, minha Portela querida/ Eu te fundei, serás minha toda a vida”). Cartola também fez na ocasião, um samba, “Sala de Recepção” (“Aqui se abraça o inimigo/ como se fosse um irmão”).
Depois de sua morte, grupos como o Rosa de Ouro e A Voz do Morro e intérpretes como Paulinho da Viola e Monarco realizaram gravações de suas músicas mais famosas, como “Cocorocó”, “Pam-pam-pam-pam”, “Guanabara (Cidade-mulher)” e “Quitandeiro”.
Seu nome é também lembrado em sambas como “Passado de Glória” (Monarco) e “De Paulo da Portela a Paulinho da Viola” (Monarco/ Francisco Santana).
Participativo na política, Paulo da Portela filiou-se ao PTN em 29 de dezembro de 1946, sem nunca, no entanto, ter sido candidato a cargo eletivo.
Foi homenageado junto com José Natalino , o Natal da Portela, e Clara Nunes, pela GRES Portela no ano de 1984, no enredo “Contos de Areia”, que deu o 21º campeonato do Carnaval do Rio de Janeiro à escola, sendo que foi campeã do primeiro dia dos desfiles das escolas de samba e a Estação Primeira de Mangueira campeã do segundo dia, indo disputar o supercampeonato no desfile das campeãs, vencido pela verde e rosa, única detentora deste título.
Em 31 de janeiro de 1949, morre Paulo da Portela, na Rua Carolina Machado, 950, em Oswaldo Cruz, de ataque cardíaco.
O comércio de Madureira fechou para o sepultamento e aquela massa de gente foi atrás do caixão até Irajá. Segundo estimativas da época, tinha sido o maior enterro de todos os tempos, pelos menos, 200 mil pessoas dos subúrbios foram levar seu último adeus ao maior sambista de todos os tempos, o fundador da GRES Portela.
O bumbo marcava a cadência, uma espécie de cantochão saia em fio de voz, dos lábios da multidão, as cuícas e o tarol acompanhavam surdamente.
Foi o maior sepultamento já ocorrido nos subúrbios do Rio de Janeiro. Numa estimativa modesta, acredita-se que, pelo menos, 200 mil pessoas estiveram em seu sepultamento. Era uma demonstração de liderança ímpar na região.
No mesmo dia de sua morte, Paulo da Portela foi a Jacarepaguá, onde se avistou com sambistas. Voltou para Oswaldo Cruz, pensando: seja lá como for, sou um homem respeitado. Onde há samba, todos sabem – eu sou Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela.
Era cedo para ir ao circo. Sentiu sede. Parou num bar na Estrada do Portela. Encontrou vários colegas e todos começaram a beber, conversar, beber. Paulo, na euforia do dia, do circo, da volta, parecia ter-se esquecido das advertências do médico.
Bebia.
Depois do bar, ele foi ao circo Teatro São Jorge.
Paulo, na plateia, aguardava a entrada de amigos em cena.
O reconheceram.
-Olhaí, Seu Paulo!
Mas foi naquele local que Paulo sentiu pontadas no coração e viria falecer depois do espetáculo do circo em sua casa, de ataque cardíaco.
Segundo Marília T. Barboza da Silva e Lygia Santos, em “Paulo da Portela”:
“Até na hora da morte Paulo foi um traço de união entre a cultura dos brancos, ricos e cultos, e a dos pretos, pobres e incultos”.
Bem, sabemos, aqui, que esta afirmação, tem sua relatividade, não foi bem assim, não existe traço de união nenhuma entre culturas antagônicas, né…
Mas fiquemos com uma cultura específica desta área, chamada de gurufim, com Raul Marques e Tancredo Silva, com o samba “Velório no Morro”.
