Pé Rachado e Seu Chiclé: duas lideranças que forjaram o quilombo chamado Vai-Vai
por Daniel Costa
Aqueles que vivem o cotidiano das escolas de samba de forma recorrente deparam-se com um debate cada vez mais presente acerca da progressiva ausência de lideranças negras nos postos de comando dessas agremiações, especialmente à medida que o carnaval foi se institucionalizando, profissionalizando-se e passando a operar segundo lógicas empresariais. Em muitos contextos, homens e mulheres negros, responsáveis pela fundação, organização e sustentação cotidiana das escolas, foram gradualmente afastados das posições de decisão, permanecendo sobretudo como símbolos, referências afetivas ou guardiões da tradição. Em São Paulo, contudo, esse processo assumiu contornos particulares, pois a liderança negra não apenas esteve presente como ocupou, por longos períodos, o centro do poder nas principais escolas da cidade. Nomes como Madrinha Eunice, à frente da Lavapés, Carlão, na Unidos do Peruche, Seu Nenê, na Vila Matilde, e, de modo emblemático, Seu Chiclé e Pé Rachado no comando do Vai-Vai expressam uma experiência singular onde o protagonismo negro se afirmou não apenas no plano simbólico. Mas também na condução política, administrativa e cultural das agremiações, garantindo que o samba paulistano se estruturasse a partir de lideranças profundamente enraizadas em seus territórios, comunidades e tradições.
Desse modo, a discussão sobre a ausência de lideranças negras à frente das escolas de samba, sobretudo nas principais divisões do carnaval paulistano, deve ser compreendida como resultado de um longo processo histórico de reconfiguração das agremiações e de seus vínculos comunitários. Conforme demonstra o arquiteto e urbanista Gleuson Pinheiro Silva, as primeiras escolas e cordões surgiram diretamente articulados às experiências de sociabilidade da população negra, em territórios centrais como Barra Funda, Bixiga e Glicério, sendo liderados por figuras negras que exerciam autoridade simbólica, política e cultural no interior dessas comunidades. Esse protagonismo não se restringia aos homens, uma vez que mulheres negras — como Madrinha Eunice, na Lavapés — desempenharam papel central na fundação, organização e financiamento das agremiações, evidenciando formas de liderança ancoradas no cotidiano e nas redes de solidariedade do pós-abolição.
Entretanto, a partir da oficialização do carnaval em 1968, observa-se uma inflexão decisiva nesse modelo de liderança. A incorporação das escolas de samba ao calendário oficial da cidade, a institucionalização dos concursos, a distribuição de subvenções públicas e, posteriormente, a centralidade da televisão transformaram o carnaval em um espetáculo altamente competitivo e mercantilizado. Nesse novo contexto, passaram a ter vantagem as agremiações dirigidas por segmentos com maior capital econômico, político e institucional, frequentemente alheios às comunidades negras tradicionais. Como resultado, as lideranças negras historicamente vinculadas às escolas viram-se progressivamente afastadas dos espaços decisórios, enquanto novas direções, majoritariamente brancas, passaram a ocupar posições estratégicas, sobretudo nas escolas que ascenderam rapidamente aos grupos principais.
Esse deslocamento das lideranças negras não ocorreu de forma isolada, mas articulado a processos mais amplos de segregação urbana e desigualdade territorial. A expulsão da população negra das áreas centrais, a precariedade fundiária das quadras e barracões nas periferias e a concentração de recursos e visibilidade nas escolas mais próximas ao centro e ao sambódromo contribuíram, como aponta Gleuson Pinheiro Silva, para a consolidação de uma hierarquia racializada no carnaval paulistano. Assim, a atual escassez de lideranças negras à frente das escolas de maior destaque expressa não apenas transformações internas às agremiações, mas a persistência de desigualdades estruturais que atravessam a cidade e se refletem na organização, no comando e na própria narrativa oficial do carnaval de São Paulo. Nesse sentido, trazer a público a trajetória de personagens como Seu Chiclé e Pé Rachado significa também evidenciar o papel fundamental de duas lideranças centrais na construção do Vai-Vai enquanto uma das escolas-símbolo do carnaval paulista.
Sebastião Eduardo do Amaral, o Pé Rachado, e José Jambo Filho, o Seu Chiclé, permanecem na memória coletiva do Vai-Vai como figuras que extrapolaram amplamente o papel formal que ocuparam na estrutura da escola. Mais do que presidentes, ambos foram personagens centrais na constituição de um modo de fazer samba profundamente enraizado no bairro. A presença cotidiana de Pé Rachado e Seu Chiclé no Bixiga foi fundamental para a construção de uma densa rede de pertencimento, solidariedade e colaboração, responsável por sustentar a agremiação em um período anterior à plena institucionalização do carnaval paulistano.
Nesse sentido, suas trajetórias confundem-se não apenas com o cotidiano das ruas do Bixiga, mas também com os espaços físicos ocupados pelo Vai-Vai desde seus primórdios. Da primeira sede na Rua Rocha, passando pelo espaço improvisado na Rua 14 de Julho, até a consolidação da antiga quadra da Rua São Vicente, ambos percorreram barracões improvisados, terrenos ocupados e locais marcados pela precariedade material. Eram espaços onde o samba sobrevivia com poucos recursos, mas com intenso apoio comunitário, reafirmando a centralidade da escola como núcleo de sociabilidade no bairro.
Por isso, quando seus nomes surgem nos relatos de integrantes do Vai-Vai ou de moradores do Bixiga que com eles conviveram, não aparecem envolvidos pela solenidade típica atribuída àqueles que apenas exerceram cargos de liderança. Ao contrário, suas memórias emergem com a naturalidade reservada a quem sempre esteve ali: desde o tempo do cordão, antes que o carnaval fosse enquadrado por regulamentos rígidos e estruturas empresariais, quando a escola se confundia com o próprio cotidiano do bairro.
Pé Rachado costuma ser lembrado como uma liderança de ação, alguém que trabalhava mais do que falava. Descrito como “organizado”, era uma figura que reunia uma experiência acumulada, expressa em gestos concretos: varrer o chão, costurar fantasias, organizar ensaios, mediar conflitos e garantir que o cordão não deixasse de desfilar. Em um tempo em que presidir significava estar presente em todas as frentes, sua autoridade não emanava do cargo formal, mas do reconhecimento coletivo.
Foi ele quem, com esforço e visão, alugou a primeira sede do cordão na Rua 14 de Julho, oferecendo um ponto fixo de encontro e organização para a comunidade que construía o cordão. Segundo a jornalista Claudia Alexandre, além da dimensão prática, Pé Rachado deve ser lembrado por trazer “axé para o cordão carnavalesco”, indicando que, desde os primórdios, uma energia espiritual vinculada às tradições de matriz africana já estava presente e era cultivada no grupo, mesmo antes da existência de uma ritualística formalizada.
Episódios aparentemente simples — como o relato de Dona China, que conta ter recebido dele um pedaço de cetim preto para confeccionar seu primeiro vestido — revelam a ética que orientava sua condução da agremiação: transformar a escassez em possibilidade e preservar a dignidade mesmo quando pouco havia. Sob sua presidência, o Vai-Vai frequentemente se adiantava em relação aos cordões concorrentes, iniciando os ensaios e a confecção das fantasias antes dos demais, não apenas por eficiência, mas por compromisso com o samba, com a comunidade e com a própria sobrevivência da agremiação.
Essa postura também se refletia em sua atuação política mais ampla. Pé Rachado esteve presente nas articulações que moldaram a organização do carnaval paulistano, participando de reuniões e disputas que resultaram na criação da UESP, da Confederação e da Federação das escolas de samba. Segundo Álvaro Casado, tratava-se de um personagem que “brigava pelo samba” no sentido mais pleno do termo, negociando, confrontando e defendendo posições sempre que necessário. Sua trajetória, iniciada ainda na juventude em Minas Gerais, ganharia contornos definitivos no Bixiga. Após atuar como batuqueiro e exercer a função de apitador, assumiu oficialmente a presidência do cordão em 1951, permanecendo no cargo até 1973. Pé Rachado não media esforços para impor disciplina, chegando a enfrentar até mesmo outros grandes nomes, como Pato N’Água.
Durante a década de 1960, mesmo diante de severas dificuldades financeiras, foi responsável por desfiles marcantes, como O segundo casamento de Dom Pedro I, em 1966. Já em 1968, o cordão apresentou o enredo A vinda da família real, com figurinos assinados pelo estilista Denner, um dos principais nomes da moda brasileira naquele período. Não é exagero afirmar que, ao longo das duas décadas em que esteve à frente do cordão, Pé Rachado foi uma liderança decisiva para a consolidação, no Vai-Vai, de um forte sentimento comunitário, legitimado pela vivência cotidiana e pelo pertencimento, em uma época em que esse conceito sequer era nomeado dessa forma. A transição do cordão para escola de samba, no início dos anos 1970, ocorreu sob sua gestão, mas também marcou o início de seu afastamento, em meio a conflitos internos e à crescente profissionalização do carnaval. Ao deixar a presidência, o posto passaria a ser ocupado por Seu Chiclé, em um momento que representou não apenas a consolidação do Vai-Vai como escola de samba, mas também uma simbólica passagem de bastão entre gerações.
Por sua vez, Seu Chiclé surge nos relatos de seus contemporâneos e na memória coletiva da agremiação como uma figura ao mesmo tempo complementar e distinta. Se Pé Rachado é lembrado pela organização cotidiana e pela firmeza disciplinar, Chiclé aparece como um articulador silencioso, cuja autoridade se manifestava pela confiança que inspirava na comunidade e pelas decisões estratégicas que tomava sem alarde. Assim como seu antecessor, também foi um batuqueiro habilidoso e, durante o período em que esteve à frente do Vai-Vai, conduziu a conclusão do processo de transição de cordão para escola de samba, consolidando a agremiação como uma das mais vitoriosas de São Paulo. Sob sua presidência, o Vai-Vai conquistou seis títulos, incluindo um tricampeonato nos carnavais de 1986, 1987 e 1988.