Tudo a ver coma morte de Paulo da Portela:
“Lá no morro quando morre um sambista
É um dia de festa
E ninguém protesta
As águas rolam a noite inteira
Os sem brincadeira o velório não presta
Tem também um gurufim
Que no fim acaba
Sempre em sururu
(Mas é gozado pra chuchu)
Tudo em homenagem ao espírito do sambista
Que parte alegremente pro Caju
(Jogado dentro de um baú)
O pessoal do morro não gosta de tristeza
Vive de moleza
Dentro da filosofia
http://aladebaianas.com.br/w/index.php/novidades/181-paulo-da-portela-civilizador-dos-suburbios
joao
5 de fevereiro de 2014 12:04 amBambas Comunistas
Cassado desde 1928, o Partido Comunista Brasileiro voltou à legalidade em 1945. A alegria durou pouco – dois anos depois, cairia novamente na clan-destinidade – mas foi o bastante para o PCB montar uma grande estrutura e viver seu período áureo. O partidão ficou popular. Tornou-se um grande reduto de intelectuais, explorou ao máximo o carisma de Luiz Carlos Prestes, teve jornais e editoras. Para se aproximar ainda mais das “camadas populares”, adotou uma parceria estratégica com o samba. Sacudindo a poeira de anos de clandestinidade, o PCB ficou íntimo dos sambistas e das agremiações carnavalescas. Prova disso é que esteve bem perto de organizar o carnaval carioca de 1947.
Em viagem pela União Soviética no final de 1957, Mário Lago visitou a Rádio de Moscou. Diante do que viu, não pensou duas vezes: “Olha, eu só tenho esperança de que, se algum dia o Partido Comunista tomar o poder no Brasil, não faça o rádio que os camaradas estão fazendo. Vai ser uma chatice e ninguém vai ligar o rádio!” O relato está no livro Mário Lago: Boemia e política, da historiadora Mônica Veloso, publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 1997. Militante e boêmio, Lago era um crítico contumaz do trabalho de propaganda política do partido e da postura ortodoxa dos “camaradas” que renunciavam à vida social em nome da causa comunista. Para ele, não fazia sentido ser militante 24 horas por dia. “Você não pode abrir mão de sua individualidade. Você é um militante naquele momento. Está cumprindo uma tarefa, fazendo uma reunião, está estudando uma coisa. Agora, você continua sendo o homem comum que trabalha numa loja, trabalha numa fábrica, e quando sai do trabalho vai ver o seu futebol, vai se divertir.” Para o compositor, ator e escritor, vida social e militância política nunca foram incompatíveis. Conversas de botequim poderiam ser uma eficiente propaganda partidária. Falar a linguagem do povo e “ser igual a qualquer um” era a senha para conquistar as massas populares para o partido.
Difícil, para muitos intelectuais do PCB, era conseguir adaptar discurso e prática às circunstâncias. Em correspondência a seu filho Júnio Ramos, encontrada no Arquivo Graciliano Ramos, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, o romancista alagoano escrevia sobre as dificuldades de lidar com as camadas populares em um comício realizado no Rio de Janeiro, em 1945: “Talvez metade do auditório fosse formado pelas escolas de samba. (…) Deus me deu uma figura lastimosa, desagradável, cheia de espinhos. Resolvi não fazer ao público nenhuma concessão: escrevi na minha prosa ordinária, que, se não é natural, pois a linguagem escrita não pode ser natural, me parece compreensível. (…) Decidi, pois, falar num discurso como falo nos livros. Iriam entender-me?”
Os intelectuais no PCB
Cassado desde 1928, o PCB volta à cena política em 1945, permanecendo na legalidade até 1947. Tempo suficiente para montar uma grande estrutura e conhecer o período áureo de sua história. De cerca de dois mil militantes no final dos anos 20, o PCB passa a contar com 200 mil filiados. Mesmo com pouco tempo para a campanha, o desconhecido Yedo Fiúza, lançado pelo partido para concorrer à presidência da República em 1945, obtém a marca expressiva de 10% dos votos. O partido elegeu 14 deputados federais e fez de Luiz Carlos Prestes seu representante no Senado. A crescente popularidade do PCB rendeu-lhe grandes resultados nas eleições para prefeitos e vereadores de 1947, formando a maior bancada do Distrito Federal.
Diversos fatores motivaram a entrada em massa de intelectuais e do operariado no partido. Entre eles, a campanha vitoriosa da União Soviética no combate às forças do Eixo; a volta do PCB à legalidade num cenário de relativa distensão política, caracterizada pela democratização de 1945; e o prestígio de Luiz Carlos Prestes, no partido desde a década de 1930. Jorge Amado, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Edison Carneiro, Cândido Portinari, Dorival Caymmi, Procópio Ferreira, Nélson Pereira dos Santos, Oscar Niemeyer, o maestro Francisco Mignone, o jornalista Pedro Mota Lima, o cronista Alvaro Moreyra, o pianista Arnaldo Estrela e o cientista Mário Schemberg faziam parte do respeitável grupo de intelectuais filiados ao PCB.
Os intelectuais e os artistas do PCB colocavam em prática a política cultural do partido, baseada no realismo socialista, modelo estético stalinista que chegou ao Brasil na segunda metade dos anos 40. A produção de uma arte “genuinamente” proletária era um dos principais instrumentos de educação política das massas. Cabia aos intelectuais do partido alfabetizar os “camaradas” iletrados e ministrar “aulas de conhecimentos gerais”, além de esclarecer pontos fundamentais da teoria marxista-leninista. Teatro, cinema, cartazes, exposições, conferências, poemas: todos os recursos materiais e humanos disponíveis eram utilizados a serviço da causa comunista.
Dispondo de uma estrutura bastante razoável, a imprensa comunista nos anos 1945-1947 cresceu vertiginosamente. O partido contava com diversos jornais e revistas, além de duas editoras, o que deu um grande impulso ao trabalho de divulgação do comunismo no Brasil. Voltado para as massas, o diário comunista Tribuna Popular, de circulação nacional, chegou a tiragens de 50 mil exemplares. Veiculava notícias das agências comunistas internacionais, publicava matérias sobre o movimento operário e a luta camponesa, mas também dava substancial espaço para o entretenimento, visto como um importante instrumento de educação política das massas. Falava-se de cinema, teatro, esportes (com destaque para o futebol), música, notas sociais, fofocas sobre políticos e personalidades em evidência. Os anunciantes, em muitos casos, buscavam uma associação entre os produtos e a linha política do partido, como no caso do “Sabão Russo – contra erupções, espinhas e panos” ou dos perfumes Cavaleiro da Esperança. Na compra dos perfumes por atacado, o consumidor era contemplado com folhinhas com retrato de toda a bancada comunista na Constituinte de 46.
A foice e o pandeiro
O samba, reconhecido nos anos 40 como uma das maiores formas de expressão artística popular, fruto de um complexo processo que Hermano Vianna chamou de “mistério do samba”, também foi privilegiado pelos comunistas. É amplo o espaço dedicado ao mundo do samba na Tribuna Popular. As colunas “O Povo se Diverte” e “O Samba na Cidade” eram publicadas com regularidade. Notas sobre a agenda e os preparativos dos bailes carnavalescos, cartas de leitores sobre o carnaval, homenagens feitas pelas agremiações carnavalescas à Tribuna Popular, divulgação dos assuntos de interesse da União Geral das Escolas de Samba (UGES) faziam do jornal comunista um espaço de participação e representação do mundo do samba. Um forte vínculo ideológico estabelecia-se entre a UGES e o Partido Comunista.
As escolas de samba eram vistas pelo PCB como organismos de concentração das camadas populares e tiveram um importante papel na estratégia de comunicação com o operariado, fiel freqüentador dos grêmios recreativos, uma de suas raras opções de lazer. Por caminhos diversos, como visitas às quadras das escolas, realização de festas eleitorais, nas quais as escolas de samba eram as principais atrações, promoção de torneios de futebol com exibição das escolas de samba e visitas de sambistas à sede da redação da Tribuna, o Partido Comunista se aproximava das camadas populares. Na verdade, havia uma negociação recíproca: a aproximação com os comunistas no período da legalidade também aumentava a credibilidade do mundo do samba junto à sociedade.
Em novembro de 1946, no campo de São Cristóvão, o PCB organizou um desfile em homenagem a Luiz Carlos Prestes, do qual participaram 22 escolas. A maioria dos enredos exaltava o Cavaleiro da Esperança. Diversos intelectuais comunistas faziam parte do corpo de jurados. Paulo da Portela, eleito Cidadão Samba em 1937, um sambista respeitado por sua luta pela aceitação social do samba do subúrbio, também fazia parte do júri. Sagrou-se campeã a escola de samba Prazer da Serrinha. O samba “Cavaleiro da Esperança”, da escola Lira do Amor, de Lourival Ramos e Orlando Gagliastro, recebeu um prêmio especial, não previsto no concurso: “Prestes!/ O Cavaleiro da Esperança/ Um homem que pelo pequeno relutou/ Seu nome foi bem disputado dentro das urnas/ Oh! Carlos Prestes/ Foi bem merecida a cadeira de senador/ Passou dez anos encarcerado/ Comeu o pão que o diabo amassou/ Oh! Prestes.”
Carnaval e eleições de 47
Percebendo o sucesso junto ao mundo do samba, os comunistas buscam estreitar ainda mais a aproximação com as agremiações carnavalescas. Era comum, quase uma regra, que um jornal organizasse os festejos carnavalescos. Em 1947, foi a vez de a Tribuna Popular pleitear o direito de organizar o carnaval.
O primeiro bimestre daquele ano seria bastante agitado para os comunistas: eleições para a Câmara dos Vereadores, em janeiro, e promoção do carnaval. A campanha eleitoral, bastante lúdica, como reivindicava Mário Lago, utilizava em abundância versões de conhecidas marchinhas populares. “Mamãe, não quero”, do comunista Jararaca (da famosa dupla caipira Jararaca e Ratinho), que seria eleito vereador, era uma das mais famosas: “Mamãe, não quero/ Mamãe, não quero/ Mamãe, não quero mais mamar/ Eu já estou grande/ Quero saber em quem é que eu vou votar/ Vota meu filho/ Que és moço e és viril/ Vota pra grandeza e pro progresso do Brasil/ Vota com cuidado/ com cuidado vota/ Dá o teu voto/ A um sincero patriota!/ Não vota, meu filho/ Não crê na marmelada/ Dos que prometem tudo/ E no fim não fazem nada/ Vota com cuidado/ Olhe bem a lista/ Escolha os candidatos do Partido Comunista.”
A tradicional eleição para Embaixador e Embaixatriz do Samba, no ano de 1947, foi organizada pela Tribuna Popular. Um ensaio para um outro pleito do qual o mundo do samba, dentro de poucos dias, não poderia se furtar: as eleições de 19 de janeiro, votando nos candidatos do Partido Comunista. A 15 de janeiro, lia-se na Tribuna: “Doraci de Assis conquista o primeiro lugar. A candidata do Prazer da Serrinha é seguida de perto por Tereza Lima e Luciana Batista. João Amazonas, Pedro Mota Lima e Vespasiano Luz, candidatos da Chapa Popular que os sambistas levarão ao Senado e ao Conselho Municipal, assistiram à apuração.”
Retorno autoritário
Os planos de organizar os preparativos para o carnaval de 1947, conhecido como Carnaval da Vitória, em alusão à vitória sobre o nazi-fascismo, foram frustrados. Embora se diga que os anos 1945-1964 foram marcados pela democratização no país, permanecia ainda um forte traço autoritário, expresso na repressão da “polícia especial” às manifestações dos trabalhadores; na manutenção da censura; na cassação do PCB, em 1947; e na suspensão dos mandatos dos comunistas, em janeiro do ano seguinte.
O PCB, mais uma vez, cairia na clandestinidade. Para diminuir a influência do partido junto às escolas de samba, foi criada uma nova entidade representativa, a Federação Brasileira das Escolas de Samba, que passou a receber a subvenção oficial e a atrair diversas escolas filiadas à União Geral das Escolas de Samba, que foi sendo esvaziada.
Acusadas de “subversão”, várias escolas de samba foram investigadas pela polícia política. Constam nos arquivos do DOPS documentos relativos à “infiltração” de “elementos comunistas” nas escolas de samba, em pleno período de democratização. “Recomendava-se” a substituição desses componentes, sob pena de cassação das licenças de funcionamento. Durante a ditadura militar, a produção de documentos referentes à “subversão” nas escolas de samba aumenta consideravelmente. A documentação estende-se até o ano de 1983, quando a Unidos de Vila Isabel comemorava o aniversário de 85 anos de Luiz Carlos Prestes.
Longe de ser encarado como uma forma de alienação popular, o samba, para os comunistas, foi fundamental para o contato com o operariado. O estreitamento dos laços entre o PCB e as escolas de samba, na segunda metade dos anos 40, consolidou uma parceria bastante sólida. Mesmo durante o novo período de ilegalidade, que se inicia em 1948, a parceria PCB/mundo do samba não se dissolveu. Ao contrário, ganhou novo fôlego com o interesse de setores da classe média, especialmente estudantes universitários e classe artística, que buscavam abrir caminho para a participação das camadas populares nas lutas sociais.
Em 1998, Luiz Carlos Prestes foi louvado na avenida pela Acadêmicos do Grande Rio. Dessa vez, não num desfile promovido pelo partido, mas com todo o aparato que cerca o carnaval carioca da atualidade, no desfile oficial. Sinal dos tempos?
Valéria Lima Guimarães
(Valéria é historiadora e mestre em história social pela UFRJ
http://www.academiadosamba.com.br/memoriasamba/artigos/artigo-017.htm
joao
5 de fevereiro de 2014 12:07 amIntelectuais Partidos As midias comunistas
http://books.google.com.br/books?id=JMNxhrnqX84C&pg=PA207&lpg=PA207&dq=sambistas+comunistas&source=bl&ots=PwUJQL3gin&sig=qKTgNNzp9AFvt1YuqvZduSp5XDc&hl=pt-BR&sa=X&ei=i3jxUtykIKa0sQSv_oHgDA&ved=0CFYQ6AEwCDgK#v=onepage&q=sambistas%20comunistas&f=false
joao
5 de fevereiro de 2014 12:10 amPartido Comunista com o mundo do samba
Livro lançado na Bienal mostra a relação entre sambistas e comunistas
Publicado em 30 de setembro de 2009
No dia 18 de setembro, às 20h, foi lançado o livro O PCB cai no samba: os comunistas e a cultura
popular (1945-1950), de Valeria Lima Guimarães. A autora é professora do Departamento de Turismo da Universidade Federal Fluminense. O livro conta a história da aproximação do Partido Comunista com o mundo do samba e suas interações durante um breve período de legalidade do Partido, na segunda metade da década de 1940. Os comunistas buscavam, através das escolas de samba (uma das mais expressivas formas de lazer das camadas populares já àquela altura),
divulgar os ideais políticos do Partido e eleger os seus candidatos. Os sambistas viam na aproximação com o Partido um importante canal de divulgação e viabilização dos seus interesses.
A pesquisa contou com diversas fontes. Dentre elas os documentos produzidos pela repressão referentes aos sambistas “com características subversivas”. O livro mostra que o PCB se envolveu na organização de desfiles carnavalescos e passou a adotar marchinhas e sambas-enredo em sua propaganda política.
http://nucleopiratininga.org.br/livro-lancado-na-bienal-mostra-a-relacao-entre-sambistas-e-comunistas/
joao
5 de fevereiro de 2014 12:13 amA política que acaba em samba
http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/02/086-089_192.pdf
joao
5 de fevereiro de 2014 12:47 amSamba de uma mão só!
O maior crime musical e que perdura ate hoje!
– Em 1946, a UGES define quais são os instrumentos típicos de escola de samba: violão, cavaquinho, pandeiro, tamborim, surdo, cuíca, reco-reco, tarol e cabaças, institucionalizando a tendência de todos os regulamentos dos anos anteriores, que vinham ano após ano proibindo instrumentos de sopro.
Poderia revogar para avançar sem perde a característica e tradição. O samba não podia ser represado. Melhoria e adicionaria com que estas paradinhas!
Nunca entendi!
Rui Daher
5 de fevereiro de 2014 11:26 amTão simples
Por que não considerar Tinhorão como o que sempre foi, um profundo conhecedor da história da música brasileira? O que já é muito.
jns
5 de fevereiro de 2014 8:04 pmValeu João
Grande colaboração ao post abordando ângulos que tangenciam o tema.
O tinhoso Tinorão seria, inapelávelmente, massacrado, caso ditasse as suas críticas idiossincráticas na blogosfera, que recebe aplausos pela abordagem livre de preconceitos, despida de rédeas e viseiras obscurantistas.