Sua presidência coincidiu com a intensificação da visibilidade midiática e com a entrada mais sistemática de recursos públicos e privados no carnaval. Em meio a essas transformações, Chiclé apresentou um perfil pragmático, capaz de lidar com a nova lógica administrativa sem romper completamente com as raízes comunitárias da escola. Episódios como a mobilização espontânea da vizinhança para suprir a falta de materiais na confecção de um carro alegórico, após uma entrevista transmitida pelo rádio, ilustram tanto sua capacidade de liderança quanto a cultura solidária que ajudou a preservar. A serenidade com que reagia aos imprevistos revelava, ainda, um entendimento profundo do significado do carnaval e da força simbólica que ele representava para a comunidade.
Além da dimensão administrativa, Seu Chiclé ocupou lugar central na institucionalização da religiosidade no interior do Vai-Vai. De acordo com Cláudia Alexandre, foi durante sua presidência que o terreiro de samba situado no coração do Bixiga passou a se afirmar também como um terreiro sagrado, reafirmando uma relação que já existia de forma difusa desde os tempos de Pé Rachado. O que antes se manifestava como prática implícita tornou-se fundamento explícito, não por meio de rupturas, mas pela continuidade simbólica.
A atuação de Chiclé foi igualmente decisiva na consolidação do espaço físico da escola. Ao identificar e ocupar o terreno da Rua São Vicente, garantiu ao Vai-Vai um chão próprio em um momento de intensas transformações urbanas e de constante ameaça de despejos. Essa decisão assegurou, por décadas, um espaço de encontro, criação e memória. Ali se formaram gerações de componentes, nasceram sambas antológicos, consolidaram-se tradições e construiu-se uma história coletiva que ultrapassa o espetáculo apresentado no dia do desfile.
Pé Rachado e Seu Chiclé aparecem, assim, como um eixo fundamental entre o improviso e a instituição, entre o cotidiano dos barracões e as negociações mais amplas do carnaval da cidade. Representam dois modelos de liderança que não se opõem, mas se complementam: o primeiro, ancorado na resistência comunitária e no trabalho coletivo; o segundo, voltado à estabilização, à modernização e à formalização de práticas já existentes. Ambos eram batuqueiros que se tornaram presidentes, e sua autoridade derivava do conhecimento profundo do samba e da confiança construída no interior da comunidade.
Por isso, seus nomes permanecem. Não apenas como referências históricas, mas como chaves explicativas de decisões, alianças e disputas que moldaram o Vai-Vai e o próprio carnaval paulistano. Ambos pertencem a uma linhagem de sambistas cuja grandeza se mede pela permanência, pelo cuidado e pela capacidade de sustentar a escola quando tudo ainda era incerto. O Vai-Vai que se consolidou como referência, só se tornou possível porque figuras como Pé Rachado e Seu Chiclé garantiram, em momentos distintos, que a agremiação estivesse pronta para desfilar — no plano material, simbólico e espiritual. Foram lideranças que cuidaram do visível e do invisível, do chão e da encruzilhada, da quadra e do axé, ajudando a explicar por que o samba do Bixiga continua sendo, acima de tudo, um espaço de pertencimento.
Por fim, cabe destacar que, ao recuperar as trajetórias de Pé Rachado e Seu Chiclé, evidencia-se que a história do Vai-Vai — e, por extensão, do samba paulistano — não pode ser compreendida sem considerar o papel decisivo de lideranças enraizadas no território e na experiência cotidiana da escola, responsáveis por garantir sua continuidade em contextos de incerteza e transformação. Essas figuras sustentaram a agremiação não apenas no plano administrativo, mas também no simbólico, no político e no comunitário, preservando formas de organização herdadas dos tempos do cordão ao mesmo tempo em que enfrentavam as exigências da institucionalização do carnaval. É nesse horizonte de transições, disputas e redefinições que se insere também o nome de Sólon Tadeu Pereira, cuja atuação será abordada oportunamente.
Daniel Costa é historiador, jornalista, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo diá Piratininga.
Para saber mais:
Bruno Sanches Baronetti, Transformações na avenida: história das escolas de samba da cidade de São Paulo. 1. ed. São Paulo: Liber Ars, 2015.
Cláudia Alexandre, Orixás no Terreiro Sagrado do Samba: Exu e Ogum no Candomblé da Vai-Vai. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Aruanda, 2021.
Daniel Costa, Samba, Raízes e Identidade: a Trajetória do Vai-Vai. Disponível em: https://jornalggn.com.br/cultura/samba-raizes-e-identidade-o-vai-vai-por-daniel-costa/
Daniel Costa, Vai-Vai – 95 anos de samba. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/vai-vai-95-anos-de-samba/
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário